“É o primeiro ano dos três de operação que o produtor nos procurou ativamente para fazer diagnósticos”. A frase de Pedro Lian Barbieri, diretor de operações da EarthOptics no Brasil, resume o momento que a agtech americana vive no País.
Especializada em inteligência do solo, a empresa chegou ao mercado brasileiro em 2023 e, desde então, ampliou a operação para mais de 600 mil hectares analisados.
A EarthOptics atende cerca de 700 produtores brasileiros, já realizou mais de 30 mil amostras e tem atuação mais forte em Mato Grosso, Goiás e Paraná. A companhia também começou a expandir a operação para Paraguai, Uruguai e Argentina, usando o laboratório de Campinas (SP) como base para a América do Sul.
“Outro indicador que gosto é gente desde 2023 conosco e que volta todo ano. Se ele volta, é porque funciona”, prosseguiu Barbieri, em entrevista ao AgFeed.
A operação por aqui começou sob a marca Pattern Ag, empresa também americana, em uma parceria com a Lavoro, numa relação que previa exclusividade com a rede de revendas. No fim de 2024, porém, a EarthOptics se juntou com a PatternAg globalmente e unificou as operações sob a primeira marca.
Com o fim da exclusividade, a empresa ampliou a atuação no Brasil e passou a trabalhar com revendas, consultores, empresas de consultoria, produtores, usinas de cana e companhias de biológicos. A lógica da atuação, segundo Barbieri, é que a análise não termine no laudo, mas se transforme em uma decisão de manejo.
“Nosso modelo é por amostra. O cliente sinaliza uma área, gera as amostras, a gente faz a análise e devolve a entrega técnica. Depois, sai o resultado e um time senta junto para ajudar a interpretar. Tem um acompanhamento técnico. O laudo por si só não serve para nada”, explicou o diretor.
A tecnologia combina sensores, inteligência artificial e metagenômica para analisar características físicas, químicas e biológicas do solo. A amostra é coletada e processada inicialmente em Campinas, onde a empresa extrai e purifica o DNA. O material segue então para o laboratório matriz nos Estados Unidos, onde é feito o sequenciamento.
O diferencial está na técnica utilizada. A EarthOptics trabalha com shotgun metagenomics, uma tecnologia que permite identificar, além de fungos e bactérias, organismos como nematoides e genes funcionais presentes no solo.
Um dos principais usos no Brasil está justamente nos nematoides. Segundo Barbieri, a tecnologia permite fazer uma varredura mais ampla da propriedade do que a análise convencional, ajudando a identificar áreas com maior pressão da praga e direcionar o manejo.
Isso também abre espaço para uma conexão com o mercado de biológicos. Em vez de tratar toda a área da mesma maneira, a proposta é identificar onde há necessidade de produtos químicos e onde alternativas biológicas podem ser usadas para controlar o problema. “Um cliente chamou de ‘bioprecisão’ e gostei do termo”, contou.
A busca por esse tipo de ferramenta ocorre em um momento de maior interesse pelos biológicos e de pressão sobre os custos dos insumos. Para Barbieri, a metagenômica pode ajudar justamente a entender se um produto está funcionando e onde sua aplicação faz sentido. “Em vez de sair aplicando por aplicar, verifica a eficácia. Estamos centrados nisso”, disse.
A soja continua sendo o principal mercado da operação, mas a empresa também começou a avançar em cana-de-açúcar e no setor florestal, enquanto o café aparece como uma frente de crescimento. No caso dos biológicos, a EarthOptics vê espaço para usar o diagnóstico como uma etapa complementar à adoção dos produtos.
A expansão brasileira faz parte de uma operação global que já mapeou mais de 3,5 milhões de hectares entre Estados Unidos e Brasil. A EarthOptics também monitora 2,4 milhões de créditos de carbono por meio de seu sistema e, segundo Barbieri, faturou mais de US$ 16 milhões globalmente (cerca de R$ 82 milhões pela cotação atual), e já ultrapassando o breakeven.
A companhia levantou US$ 24 milhões em uma rodada de Série C em novembro de 2024, elevando o total captado desde a Série A para mais de US$ 60 milhões. Agora, a estratégia é crescer em novas geografias e melhorar as margens da operação.
No Brasil, a meta é manter um ritmo acelerado de expansão, mesmo diante de um ano mais difícil para o produtor. “Nossa meta no Brasil é continuar o crescimento no Brasil e na América Latina. Esse ano é mais difícil, mas estamos na meta de crescer pelo menos 50% por ano”, afirma.
O carbono aparece como uma segunda frente de negócios. Nos Estados Unidos, a EarthOptics atua no monitoramento, reporte e verificação de projetos de créditos de carbono e, segundo Barbieri, responde por cerca de 90% dos créditos gerados no país nesse mercado. No Brasil, a companhia já tem a estrutura para desenvolver projetos, embora a geração de créditos ainda avance mais lentamente.
“Estamos indo para um viés de agricultura regenerativa, mas também tem a questão do carbono, outro pilar nosso, até complementar: medição de carbono e projetos de crédito, principalmente o voluntário”, diz.
Para a empresa, a expansão dos biológicos e da agricultura regenerativa amplia a necessidade de entender o que acontece dentro do solo. E, para Barbieri, o próprio comportamento dos produtores nos últimos meses mostra que esse mercado começa a amadurecer.
“Agora, chegando perto do plantio da soja, o volume de negócio tenderia a cair, e a gente não está vendo ele cair. O produtor está indo atrás. Manejos que eu posso fazer, pode ter acidez de solo, compactação ou patógenos que impeçam de eu chegar lá", finalizou.
Resumo
- EarthOptics já analisou mais de 600 mil hectares no Brasil e realizou 30 mil amostras para cerca de 700 produtores
- Agtech americana usa metagenômica para mapear nematoides e orientar o uso de químicos e biológicos no manejo das lavouras
- Operação global já fatura mais de US$ 16 milhões, e empresa mira crescimento anual de 50% no Brasil e na América Latina