Barretos (SP)* - Fazia quatro anos que a Minerva Foods não realizava seu Financial Day, evento que reúne funcionários, analistas, investidores e empresas, na Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, o maior rodeio do Brasil, no mesmo município onde nasceu e ainda possui sede administrativa e unidade industrial.
O Parque do Peão, onde o evento realizado, ainda é o mesmo, mas a Minerva que voltou a Barretos é outra. “A gente praticamente dobrou a empresa em quatro anos, o que não é trivial, principalmente no ambiente macro que a gente vive”, avaliou Edison Ticle, CFO da companhia, durante o evento, realizado na manhã desta quinta-feira, dia 27 de agosto
Em 2022, a receita líquida fechou o ano em R$ 32,8 bilhões. No ano passado, foi de 54,8 bilhões.
O crescimento da companhia da família Galletti de Queiroz foi pautado na continuidade de aquisições - em 20 anos, foram 19 aquisições - e na combinação de uma gestão financeira conservadora, aproveitando movimentos de mercado, e de uma forte diversificação de mercados.
Esse último elemento se mostra ainda mais relevante em um ano desafiador como tem sido 2026 para o setor de carne bovina.
De janeiro até agora, o segmento passou a conviver com novas barreiras comerciais em importantes mercados, como a salvaguarda chinesa, que limita o volume de carne importado com tarifa preferencial, e a decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal, além do vai-e-vem das tarifas praticadas pelo governo americano.
"A parte geopolítica, não só por causa dos Estados Unidos, não só por causa do governo Trump, mas por tudo o que está acontecendo, conflitos armados, dos conflitos comerciais, de mudança de sistemas de cotas, de mudança de sistemas de controle, nunca foram tão evidentes e nunca interferiram tanto dentro do dia-a-dia das empresas, especialmente dentro de uma empresa global como é a Minerva", avaliou Fernando Galletti de Queiroz, CEO da companhia, durante o evento.
Queiroz trouxe o exemplo mais recente de como um novo "trovão" para o setor de carne bovina traz algum impacto para a companhia.
Nesta semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, em publicação na rede social Truth, que os Estados Unidos iriam autorizar uma cota de importação adicional de 300 mil toneladas métricas de carne bovina magra com tarifa reduzida a partir do próximo dia 1º de setembro. A medida deve ser válida por 90 dias.
"Há dois dias, a gente achava que isso seria para todos os países que exportam para os Estados Unidos. Ontem à noite, a gente ficou sabendo que os países que serão beneficiados por essa cota nova são exclusivamente Brasil e Paraguai", relatou Queiroz.
Por ora, no entanto, os executivos da Minerva não conseguem estimar ainda o impacto exato dessa medida para a empresa.
É nesse cenário que a diversificação geográfica reforça sua importância na estratégia da Minerva.
Ao fim do segundo trimestre, o Brasil respondia por 57,1% da receita bruta da companhia, seguido por Paraguai (11,7%), Uruguai (10,9%), Argentina (8,1%), Austrália (5%) e Colômbia (3,6%).
Essa diversificação, no entanto, acontece de forma distinta entre os diferentes países.
Além do Brasil, a empresa possui unidades de produção na Argentina, Austrália, Chile, Colômbia, Paraguai e Uruguai, que compõem a estratégia “upstream”, ou seja, com criação de gado.
Já em outros países, como China e Estados Unidos, a companhia opera no formato “downstream”, atuando nas partes auxiliares da criação de gado.
“Hoje nós somos um dos três, se não o maior importador de carne nos Estados Unidos. No Chile, com a mesma situação e mais recentemente na China”, afirmou Queiroz.
Há espaço para mudanças nessa composição, na avaliação do alto escalão da Minerva. Em conversa com jornalistas após o evento, o CFO da empresa, Edison Ticle, explicou que a Argentina pode ser responsável pela segunda maior receita bruta em breve.
“A Argentina está aumentando a produção, está aumentando o abate. Fizemos a ampliação lá na fábrica, há um tempo atrás. Estamos aumentando a utilização de capacidade. E o preço da carne argentina está subindo mais, mais do que de todo mundo, especialmente por causa dessa questão dos Estados Unidos”, disse Ticle.
Em paralelo, além da diversificação geográfica, a Minerva também fez ajustes ao longo dos últimos anos em relação ao perfil de atuação da companhia.
A empresa deixou de focar apenas nos intermediários e passou a buscar uma participação maior junto a clientes finais, como redes varejistas, companhias globais e locais de food service e processadores.
O foco está em produtos de valor agregado e processados, mas os executivos da companhia salientam que isso não quer dizer que sejam produtos ultraprocessados.
“Nós sempre vamos estar olhando quais são os segmentos de mais valor agregado, sejam eles produtos processados ou produtos de características especiais ou de raças especiais ou de formas especiais”, disse Queiroz.
“Só chamo a atenção que aquilo que eu falei, que existe uma confusão entre o que são super processados e super processados, existe uma diferença dentro das nossas análises de resolução”.
A estratégia de crescimento, porém, também ganhou alguns ajustes.
Novas compras de frigoríficos, por exemplo, não estão no radar, adiantou Queiroz. A última e maior compra da Minerva foi a aquisição de um pacote de plantas industriais da antiga Marfrig, atual MBRF, avaliado em R$ 7,5 bilhões, em 2024.
“Considerando que aqui nós chegamos a um tamanho muito próximo do ideal do que nós tínhamos de planejamento, novas aquisições na parte de frigoríficos, eles praticamente estão fora do nosso escopo”, disse Queiroz.
O foco passa a ser, portanto, a captura das sinergias dos ativos incorporados, a eficiência operacional e, principalmente, a geração de caixa.
“A prioridade estratégica é maximizar a geração de fluxo de caixa livre, sustentando margens, fortalecendo a parte do capital de giro, a eficiência de capital de giro e redução de custos operacionais”, afirmou Queiroz.
A Minerva também segue estudando a venda de sua usina de biodiesel em Palmeiras de Goiás (GO) e imóveis, ainda que isso não tenha data para acontecer, de acordo com o CFO da companhia, Edison Ticle.
“É uma estratégia. Se chegar dentro dos valores, das condições que a gente julga correto, é o que a gente vai fazer”, disse o executivo a jornalistas.
Desalavancar, desalavancar, desalavancar
Quando questionado pelos jornalistas, após o evento, sobre as projeções da Minerva para os próximos anos, Ticle resumiu em uma frase o que pensa: “Desalavancar, desalavancar, desalavancar”.
“E desalavancar para não esquecer”, emendou. “E por quê? Porque a taxa de juros no Brasil é abusiva, muito alta. [Com uma] taxa de juros desse tamanho, não têm business que sobreviva com dívida alta.”
A alavancagem da Minerva subiu de 2,7 vezes o Ebitda no primeiro trimestre, para 2,9 vezes no segundo trimestre deste ano, numa estratégia que visa, segundo Edison Ticle, o CFO, a formação de estoques para o segundo semestre do ano.
Com isso, o fluxo de caixa livre foi negativo em R$ 611,4 milhões somente entre abril e junho.
A expectativa da empresa é de reduzir a alavancagem num horizonte que seria ideal de 18 a 24 meses, disse Ticle aos jornalistas.
“Muita gente me pergunta qual é o nível ideal de alavancagem. Para mim, o nível ideal não tem a ver com alavancagem, tem a ver com a parcela do Ebtida que eu gasto para pagar juros”, afirmou o CFO da companhia.
“Fazendo uma conta, você não pode gastar mais do que um terço do seu Ebitda ou 35% para pagar a despesa financeira. Se a gente fizer a conta ao contrário, dado a taxa de juros real que você tem no Brasil e que deve ser nos próximos dois anos, essa alavancagem para trazer a despesa financeira para 35% do Ebtida, deveria ser alguma coisa entre 1,5 e 2 vezes, alguma coisa como 1,7 vezes”, emendou.
Ticle reforçou que, diante do novo cenário de juros e do nível atual de alavancagem, a companhia reduziu a distribuição de dividendos. Pela política da empresa, quando a alavancagem é igual ou inferior a 2,5 vezes, o pagamento mínimo corresponde a 50% do lucro.
Agora, a companhia deve distribuir apenas os 25% do lucro líquido previstos em lei, até que a alavancagem recue a um nível que permita manter as despesas financeiras abaixo de 35% do Ebitda.
A estratégia de desalavancagem ocorre ao mesmo tempo em que a companhia busca recuperar a geração de caixa no segundo semestre.
Ticle explicou que o negócio tem uma dinâmica sazonal, com maior consumo de recursos no primeiro semestre e recuperação no segundo, especialmente à medida que os estoques são convertidos em vendas.
“No ano de 2025, a gente teve um consumo de pouco mais de R$ 1 bilhão no primeiro semestre e devolvemos mais de R$ 2 bilhões no segundo semestre”, afirmou.
Para 2026, a expectativa é repetir esse comportamento: após consumir entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,3 bilhão nos primeiros seis meses do ano, a companhia projeta gerar entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões no segundo semestre.
Uma das principais fontes dessa recuperação deve ser a redução dos estoques. No fim do segundo trimestre, o balanço mostrava R$ 4,8 bilhões em estoques, mas, neste momento, considerando cargas em trânsito, o CFO estima que o volume estocado seja de aproximadamente R$ 5,3 bilhões.
“Se a gente zerar metade desse estoque, a gente vai estar gerando R$ 2,7 bilhões, que é mais do que normalmente a gente vende ao longo do segundo semestre”, disse Ticle.
Uma mudança estrutural em curso
Em meio a diferentes medidas sendo adotadas a todo momento, a diversificação geográfica da companhia acaba sendo um forte diferencial frente a seus concorrentes e ao mercado como um todo, avaliou Fernando Queiroz, o CEO da companhia.
Para além da geopolítica, entretanto, enquanto medidas comerciais restringem determinados fluxos de forma pontual, Queiroz disse que a oferta global de carne bovina também passa por uma transformação estrutural.
O executivo vê uma redução da produção no Hemisfério Norte, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, ao mesmo tempo em que países da América do Sul ampliam sua competitividade.
“Carne bovina cada vez mais vai ser produzida no Hemisfério Sul. A competitividade é do Hemisfério Sul e a competitividade maior, por mão de obra, por condições e disponibilidade, é da América do Sul”, analisou.
Entre os fatores citados pelo CEO como trunfos estão a disponibilidade de pastagens, água e mão de obra, além da combinação entre sistemas de produção a pasto e de confinamento.
Queiroz avaliou ainda que o avanço da produção de etanol de milho também criou uma fonte adicional de competitividade para a pecuária sul-americana, com o uso de coprodutos da produção de grãos, como DDG, WDG e DDGS na alimentação dos animais.
Do outro lado, o CEO da Minerva vê uma redução estrutural da produção de carne nos países desenvolvidos, associada, entre outros fatores, à sucessão das propriedades rurais.
Nos Estados Unidos e na Europa, segundo ele, a dificuldade de manter as novas gerações no campo favorece a consolidação das propriedades e a mudança de uso das áreas.
“[Nos processos de] sucessão, há uma consolidação, uma venda das propriedades para grandes conglomerados, especialmente para conglomerados que vão estar produzindo biocombustíveis, basicamente soja para biodiesel e milho para etanol”, afirmou.
Essa combinação de oferta mais restrita no Hemisfério Norte e maior competitividade da América do Sul sustenta, na visão do executivo, uma perspectiva favorável para o mercado de carne bovina no médio e longo prazo.
A companhia também observa mudanças no comportamento dos consumidores, com Queiroz destacando a resiliência da demanda mesmo diante da alta dos preços.
“Estamos nos surpreendendo, nesse mercado novo, com fatores como a inelasticidade do consumo de carne bovina. Os preços sobem e a demanda não cai”, afirmou.
*O repórter viajou a convite da Minerva Foods
Resumo
- Após quase dobrar de tamanho em quatro anos, Minerva deixa novas aquisições de frigoríficos fora do radar
- Com juros altos, companhia mira reduzir a alavancagem à frent e reforçar a geração de caixa
- Diversificação geográfica ganha peso diante de barreiras comerciais