Em 2004, o Brasil e a China estabeleceram um protocolo sanitário bilateral para exportação de carne bovina para o país asiático.
Começava aí a produção do conhecido boi padrão China. Um animal abatido com menos de 30 meses, com até quatro dentes incisivos, cuja produção deve cumprir requisitos no manejo sanitário e nutricional.
Até o processo logístico teve de seguir critérios rígidos e os frigoríficos precisaram ser credenciados pelo governo chinês.
Na época, o protocolo “Boi China” poderia ter sido interpretado como uma barreira não tarifária, uma maneira disfarçada de restringir o acesso do produto brasileiro ao mercado asiático.
Até podia haver essa intenção. Mas o pecuarista e a indústria brasileira não se acanharam diante do desafio e promoveram uma das maiores revoluções da pecuária de corte, investindo em produtividade e rastreabilidade.
Faço esse preâmbulo para dizer que o “Boi China” é um exemplo de como exigências comerciais podem gerar oportunidades de mercado e, melhor ainda, promover ganhos produtivos.
No entanto, mais de 20 anos depois, ainda estamos “batendo cabeça” com discussões sobre as recentes exigências europeias, que pedem a restrição do uso de antimicrobianos.
Já fizemos esse caminho com a China e podemos fazer com a Europa também.
Assim como ocorreu com o “Boi China”, devemos deixar ao pecuarista a decisão de aderir ou não ao novo protocolo. O incentivo financeiro, com certeza, será determinante para essa escolha. Esse seria, sob a minha ótica, o caminho mais coerente para todos.
O Brasil deve atender às exigências sanitárias de cada mercado de forma individual, sem impor restrições nacionais que comprometam a competitividade e a produtividade de toda uma cadeia produtiva.
A ideia de banir os antimicrobianos do país para atender exclusivamente à Europa submete a nossa pecuária a novos desafios. Sem contar que isso sensibiliza a nossa soberania nas relações internacionais.
Depois de abrir um precedente, imaginem quantos outros pedidos e exigências virão travestidos de segurança alimentar.
Com incentivos econômicos claros, essas exigências europeias podem representar, para nós, pecuaristas, mais uma oportunidade de modernização produtiva, com a melhoria das nossas práticas de manejo e regulação sanitária.
Teresa Cristina (Teka) Vendramini é fazendeira, socióloga e conselheira da Embrapa. É ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB).