O agro brasileiro não pode mais se limitar a observar os movimentos da geopolítica mundial. Precisa, isso sim, participar ativamente da construção das regras que vão definir o futuro do comércio de alimentos.
"Nós temos que sentar na mesa onde as regras do jogo são feitas", afirmao presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Ingo Ploger, resumindo o diagnóstico para o setor em um momento de reconfiguração das relações comerciais globais.
Em entrevista ao SpeedCast Andav 2026, iniciativa do AgFeed em parceria com a AgriConnection, gravada durante o Congresso da Andav, o executivo traçou um panorama dos desafios geopolíticos que cercam o setor e cobrou uma postura mais ativa do país nas negociações internacionais.
Para Ploger, o agronegócio brasileiro é especialmente vulnerável às mudanças no cenário global por sua própria natureza. "A agricultura tropical, a agroindústria tropical, é uma agricultura que trabalha em tempos muito dinâmicos", afirmou, lembrando que, com até três safras por ano, o produtor opera praticamente em regime just-in-time — dependente de insumos e defensivos no momento exato em que inicia um novo ciclo.
"A cada quatro meses você tem essa história. Então, qualquer circunstância de Ormuz ou outras afeta imediatamente o seu planejamento. Nem sempre você tem o insumo no momento certo."
A esse risco operacional soma-se uma mudança conceitual nas relações comerciais. O executivo destacou a ascensão do conceito de soberania alimentar — lançado pelo presidente francês Emmanuel Macron, difundido na Itália e agora adotado também pela China — como um fator que altera profundamente as regras do jogo.
"Soberania alimentar faz com que você determine regras novas para o jogo", disse, comparando a situação a uma partida em que as regras mudam ao longo do caminho.
"Quando você está jogando com 11 jogadores e o impedimento vale, de repente o impedimento não vale mais, o outro tem 14 jogadores. Então, é um jogo mais difícil."
Sobre o atual ciclo de margens apertadas e preços baixos, Ploger foi direto ao responsabilizar tanto o cenário externo quanto as escolhas domésticas. "A gente está numa tempestade perfeita, provocada externamente, e a gente tem uma aptidão fenomenal de fazê-la mais perfeita ainda por nossas medidas internas", afirmou.
"Ao invés de aliviar, a gente põe um pouco mais de carga. Ao invés de desamarrar, a gente amarra um pouco mais."
Na avaliação dele, o País tem chegado sempre atrasado nas respostas às crises. "Quando a China coloca uma salvaguarda, nós abrimos para poder fazer importações não razoáveis de países que nos estão contingenciando."
O presidente da Abag não tem dúvidas sobre onde se concentra o principal confronto geopolítico global. "O grande embate, e não é novidade, está entre a China e os Estados Unidos, ponto. É ali que o mundo vai presenciar mudanças tectônicas".
Para ele, a disputa contrasta o planejamento de longo prazo chinês, que "cumpre" o que define, com a postura americana de "ações pontuais ou estratégicas difíceis de acompanhar", em meio a uma Europa "sem rumo" e países buscando se alinhar à nova realidade.
Diante desse quadro, defendeu que o Brasil transforme suas vocações em projetos de nação. "Nossa vocação é alimentar, é energética, é de fibras. A gente tem essa vocação que já corresponde a mais de 25% do PIB, então é relevante. Os nossos riscos aumentam se os governantes, as lideranças, não dão o norte."
Em relação à crise no Oriente Médio e ao fechamento do Estreito de Ormuz, que disparou os preços dos fertilizantes, Ploger foi enfático: o pior ainda não passou.
"Temos mais riscos a caminho. Essa movimentação é absolutamente insegura", alertou, defendendo o fortalecimento das alianças do Brasil — citando os países árabes, Israel, Indonésia, Malásia, a própria China em determinados momentos, os Estados Unidos e a América do Sul.
Ploger também cobrou uma missão de longo prazo para a Petrobras, ligando o preço do petróleo à competitividade do agro. "Se o barril for a US$ 110, US$ 120, depois sai para US$ 80, é uma insegurança gigantesca."
Para ele, o país precisa parar de olhar apenas para o curto prazo. "Muitas vezes a gente brinca, a gente só olha a ponta dos pés e aí a gente não vê o fim da estrada."
O executivo também cobrou mudanças na política doméstica, em especial na condução dos juros. "O Banco Central tem uma dosimetria equivocada. Com 14% ele rasga o tecido empresarial de uma profundidade que é irrecuperável", disse, argumentando que "um juro interbancário de 9% faz o mesmo efeito, só que com isso a gente se torna não competitivo".
E advertiu para o risco institucional. "O nosso maior risco são as instituições — o parlamento, a executiva e o judiciário — avançando um com o outro e não estando em harmonia. Depois das eleições, quem quer que chegue na presidência, se ele não reunir o povo brasileiro num denominador comum, vamos ter problemas infinitos."
Sobre o temor da dependência em relação à China, Ploger relativizou o risco e apontou oportunidades. Lembrou que o país asiático produz hoje mais de 90% da própria alimentação e busca independência ainda maior, mas destacou a evolução esperada do consumo chinês.
"Nesses 5 a 7 ou 10 anos para frente, a China também vai evoluir, vai crescer sua classe média e o seu consumo vai ser diferente. Essa classe média vai consumir coisas de valor agregado maior, que são as nossas carnes, que são as nossas proteínas", afirmou, vendo "com certa naturalidade" a substituição da proteína vegetal pela animal.
Citou ainda o crescimento do consumo de café no país — impulsionado por redes locais como a Luckyn Coffee — como exemplo de novos diferenciais a explorar. "Se essa moda pega nos outros países, nós vamos estar nadando de braçada."
O recado final, porém, foi de ação. Para Ploger, o Brasil precisa de inteligência para decifrar as novas regras e presença para ajudar a defini-las. "Nós temos que ter inteligência para saber quais são as regras do jogo. Nós temos que sentar na mesa onde as regras do jogo são feitas, dentro do campo internacional, que são as normas fitossanitárias, a parte de saúde e a parte de proteínas e assim por diante. É ali que a gente tem que estar", concluiu.
"Nós não precisamos ficar com um receio de que a gente não é capaz, mas a gente não pode estar numa circunstância de que o mundo vai nos consumir e eu não preciso fazer nada."