A mineira BHub, empresa de contabilidade e de back office as service, foi criada em 2021 e tinha poucos clientes no agro até adquirir a Agrocontar, em outubro do ano passado, de olho em expandir sua carteira também para o campo.

Desde então, a empresa tem focado, de um lado, em aprender com o know-how de 25 anos da Agrocontar, criada em 2000 e, de outro, abarcar mais tecnologia aos serviços da companhia recém-comprada.

“A gente mantém todos os profissionais de excelência, mantém os escritórios, mantém tudo que era bom e agora, estamos trazendo a parte de tecnologia, traz serviços que a gente tem e contribuem para o processo”, afirma Jorge Vargas Neto, CEO e fundador da BHub, em entrevista ao AgFeed.

Um dos símbolos desse novo momento foi apresentado durante o Congresso Andav, evento que reuniu empresas do setor de insumos na semana passada, em São Paulo.

Na ocasião, a BHub trouxe ao mercado o UniAgro, uma plataforma de gestão financeira voltada a clientes da Agrocontar que foi criada para transformar os dados das empresas do agronegócio em informações para apoiar decisões sobre margens, rentabilidade, fluxo de caixa e crédito.

A companhia estima que a plataforma possa contribuir para devolver R$ 1 bilhão em crédito aos clientes neste ano.

A ferramenta já é utilizada por cerca de 700 clientes da empresa. A meta é chegar a 2 mil até o fim de 2026.

A plataforma é integrada aos principais sistemas de gestão utilizados pelos clientes e usa inteligência artificial para analisar os dados que já estão dentro de ERPs como SAP e Totvs, entre outras empresas conhecidas desse setor.

A proposta é que o empresário consiga, por exemplo, simular o impacto de uma mudança de preço sobre sua margem financeira sem precisar construir manualmente um relatório ou alimentar uma ferramenta de BI.

“Ele gera insights de como você pode gerir melhor o seu negócio, ele faz simulações ali de margem, gerando uma visibilidade financeira muito mais intuitiva do que no próprio ERP”, diz Jorge Vargas Neto, o CEO da Bhub.

Outra vantagem é que a ferramenta, por estar plugada nos sistemas de gestão, consegue trazer dados atualizados.

"Normalmente, o que um escritório tradicional de contabilidade faz? Ele vai ter uma reunião trimestral para mostrar o resultado e vai montar um BI que não está atualizado. Na reunião, a informação já vai estar atrasaado", diz.

"Ao passo que, a nossa ferramenta, já está plugada nativamente no ERP. Sempre está atualizada e gerando os melhores insights.”

A plataforma é exclusiva dos clientes da Agrocontar. Novos clientes que entrarem para a carteira também terão acesso ao UniAgro, mas a ferramenta não é oferecida de forma independente.

BHub quer avançar nos polos agrícolas

Antes de adquirir a Agrocontar, a BHub negociou com outras empresas, mas optou por comprar o escritório de contabilidade mineira pelo know-how que a companhia já tinha e pelo potencial que um grande player já tinha.

“A Agrocontar é, disparadamente, a maior do setor, e é por isso que a gente se associou à Agrocontar”, conta Vargas Neto. "No primeiro semestre, a gente se preocupou muito em garantir essa transição da melhor forma possível."

Hoje, a BHub, considerando as estruturas da Agrocontar, possui escritórios em Goiânia, Patos de Minas, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza.

A previsão é abrir entre seis e oito escritórios regionais ao longo de 2027. "Muito focados no agro", adianta Jorge Vargas Neto.

A empresa mira montar escritórios na região Sul, além de outros estados onde já possui clientela robusta como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Bahia.

Vargas Neto não descarta também ter base nas cidades-polo do agro como Sinop e Sorriso.

"São cidades que, naturalmente, a gente já tem uma clientela bastante relevante e que a gente precisa, a gente quer estreitar cada vez mais o relacionamento com o nosso cliente também", diz.

O principal público da Agrocontar são revendas de insumos agrícolas, mas a empresa trabalha também com revendas de máquinas e produtores rurais. "A ideia é que a gente cresça ainda mais nessas verticais", diz.

No caso dos produtores rurais, em específico, a ideia da Bhub é aproveitar o contexto da reforma tributária para auxiliar produtores rurais pessoa física que estão buscando a tranformação para pessoa jurídica.

"Com a reforma tributária, faz muito mais sentido você ser PJ do que você continuar na pessoa física", diz.

A empresa também mantém conversas com cooperativas, embora ainda não tenha fechado contratos nesse segmento, segundo Jorge Vargas Neto.

A partir da inclusão da Agrocontar, que fatura R$ 40 milhões, segundo informações do site Brazil Journal, a Bhub projeta faturamento de R$ 208 milhões em 2026, ante R$ 110 milhões no ano passado.

“Estamos mais dobrando o faturamento todo ano”, comenta o fundador e CEO da Bhub, sem revelar, no entanto, o faturamento específico atual da Agrocontar.

A BHub também não revela o valor pago pela Agrocontar. Mas a aquisição foi sustentada por uma extensão de uma rodada de investimentos de US$ 10 milhões anunciada no fim de 2025, liderada pela Next Billion Capital Partners, com participação de fundos globais como Valor Capital, Monashees e Hedosophia.

Com esses recursos e outros aportes que a empresa já havia captado em outras rodada, o volume total de aportes na BHub supera a marca de R4 300 milhões.

Com uma carteira de mais de 8,5 mil clientes, com clientes conhecidos como as gestoras Pátria e Tapon e as startups Kovi e ISA Saúde, a BHub funciona no modelo de back office as a service.

Na prática, a empresa fica responsável pelas áreas de contabilidade, fiscal e financeiro de companhias de maior porte, que geralmente já não estão mais enquadradas no Simples Nacional, modelo de tributação comum a pequenas e médias empresas.

De Patos de Minas para o agro nacional

A tecnologia chega em um momento de transformação da Agrocontar, que nasceu em 2000, em Patos de Minas (MG), a partir de um pequeno escritório de contabilidade fundado por Ailton Rodrigues.

Rodrigues começou a trabalhar ainda na adolescência, como office-boy em escritórios de contabilidade. Ao longo dos anos, ganhou experiência no setor até ter a oportunidade de abrir o próprio escritório, em 2000.

No início, a empresa atendia clientes de diferentes setores. “Tínhamos clientes de todo tipo: bar, supermercado, mercearia, loja de material de construção”, recorda o fundador da Agrocontar.

A aproximação com o agronegócio começou em 2002, quando Rodrigues assumiu a área contábil de uma empresa do setor. A partir daí, novos clientes ligados ao agro foram chegando e, em 2006, as empresas do segmento já respondiam por 40% da receita do escritório na região do Triângulo Mineiro.

Naquele momento, Rodrigues tinha o irmão como sócio. Diante do avanço da carteira de clientes do agro, os dois decidiram dividir a operação: Rodrigues ficou com os clientes ligados ao setor, enquanto o irmão assumiu a carteira restante.

A decisão veio da percepção de que havia espaço para uma expansão maior no segmento.

“Na origem, a maioria desses empresários do agro eram vendedores, representantes comerciais das multinacionais do setor como Bayer e Syngenta. Só que as multinacionais fizeram a transição de ter representantes para terem distribuidores também”, conta Rodrigues.

“Esse pessoal, que era da área comercial, conhecia muito pouco de administração e gestão de empresas. E de contabilidade, conheciam menos ainda.”

Ao oferecer um serviço que ia além da contabilidade tradicional, com foco também na gestão dos negócios, a Agrocontar encontrou espaço para crescer. “Eu ajudava o cara a tomar a decisão. E falei: ‘É aqui que vou entrar’”, recorda.

A empresa começou a avançar para fora de Minas Gerais em meados da década passada, chegando a estados como Mato Grosso e Pernambuco. Mas a localização da sede, em Patos de Minas, passou a ser um obstáculo tanto para a atração de clientes quanto para a contratação de profissionais.

Rodrigues decidiu, então, abrir um escritório em Goiânia, mais próximo de parte da carteira do agro e de um mercado maior de profissionais. “Fui do zero, com mais dois funcionários que ficavam em Patos. Mantive o escritório lá e montei outro em Goiânia”, conta.

A partir daí, a Agrocontar acelerou o crescimento. Ao fim de 2025, a empresa empregava 320 profissionais e tinha uma carteira de clientes que, somada, faturava R$ 22 bilhões.

Foi nesse momento de expansão que surgiu a aproximação com a BHub. Para Rodrigues, a combinação entre a experiência da Agrocontar no agronegócio e a aposta da BHub em tecnologia poderia levar a empresa a uma nova etapa de crescimento.

“A abordagem da BHub veio num momento muito propício porque a gente estava em franca expansão, o mercado sempre demandava e exigia mais das empresas de serviços e essa pegada que a BHub trouxe, principalmente com tecnologia, fez com que a gente preparasse pra um próximo salto de crescimento que está acontecendo agora”, diz.

Rodrigues continua no conselho da Agrocontar e decidiu vender a empresa à BHub também pela perspectiva de continuidade do negócio que havia construído ao longo de mais de duas décadas.

“Quando a gente tava negociando, eu deixei isso bem claro que não estava atrás da melhor proposta financeira. Eu estava atrás de alguém que perpetuasse o meu legado”, diz.

Resumo

  • Após comprar a Agrocontar, BHub aposta em IA para transformar dados financeiros do agro em decisões
  • Plataforma UniAgro já atende 700 clientes e usa IA para analisar dados de ERPs e gerar insights sobre margens e crédito
  • BHub planeja abrir até oito escritórios regionais em 2027 e mira polos agrícolas como MT, MS, BA e Sul