Sluiskil (Países Baixos) - Foi uma festa com direito a drone na plateia, acionamento remoto da planta industrial e prestígio por parte de altas autoridades europeias.

O AgFeed acompanhou nesta segunda-feira, 7 de setembro, em Sluiskil, a cerca de 2 horas de Amsterdã, nos Países Baixos, a inauguração de um novo projeto da gigante de fertilizantes Yara, que envolveu investimentos de 200 milhões de euros.

Trata-se de uma unidade industrial de captura de carbono com a tecnologia chamada de CCS (carbon capture and storage).

Segundo a empresa, essa é a maior planta do tipo da Europa, com capacidade para capturar e liquefazer 12 milhões de toneladas de CO₂ nos próximos 15 anos.

O projeto está sendo implementado na Yara Sluiskil, que já é considerada a maior fábrica de amônia e fertilizantes da Europa.

O investimento é grande e oportuno: a indústria europeia é taxada pelas emissões de gases de efeito estufa e, por isso, busca alternativas que reduzam esse impacto, não apenas ambiental, mas também do ponto de visto financeiro.

Ao capturar e liquefazer até 800 mil toneladas de CO₂ por ano, provenientes da produção de amônia, a empresa evita a incidência de tributos sobre carbono para esses volumes.

O CO₂ será transportado por navio até a Noruega, onde será armazenado permanentemente abaixo do mar por meio de uma parceria com a companhia especializada no segmento Northern Lights.

Ao ampliar a captura de CO₂, a Yara poderá também aumentar sua produção de fertilizantes de baixo carbono, que hoje já vem sendo vendidos no mercado brasileiro.

Parcerias já estabelecidas com empresas como a PepsiCo e a JDE, do setor do café, a empresa incentiva que o fertilizante “verde” chegue aos agricultores (o custo é mais alto se comparado ao tradicional) e gera uma “cadeia de valor” para os diferentes elos envolvidos na produção de alimentos.

O AgFeed apurou que, até agora, antes do projeto CCS, a Yara vinha produzindo cerca de 40 mil toneladas de fertilizante de baixo carbono.

A partir desta inauguração, a previsão é estar pronta para ampliar significativamente essa produção.

“Depois que o CCS estiver totalmente operacional, teremos capacidade de produzir mais ou menos a quantidade de produto de baixo carbono que for necessária. Será algo na ordem de 400 mil a 500 mil toneladas”, revelou Johan Laby, vice-presidente executivo da Yara Global Production, em entrevista ao AgFeed.

Se confirmada, a estimativa representa um salto de pelo menos 10 vezes em relação ao patamar atual. Os números, porém, vão depender da demanda global pelo produto, lembra o executivo.

A cerimônia desta segunda contou com a presença de executivos de empresas como a PepsiCo, que já colheu as primeiras batatas de baixo carbono, e da Milhão Ingredients, que tem a Amaggi como sócia.

As duas empresas devem iniciar em breve um projeto para a produção de milho de baixo carbono no Brasil em parceria com a Yara, utilizando fertilizantes fornecidos pela fabricante norueguesa.

“O fertilizante produzido com a tecnologia CCS vai chegar ao Brasil em primeira mão”, disse ao AgFeed a diretora de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da companhia no País, Deise DallaNora. “Já temos lá a rota de descarbonização elo biometano, agora trazemos essa nova rota, que vai ajudar a trazer viabilidade no preço”.

No caso dos grãos, a preocupação é, de fato, com a margem apertada dos produtores, que vem causando redução no uso de fertilizantes em meio à disparada de preços.

Na visão do CEO global da Yara, Svein Tore Holsether, que abriu e encerrou o evento, “os agricultores administram negócios, portanto, eles precisam fazer o que é certo para seus resultados financeiros”.

Mas ele lembra que “os formuladores de políticas têm um papel a desempenhar para apoiar os agricultores, levando em mente o que pode acontecer se não obtivermos as colheitas certas no mundo e o que isso pode significar para a acessibilidade dos alimentos”.

Participaram da inauguração os primeiros ministros da Noruega, Jonas Gahr Store, e dos Países Baixos, Rob Jetten.

“A Europa precisa de soluções climáticas práticas que entreguem reduções reais de emissões e, ao mesmo tempo, fortaleçam a competitividade industrial. O projeto de captura e armazenamento de carbono em Sluiskil demonstra o que é possível alcançar quando inovação e cooperação transfronteiriça se unem” , afirmou Wopke Hoekstra, comissário europeu do Clima, Impacto Zero e Crescimento Sustentável, que também fez parte do grupo que acionou o funcionamento da fábrica.

“Este é exatamente o tipo de iniciativa de que a Europa precisa para combinar ambição climática com uma base industrial forte e resiliente”.

Resumo

  • Yara inaugura na Holanda a maior unidade de captura e armazenamento de carbono da Europa
  • Projeto de € 200 milhões permitirá ampliar a produção de fertilizantes de baixo carbono para até 500 mil toneladas
  • Tecnologia deve impulsionar a oferta de fertilizantes de baixo carbono no Brasil e projetos de agricultura sustentável