Não é novidade para ninguém que o crédito ao produtor rural vem enfrentando um cenário de maior restrição nos últimos anos. Na Farmtech, a ideia para solucionar esse imbróglio é digitalizar a chamada "última milha" do crédito.
A empresa lançará, durante a edção 2026 do Congresso Andav de 2026, que começa nesta terça-feira, 11 de agosto, em São Paulo, a "Jornada ao Produtor", uma ferramenta que permite contratar o financiamento pelo WhatsApp da revenda depois que vendedor e produtor já fecharam a compra.
A expectativa é que a nova funcionalidade movimente entre R$ 500 milhões e R$ 700 milhões em desembolsos até o fim da safra 2026/2027. Para a temporada seguinte, a Farmtech espera multiplicar esse volume por três ou quatro vezes, segundo revelou ao AgFeed o CEO da empresa, Rafael Pilla.
A lógica da tecnologia é não mexer naquilo que já funciona. A negociação continua acontecendo entre o vendedor da revenda e o produtor, como sempre. Antes disso, a Farmtech analisa a carteira da revenda e disponibiliza limites de crédito pré-aprovados. Depois que a venda é confirmada, o WhatsApp entra em cena para concentrar cadastro, aceite e assinatura eletrônica do financiamento.
“Temos que olhar o fundamento da necessidade de crédito na cadeia. Tem um destino, que é o produtor. É o produtor médio e pequeno, pois sabemos que esse perfil, além de contemplar a grande maioria dos produtores, é menos servido pelos grandes bancos”, afirmou Pilla.
O financiamento é formalizado por meio de uma Cédula de Produto Rural Financeira (CPR-F), enquanto a revenda recebe o valor da venda à vista. O produtor fica responsável pelo pagamento no prazo da safra.
A diferença em relação a uma contratação tradicional está justamente no momento em que o produtor é abordado. Ele não recebe uma mensagem para abrir uma conta, preencher um cadastro ou iniciar uma solicitação de crédito. Quando chega ao WhatsApp, a venda já foi feita e o limite já foi aprovado.
“O produtor é abordado depois de já ter o crédito pré-aprovado, já ter a venda realizada pelo vendedor da revenda, e aqui é apenas o fechamento da venda a crédito. De uma forma simples. Poucos cliques concluem a venda”, diz Pilla.
“É literalmente a 'última milha' do processo de vendas que nós estamos digitalizando. Facilitamos a vida do vendedor e isso dinamiza as vendas da revenda. Ela consegue vender mais, passa a ter mais crédito do que sempre teve porque a Jornada carrega o crédito por trás”, continuou.
A Farmtech testou a solução durante cerca de nove meses antes de levá-la ao mercado. Os pilotos foram realizados junto às revendas, no próprio balcão de vendas, com o objetivo de adaptar a ferramenta ao fluxo comercial e evitar que a digitalização criasse novas etapas para as equipes.
A escolha do WhatsApp também não foi casual. Segundo Pilla, a empresa passou anos estudando como levar o crédito ao produtor de maneira mais simples e concluiu que fazia pouco sentido criar um novo canal para um público que já utiliza o aplicativo diariamente para se comunicar com as revendas.
“Entendemos que a ferramenta ideal é o WhatsApp, porque o produtor já usa, está acostumado e confia”, afirma. Ele cita que essa relação entre vendedor e produtor já é feita pelo aplicativo, e que a Farmtech leva uma "pitada a mais", que é o crédito, pelo mesmo canal.
A ideia não é, portanto, que o canal digital se transforme em uma nova porta de entrada para abordar diretamente o cliente da revenda.
"Uma parte basilar do negócio é o respeito ao relacionamento entre a revenda e seu cliente, o produtor. Essa jornada nada mais é do que estender a jornada e o braço em um canal digital dentro do guarda-chuva de relacionamento que a revenda já tem com o produtor", disse.
Durante a operação, a carteira permanece sob gestão da própria revenda. A Farmtech fornece a infraestrutura tecnológica e operacional, mas não assume o comando da relação comercial.
“Quem comanda os fluxos e canais é a revenda. A Farmtech é a infraestrutura e a ferramenta. Isso é importante para dar conforto às revendas: pode usar a ferramenta, atender o produtor, porque a Farmtech é a infraestrutura e a ferramenta apenas, e não vamos atravessar e atropelar esse relacionamento", prosseguiu Rafael Pilla.
A Farmtech chega ao lançamento com uma operação já espalhada por boa parte do mercado de insumos. Segundo a companhia, cerca de 3 mil das aproximadamente 4 mil revendas agrícolas do país já operaram algum financiamento por suas estruturas, enquanto a empresa estima atuar junto a cerca de 85% do mercado brasileiro de insumos, incluindo fabricantes como Bayer, Basf, UPL e Adama.
Desde sua criação, a Farmtech já viabilizou cerca de R$ 30 bilhões em crédito para a cadeia de insumos. Em 2025, foram R$ 5,5 bilhões desembolsados. E a companhia projeta chegar a R$ 8 bilhões em 2026.
Essa capilaridade e os números robustos ajudam a explicar explicar a escolha do Congresso da Andav para o lançamento. Para a Farmtech, o evento é o principal momento do ano para reunir, em um mesmo lugar, os diferentes elos da cadeia de insumos com os quais mantém relacionamento.
“A Andav é um momento de relacionamento extremamente importante. Todo mundo se encontra, é um momento no qual a gente consegue trazer para nossa casa toda a indústria”, afirma Pilla. Segundo ele, passam pelo estande da companhia ao longo dos três dias de evento fabricantes, revendas, executivos, proprietários e equipes de campo, além de investidores.
A feira também concentra parte relevante dos negócios da companhia. Pilla conta que muitas negociações são construídas ao longo dos meses e acabam sendo concluídas durante o congresso, o que transforma o evento em uma espécie de ponto de encontro anual para o mercado de distribuição de insumos.
“É o principal evento do ano para nós. Mobiliza toda a turma de insumos. E é bom porque estão todos juntos no mesmo lugar. Gostamos de participar, muitos negócios, alinhamentos, pela capacidade de juntar todo mundo”, diz.
Além do crédito
A intenção da Farmtech é ir além da contratação financeira e transformar o canal em uma infraestrutura digital que possa ser utilizada pelas revendas em outras etapas da relação com o produtor.
Campanhas de vendas, promoções, comunicações, pós-venda e até transações digitais estão entre os usos que a instituição financeira pretende desenvolver posteriormente.
“Num primeiro momento vamos fazer o lançamento como extensão dos produtos de crédito que já temos. Porém, evidentemente, estamos criando um canal digital, talvez o primeiro canal digital estruturado do Brasil no mundo de insumos, que é super escalável e construído em cima da plataforma da Farmtech e dos seus parceiros”, afirma Pilla.
Resumo
- Farmtech lança ferramenta que permite contratar crédito pelo WhatsApp da revenda após o fechamento da venda com o produtor
- Funcionalidade deve movimentar entre R$ 500 milhões e R$ 700 milhões em crédito na safra 2026/27, com potencial de até quadruplicar na próxima temporada
- Empresa já viabilizou R$ 30 bilhões em crédito em toda história e estima alcançar R$ 8 bilhões em desembolsos em 2026