Esteio (RS) - Maior produtora de biodiesel do País, a Be8 tem unidades em vários estados e plantas também na Suíça no Paraguai. Mas não esconde suas raízes gaúchas – a sede do grupo fica em Passo Fundo.
Por isso, a estreia da companhia, este ano, com uma casa própria na Expointer, principal feira agropecuária do Sul do Brasil, realizada esta semana em Esteio, na região metropolitana de Porto Alegre, tem um simbolismo especial.
Ela se dá em meio à contagem regressiva para a inauguração, em 2027, de sua nova biorrefinaria, também em Passo Fundo, que deve ampliar a relação da empresa com os agricultores gaúchos.
“Prioritariamente, a proposta é fomentar a produção de trigo no Rio Grande do Sul, criando uma nova demanda para o cereal e contribuindo para tornar o cultivo mais atrativo, ampliando a liquidez ao produtor no estado”, afirmou Erasmo Carlos Battistella, fundador e presidente da Be8, em entrevista ao AgFeed.
“Por ser multicereal, a futura unidade de etanol também permitirá trabalhar com outras matérias-primas”, assinala Batistella, acrescentando que "o empreendimento contribuirá para também reduzir a dependência do Rio Grande do Sul em relação ao etanol importado de outros estados".
A nova usina deve impactar bastante nos resultados da Be8. A companhia declara responder por cerca de 13% do mercado nacional de biodiesel, com capacidade anual de produção de 1,71 bilhão de litros em suas quatro unidades indústrias espalhadas pelo País.
Para 2027, Battistella estima ampliar em 15% sua receita, crescimento já computado acima de uma alta de 10% prevista para este ano. Isso porque a operação da planta de etanol de trigo e outros cereais vai permitir a estreia do grupo em quatro novos mercados.
No ano passado, a Be8 registrou receita líquida de R$ 10 bilhões - avanço de 36% em relação ao ano anterior, e faturamento bruto de R$ 12 bilhões, alta anual de 64%.
Fundada em 2005, a Be8 projeta inaugurar a nova usina no primeiro trimestre de 2027, com previsão de entrega da obra até dezembro. Além do etanol de cereais, a planta será a primeira a produzir glúten vital em escala industrial do Brasil.
Com capacidade inicial de processamento de 525 mil toneladas de grãos por ano e fabricação de até 210 milhões de litros de etanol, o projeto industrial, com investimento declarado de R$ 1,5 bilhão, transformará cereais, em particular trigo e triticale, em etanol, glúten e DDG (Grãos Secos de Destilaria, sigla em inglês) - resíduo do grão que sobra da fabricação do biocombustível, com elevado valor proteico, que vem se expandindo como matéria-prima para o setor de alimentação animal.
Com a venda do CO2, liberado no processo de fermentação do etanol, como insumo para indústrias, como, por exemplo, de refrigerantes e metal-mecânica, a Be8 incorpora, então, ao biodiesel quatro outros produtos.
Nesta agenda, que tem o trigo como carro-chefe, a Be8 já possui contratos em mais de 40 mil hectares em regiões próximas à futura planta, considerando áreas implantadas, em desenvolvimento vegetativo e reprodutivo.
“A demanda adicional poderá ampliar em cerca de 20% o mercado de trigo no Rio Grande do Sul, criando um destino permanente para a produção e estimulando o aproveitamento econômico das áreas agrícolas durante o inverno”, reforça o executivo.
Battistella explica que, no caso do DDG, a expectativa inicial de produção gira em torno de 150 mil toneladas anuais, com potencial rápido de uso tanto no Rio Grande do Sul, quanto em Santa Catarina.
Dados da consultoria Datagro apontam que o consumo brasileiro de DDG deve saltar dos atuais 9 milhões de toneladas para 10,8 milhões em 2030.
No que diz respeito ao CO2, o executivo menciona, ainda, que empresas como a Fruki bebidas, de Lajeado (RS), terão uma alternativa regional para aquisição do insumo, amplamente usado na fabricação de refrigerantes, em vez de ter que importá-lo de outros estados.
“Isso terá impacto positivo, por exemplo em diminuição de custos, devido à distância menor do frete”, afirma Ainda neste ramo específico, complementa o executivo, o CO2 poderá ser comercializado com o segmento metal-mecânico da região Sul, que utiliza o gás em processos de soldagem.
A companhia tem como carro-chefe o Be8 BeVant, biocombustível desenvolvido com matérias-primas como gordura animal e óleo de cozinha, elegível para uso imediato em motores do ciclo diesel.
Segundo o presidente, “ele substitui 100% do diesel fóssil sem necessidade de adaptações nos motores ou mudanças na atual infraestrutura de abastecimento”. O combustível é utilizado, por exemplo, nos veículos da Copa Truck, categoria nacional de corrida de caminhões.
Resumo
- Be8 prepara nova biorrefinaria em Passo Fundo para ampliar a produção de etanol de cereais e fortalecer sua atuação no Rio Grande do Sul
- Companhia projeta crescimento de 15% na receita em 2027, impulsionado pela entrada em novos mercados além do biodiesel
- Usina terá produção de etanol, DDG, glúten vital e CO₂, criando novas oportunidades para produtores e indústrias da região