O crescimento acelerado do mercado de biológicos no País acabou formando uma competição entre produtos que usam tecnologias mais conhecidos.

Até há quem discorde do termo "commoditização" para ilustrar o momento dos bioinsumos, mas para se diferenciar do que está disponível hoje nas prateleiras, uma empresa paranaense já está de olho no futuro desse mercado que ainda dá seus primeiros passos.

A Síntese Agro Science, braço industrial do grupo cerealista e distribuidor Campos Verdes, está investindo R$ 90 milhões para avançar nessa direção. São R$ 60 milhões na construção de um parque tecnológico em Maringá (PR), onde tem sua sede, e outros R$ 30 milhões em recursos de fomento aprovados pela Finep.

A estratégia é não entrar na disputa pelos microrganismos que já estão amplamente disponíveis no mercado. A Síntese decidiu construir uma biblioteca própria e buscar organismos que vivem dentro das plantas, os chamados "endofíticos".

“A gente sabia que o mercado de biológicos já é grande e disponível para muitas marcas, empresas, indústrias. E sabíamos que a pressão viria mais cedo ou mais tarde, pressionando os preços das tecnologias, porque elas já começam a ser tratadas como commodities”, afirma Willian Marcusso, CEO e diretor de inovação e tecnologia da Síntese Agro Science.

A companhia já catalogou cerca de 500 desses microrganismos e pretende usar a coleção como base para desenvolver produtos voltados a diferentes culturas e problemas agrícolas.

“Vimos oportunidade de trabalhar com outro viés: desenvolver um banco próprio de microrganismos, contratar pesquisadores. Queríamos sair do nicho comum e procurar um espaço diferente para trabalhar. E eles trouxeram um modo diferente de olhar microrganismos”, diz Marcusso.

A pesquisa, iniciada pela empresa há alguns anos, agora entra em uma etapa de escala. O parque tecnológico terá 9 mil metros quadrados e deve ser concluído no primeiro semestre de 2027, com capacidade inicial de produção de 5 milhões de litros e possibilidade de chegar a 20 milhões.

A lógica de trabalhar com os endofíticos vem para se diferenciar da que hoje é mais comum no mercado de bioinsumos, formado principalmente por organismos isolados de solos e matérias orgânicas.

Para a empresa, a principal vantagem está justamente no ambiente em que esses organismos se desenvolveram. Dentro da planta, eles não dependem das mesmas condições externas de um microrganismo aplicado sobre o solo ou sobre a superfície vegetal.

Para além de colocar os microrganismos no campo, a Síntese quer entender quais compostos eles produzem e como esses compostos podem ser aproveitados pela agricultura.

É aí que entra uma segunda frente da estratégia. Em vez de depender da multiplicação do microrganismo depois da aplicação, a companhia pesquisa a produção antecipada de substâncias como proteínas, peptídeos e enzimas. Segundo Marcusso, os endofíticos conseguem produzir esses compostos em uma quantidade quatro a cinco vezes maior do que os microrganismos ambientais avaliados pela empresa.

“Nessa próxima fase dos bioinsumos, não comercializo o microrganismo e sim o que ele produziu, como uma enzima ou peptídeo específico”, afirma.

Um dos produtos em processo de registro tem um microrganismo que produz enzimas como quitinase e lipase, que podem atuar sobre estruturas importantes dos insetos e ajudar no controle de pragas. A ideia é que parte do efeito desejado já esteja presente no produto no momento da aplicação, sem depender de um período de multiplicação no campo.

Esse desenho também pode atacar uma das limitações práticas dos biológicos: a estabilidade da aplicação. Ao trabalhar com os compostos produzidos previamente, a empresa busca ampliar o shelf life dos produtos e reduzir problemas de incompatibilidade ou inativação quando diferentes soluções são misturadas no tanque.

A meta da Síntese é levar essa plataforma para uma série de aplicações. Hoje, a companhia mantém uma frente de pesquisa com mais de 60 tecnologias em desenvolvimento, concentrada principalmente em culturas como soja, além de trabalhos em cana e citros.

Na soja, por exemplo, os estudos da empresa incluem produtos voltados ao estresse climático e ao controle de nematoides. Em um dos testes, uma tecnologia aplicada via foliar proporcionou ganho de 10,2% de produtividade em condições sem irrigação. Em outra frente, uma solução com ação bioestimulante e nematicida reduziu em cerca de 70% a presença de nematoides.

Nos citros, a companhia trabalha em uma tecnologia que busca aumentar a eficiência de moléculas químicas usadas no controle do psilídeo associado ao greening. Os testes preliminares apontaram ganhos de eficiência entre 50% e 65%, segundo a empresa.

A Síntese mantém hoje 19 pesquisadores em dedicação integral e pretende ampliar esse quadro nos próximos anos. A meta é chegar a 60 pesquisadores até 2030.

Os primeiros produtos desenvolvidos a partir dessa nova plataforma devem chegar ao mercado no segundo semestre de 2027. A expectativa é lançar quatro soluções nessa primeira leva, depois de um período de testes de aproximadamente um ano com os novos microrganismos.

A empresa espera que essa nova frente ajude a sustentar também a expansão comercial. Para esta safra, a Síntese projeta crescimento de 50% no faturamento em relação à temporada anterior, mesmo diante de um cenário que Marcusso considera mais difícil para o produtor, com pressão ambiental e restrição de crédito.

Resumo

  • Síntese Agro Science investe R$ 90 milhões em parque tecnológico e pesquisa de uma nova geração de biológicos
  • Empresa já catalogou 500 microrganismos endofíticos e quer transformar seus compostos em novos bioinsumos
  • Companhia prevê lançar quatro produtos da nova plataforma no segundo semestre de 2027