O Brasil se tornou essa potência global da produção e exportação de soja, nas últimas décadas, por vários motivos. Mas o maior deles, com certeza, foi a capacidade dos pesquisadores brasileiros de desenvolver uma soja capaz de se adaptar ao clima tropical e ao solo do Cerrado.
A façanha foi conquistada, principalmente, graças à Embrapa Soja, braço da empresa pública de pesquisa agropecuária que foi criado há 51 anos.
A questão é que do outro lado estava a China, comprando cada vez mais soja no mundo e crescendo a demanda de forma exponencial.
Tudo estava perfeito enquanto a China se limitava a importar os grãos e seguia com uma agricultura de pequenas propriedades e baixa produtividade.
Essa história, porém, está prestes a mudar. O 15º Plano Quinquenal anunciado pela China este ano reforça a ideia de aumentar a produção doméstica de alimentos e reduzir a dependência externa.
A estimativa é de que, na soja, os chineses buscam uma redução de 25% no volume importado, o que, considerando os patamares atuais, seriam 23 milhões de toneladas a menos, entre 2026 e 2030.
“É isso ou até mais. Se for 25% (de redução), ainda a gente fica feliz”, afirmou o Chefe-Geral da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno, que acaba de voltar de uma temporada de um mês visitando a cadeia produtiva na China.
Em entrevista exclusiva ao AgFeed, ele revelou alguns dos pilares do plano chinês em busca de autossuficiência alimentar, mas também destacou que tem havido uma troca benéfica para os dois lados, entre pesquisadores brasileiros e cientistas do país asiático.
“Hoje, 35% do que chega na China de produtos agrícolas vem do Brasil. Mais de 70% da soja, mais de 40% da carne bovina e no algodão nós somos o segundo maior exportador”, lembrou.
A questão é que, depois do susto da pandemia, a China estaria mudando do just-in-time para o just-in-case, segundo ele. Quer dizer, se houver uma crise geopolítica e tiver restrições para acessar os produtos americanos, por exemplo, poderia contar com sua produção interna de alimentos.
A demanda chinesa de soja, atualmente, está em mais de 130 milhões de toneladas, mas a produção do país é de apenas 20 milhões de toneladas.
“O Brasil, no ano passado, mandou 87 milhões de toneladas para eles. A gente produziu 180 milhões e 87 milhões de toneladas foram para lá. Então, existe uma dependência absurda e mútua”, ressaltou.
Diversificação de fornecedores
Alexandre Nepomuceno contou ao AgFeed que, nesta última viagem, visitiu cinco regiões da China. Ficou claro que um dos pilares para reduzir em 25% a dependência na soja começa não só pela produção local, mas pela diversificação de fornecedores.
Os chineses estariam incentivando a produção de soja na Índia e também na Rússia, que, com as mudanças climáticas, agora teria uma disponibilidade de área maior.
“Nos últimos 10 anos, a Rússia dobrou a produção de soja. É pouco ainda. São 7 milhões de toneladas por ano. Mas eles têm área. Com as mudanças climáticas, eles têm condição”, afirmou.
Na prática, a China não sabe quais frentes em que está investindo realmente devem vingar, mas entendem que o Brasil está do outro lado planeta, o que significa maiores custos de transporte, segundo Nepomuceno.
Ele lembra ainda que metade dos recursos da Nova Rota da Seda chinesa foi destinada à África, principalmente para obras de infraestrutura como ferrovias, rodovias e portos.
“Recebi uma demanda aqui da Nigéria. Eles também estão investindo em pegar tudo o que a gente tropicalizou aqui de variedades de soja, de milho, de algodão, e estão levando para a África”, revelou.
O chefe da Embrapa Soja diz que, apesar de muita gente duvidar desse potencial africano, em função das guerras, corrupção e questões políticas complicadas, o investimento financeiro da China pode sim acabar viabilizando o aumento da produção agrícola no continente.
Um estudo da própria Embrapa teria indicado um potencial de 200 milhões de hectares na África subsaariana, em função das condições de solo e clima muito semelhantes a uma faixa brasileira do Centro-Oeste.
Foco em aumentar a produtividade chinesa
Apesar de ser o quarto maior produtor de soja no mundo, a China ainda tem baixo rendimento por hectare nas lavouras.
“Não chega a 2 mil kg por hectare, a produtividade média do país (China). A média brasileira é 3,6 mil kg por hectare. Então, eles estão com um trabalho muito intenso, usando as técnicas mais recentes de biotecnologia, de genética, para aumentar a produtividade deles. Isso é uma decisão de governo”, explicou.
Em paralelo, os chineses reduziram o teor de farelo de soja na ração animal em 3%. “Hoje, a China é o maior produtor de aminoácidos sintéticos do mundo. Então, eles já produzem esses aminoácidos que podem suprir essa lacuna dos 3%. Isso já é norma lá”.
Os chineses também vêm buscando aprimorar a genética dos animais para aumentar a conversão alimentar. O AgFeed ouviu relatos de empresas que mandaram missões ao Brasil para conhecer mais sobre a genética suína por aqui, por exemplo.
Embora o território chinês seja enorme, há poucas áreas agricultáveis, mas o país já está buscando soluções para isso.
Nepomuceno conta que visitou a região do Yellow River, no nordeste chinês, com muita área de deserto.
“Eles têm lá uma área em que o potencial é em torno de 50 milhões, mas vamos dizer que seja 40 milhões de hectares. O Brasil plantou no ano passado 50 milhões de hectares de soja”.
Essas áreas, no entanto, têm alto teor salínico, solos muito alcalinos, diferente do que ocorre no Brasil, mas isso não deve ser empecilho.
“Eles estão usando genética de ponta e todas as frentes, que é o melhoramento clássico, o melhoramento assistido por marcadores moleculares, o sequenciamento de genoma, a edição gênica, a própria transgenia, para poder usar esses solos, ou seja, recuperar esses solos para a agricultura. E eu vi, ninguém me mostrou, eles já têm lá várias linhagens de soja, de milho, que são adaptadas a solos mais salinos. Se vão conseguir, só o tempo vai dizer”.
“Nos últimos 4 anos que eles estão investindo pesado em genética, em pesquisa para melhorar a produtividade, principalmente a adaptação para solos mais degradados. Assim como a gente adaptou a nossa soja para o Cerrado, que é o contrário, são solos ácidos. A gente corrigiu esses solos com calagem, corrigiu com fertilizantes. Eles estão começando a fazer a mesma coisa com a genética, corrigindo solos”.
China domina genética
Na visão de Nepomuceno, o plano chinês de aumentar a produção de soja deve ser considerado factível em função da “ciência e tecnologia”, já que o país investe muito neste pilar.
“Eles tinham um PIB inferior ao nosso na década de 1960. Hoje o PIB deles é 10 vezes maior que o nosso. Eles investem 2.8% do PIB deles em ciência e tecnologia, ou seja, mais de US$ 500 bilhões. O Brasil investe 1.2%, ou seja, pouco mais de US$ 20 bilhões”.
O pesquisador da Embrapa diz que, atualmente, a China é o país que mais publica estudos e artigos na área de genética.
“Até 10 atrás, se fizesse uma busca no Google Scholar, a cada 10 artigos, 70% eram autores americanos, europeus, um ou outro chinês. Agora, se fizer esse exercício, buscando só CRISPR, por exemplo, que é a tecnologia mais recente de edição gênica, de cada 10 artigos, muito provavelmente 8 serão chineses”.
Nepomuceno afirma a China já passou os Estados Unidos no número de pedidos de patentes na área de genética.
Um exemplo deste fenômeno, ele cita, é a chinesa DBN, uma empresa de biotecnologia e genética que já está no Brasil. Recentemente, a companhia levou 27 sementeiros brasileiros para conhecer suas instalações na China. Há também os casos da Long Ping, considerada uma das maiores empresas de sementes do mundo, e da KingAgroot.
Essas três empresas, que são grandes players na China, estariam submetendo com frequência suas tecnologias para validação na CTN-Bio, órgão brasileiro de biossegurança que analisa a liberação ou não de determinadas biotecnologias.
“Se olhar o plano do Xi Jinping pra 2030, tem duas coisas muito claras lá: segurança alimentar e resiliência geopolítica. E pelo pacote da segurança alimentar, o setor sementeiro, o setor de genética, eles querem dominar a semente”.
Ao importar quase 90 milhões de toneladas de soja brasileira, que é transgênica, os chineses estariam pagando o custo da biotecnologia da semente, tradicionalmente americana. Por isso, haveria mais uma vantagem para a China, passar a importar soja que use a biotecnologia chinesa.
“A gente fala muito de sensoriamento remoto, transformação digital. Só que a gente tá falando muito pouco da revolução da genética”.
O Brasil está ajudando?
Empresas especializadas na conexão entre empresas dos dois países dizem que cada vez mais têm visto pesquisadores brasileiros atuando na China, participando da força-tarefa para elevar a produtividade da soja.
Questionado pelo AgFeed, Alexandre Nepomuceno disse não lembrar de casos onde o cientista deixou o Brasil para morar na China, mas confirmou que a quantidade de viagens curtas para lá vem aumentando, assim como a vinda cada vez mais frequente dos chineses para fazer intercâmbio no Brasil.
Esse ano a Embrapa Soja, por exemplo, já recebeu dois chineses. Um deles segue trabalhando em pesquisas na sede, em Londrina (PR). Além do próprio Nepomuceno, que foi no primeiro semestre, um outro pesquisador viajou à China junto com o grupo levado pela DBN.
O que existe de concreto, ele explica, é um projeto para mapear os 100 anos de história da soja, globalmente, feito em parceria com vários países, incluindo Brasil e China.
“É para entender os 100 anos de evolução da soja, como é que a soja aumentou a produtividade, como é que foi essa combinação de genes que foi feita ao longo dos anos, através dos melhoristas, para esse aumento de produtividade”.
Nepomuceno considera importante essa proximidade com a China, mesmo que às vezes seja alvo de críticas sobre estar “entregando” o que temos aos asiáticos, porque, atualmente, “quem está liderando a inovação na área de genética são eles”, com recursos financeiros, laboratórios e milhares de pós doutores.
“O Brasil não está investindo isso em ciência e tecnologia. Então, a gente tem que tentar acompanhar, a gente acompanha. Não que a gente não tenha capacidade, muito antes, pelo contrário, a gente tem gente muito bem formada, temos um know-how tremendo. O que falta ainda é investimento”.
Ele lembra que, na área digital, ainda há a presença do seed money para cientistas e doutores, para montar e financiar empresas e projetos de inovação, mas na área de genética “se vê muito pouco”.
A Embrapa Soja busca por meio do intercâmbio com chineses avançar nas pesquisas no Brasil. Como a origem da soja é a China e os principais materiais surgiram há 4 mil anos, seria uma fonte fundamental para seguir avançando no desenvolvimento de novas tecnologias.
O Brasil foi fortemente afetado pela disparada no preço dos fertilizantes fosfatados, por exemplo, insumo fundamental na soja. E a genética poderia ajudar.
“Nessa parceria com os chineses, a gente está recebendo materiais, variedades, genótipos, tipos de soja, que são mais tolerantes à falta de fósforo. A gente está entendendo com eles como esses genes funcionam para colocar nas nossas variedades, para diminuir a nossa dependência de fertilizantes fosfatados”, ressaltou.
O controle de doenças, como a busca de soja resistente à ferrugem, seria uma outra linha importante para avançar no Brasil, além da resiliência climática, para reduzir o abortamento dos grãos, segurando a planta até que venha a próxima chuva.
“Quem está na vanguarda de usar a inteligência artificial para entender essa complexidade, já tem identificado mais de 50 mil genes. É cada vez mais usar essas ferramentas para essa convergência da transformação digital com a transformação na genética. Quem lidera isso hoje no mundo? Os chineses”.
Na opinião do chefe da Embrapa, os chineses também têm interesse em ajudar o Brasil porque querem preservar a produção por aqui, evitando perdas com as mudanças climáticas e garantindo ainda boa parte do fornecimento.
“Não estamos entregando. É uma troca. As empresas deles já estão aqui no Brasil. Já estão pegando as variedades aí no mercado. Eles estão vendo já como a gente tropicalizou. As empresas deles estão aqui desenvolvendo variedades”.
Brasil precisa reagir
Apesar do esforço da China, é fato que o país continuará sendo um comprador importante da soja brasileira. Mas se a demanda diminuir e a produção do Brasil seguir crescendo, qual seria o efeito no mercado?
É algo que os brasileiros já deveriam considerar desde agora, apostando em “agregar valor” cada vez mais, na opinião de Alexandre Nepomuceno.
Ele lembra que há outras fontes de proteína no planeta, mas nenhuma em larga escala e aos preços da soja. E o Brasil domina esse mercado, desde o plantio, manejo, controle de pragas e doenças tropicais, até o armazenamento.
“A soja é 6% do PIB brasileiro. Então o que a gente tem que fazer? Qual é a estratégia do Brasil se a China realmente conseguir reduzir? É agregar valor. A Esalq mostra que para cada tonelada de soja exportada em grão, a gente coloca R$ 2 mil no PIB brasileiro. Agora, se exportar essa soja em forma de valor agregado, na forma de carne, são R$ 7 mil. Três vezes mais emprego. É isso que o Brasil tem que fazer”.
Nepomuceno defende que o novo salto que o Brasil precisa dar está relacionado ao que chama de “química verde”. Nos Estados Unidos já seria uma realidade. Além de matéria-prima para biocombustíveis – o que já ocorre no Brasil já que 80% do biodiesel é feito de soja – os americanos estão usando soja para produzir pneus e também asfalto.
Grandes companhias como a Goodyear já estariam utilizando essa matéria-prima, uma soja e um óleo de melhor qualidade. Alguns pneus já usariam 60% de óleo de soja na empresa.
“A gente está mudando de um planeta, de uma economia fóssil, pra uma economia de química verde. E a soja, pelos volumes que ela tem de produção, principalmente do Brasil, o pessoal fala de macaúba, fala óleo de palma, dendê, pinhão manso, camelina. O Brasil tem uma riqueza tremenda de óleos vegetais, de espécies que tem que ser usadas na agregação de valor, na indústria brasileira. Mas ninguém bate o óleo de soja. No ano passado foram 20 milhões de toneladas de óleo de soja”.
Na Embrapa Soja, em Londrina, pesquisadores já estão desenvolvendo uma soja capaz de um produzir um óleo que se assemelha ao de oliva.
“O óleo de soja, querendo ou não, ele não é um dos melhores. Quando queima, ele produz borra, ele polimeriza, porque ele tem baixos níveis de um óleo chamado ácido oleico. O óleo de soja, ele tem vários ácidos graxos. A soja tem 20% de ácido oleico, que é um óleo assim, mais nobre, vamos dizer. Ela tem um muito óleo polissaturado, que aí quando queima, ele produz borra, ele polimeriza, ele tem um custo pra te usar ali na indústria química que é de hidrogenação”.
“Na Embrapa Soja, a gente está com vários materiais já em que mudou de 20% pra mais de 80% os teores de ácido oleico.”
“O óleo de soja produz gordura trans quando ele é usado. O óleo de oliva, não. Então, a gente está fazendo isso de uma forma, usando a genética, usando a edição gênica. Já conseguimos, mas o Brasil ainda não tem nenhuma variedade de soja alto oleico”.
Os americanos vão atingir em 2029, em torno de 6 milhões de hectares com essa soja de melhor qualidade. Hoje, eles já têm 2 milhões de hectares, segundo o chefe da Embrapa.
“A gente está mexendo na bioquímica do óleo, mas as características organolépticas, sabor, cheiro, não vai mudar isso. A gente só está mexendo nessas características de saturação do óleo, que assemelha ele ao óleo de oliva, mas não é. Não vai ter cheiro, não vai ter sabor”.
A expectativa é uma demanda mais sofisticada por esse óleo. Nos EUA, já estaria sendo usado para fritar a batata do McDonald’s. O objetivo é reduzir a gordura trans.
O óleo de soja alto oleico também está sendo usado para fazer sola de sapato e correias industriais. “É isso que o nosso setor produtivo de soja deveria estar conversando muito de perto com o setor químico brasileiro pra investir”, defendeu.
As aplicações da soja são inúmeras, mas a conclusão da conversa com Alexandre Nepomuceno é a certeza de que o Brasil precisa fazer seu próprio plano, para ficar preparado, quando a demanda chinesa não for mais a mesma e não suportar mais o aumento consistente da produção brasileira que vem sendo registrada nos últimos anos. Do contrário, o resultado seria uma inevitável queda de preços e desestímulo ao produtor brasileiro.
Nepomuceno deixa o cargo de chefe-geral da Embrapa Soja no próximo dia 31 de agosto, mas se diz orgulho pelo trabalho realizado nos últimos seis anos. Além de R$ 50 milhões em investimentos, renovando veículos antigos e máquinas agrícolas, com uma reserva de R$ 20 milhões em caixa com os projetos. Ele volta ao papel de pesquisador, onde promete seguir buscando alternativas para o futuro da soja no Brasil.
Resumo
- China planeja reduzir em 25% as importações de soja até 2030, elevando os riscos para o principal mercado da produção brasileira
- País asiático investe em genética e produtividade, enquanto amplia fornecedores e busca diminuir a dependência externa de alimentos
- Embrapa defende que o Brasil agregue valor à soja e avance em biocombustíveis, química verde e produtos de maior valor agregado