Assim como o vinho, o queijo e o café, cada vez mais os apreciadores de azeite de oliva se multiplicam pelo Brasil, com gosto mais apurado, fazendo com que a demanda seja infinitamente maior que a oferta nacional.

A produção brasileira pode alcançar 1 milhão de litros em 2026, o que será a maior da história. Ainda assim, o volume é suficiente para abastecer apenas 1% do consumo no País.

O Rio Grande do Sul é o maior estado produtor, responde por cerca de 75% da olivicultura nacional.

Uma das empresas gaúchas que vem crescendo não só em produção, mas em reconhecimento nos prêmios de qualidade é a Lagar H, de Cachoeira do Sul, uma das principais regiões de olivicultura no estado.

O negócio é liderado pela advogada Glenda Haas, filha de Willy Haas Filho, empresário conhecido na comunicação por ter sido diretor da Rede Globo por quatro décadas - optou por se dedicar ao agronegócio quando deixou a emissora da família Marinho.

A família é proprietária da fazenda Irapuá, com atuação em agricultura e pecuária. O cultivo de oliveiras foi iniciado em 2014, mas somente em 2020 houve a primeira colheita.

“A gente começou com 60 hectares, e foi aumentando, até o nosso último plantio, que foi em 2021, quando a gente chegou a 170 hectares”, contou Glenda Haas, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

A produção de azeitonas é uma cultura perene, ou seja, leva um tempo para que os olivais amadureçam e atinjam o potencial máximo de produtividade. Em tese, a primeira colheita já é possível no terceiro ano após o plantio, mas depende muito das condições climáticas, o que nem sempre tem ajudado a produção nacional.

“O crescimento (da produção) do azeite de oliva no Brasil teve uma parada nos últimos dois anos, devido às chuvas. Em 2024 teve a enchente no Rio Grande do Sul e muitos produtores estavam até sem muda”, lembra a empresária.

A boa notícia é que, nesta safra, o clima finalmente ajudou e a colheita deve ser recorde. Em todo o Brasil estima-se que sejam cultivados 100 mil hectares de oliveiras, principalmente nos estados do Sul e também na Serra da Mantiqueira (entre São Paulo e Minas Gerais).

Segundo a empresária, o consumidor brasileiro “está entendendo mais sobre azeite”, o que também incentiva o consumo. Mesmo assim, o consumo de 500 ml por habitante ano ainda é considerado baixo.

“Tanto aqui quanto na Europa, o azeite não é o mesmo de 40 anos atrás, houve uma revolução tecnológica, hoje se faz um produto infinitamente melhor”, diz ela, o que também deve colaborar para um crescimento gradual no consumo.

Produção pode mais que dobrar

Na Lagar H, apenas metade dos 170 hectares de oliveiras estão produzindo plenamente. É esperado, portanto, um aumento na produção nos próximos anos, mesmo que não haja expansão do plantio.

Glenda Haas calcula que, se o clima continuar ajudando, a produção da empresa deve subir de 40 mil para 100 mil litros – e há mercado para isso.

A empresa já conta com um centro de distribuição em São Paulo e tem entre os clientes grandes redes como St Marché, Mambo e Empório Santa Luzia.

O faturamento não é divulgado, mas empresária revela que até hoje já foram investidos R$ 25 milhões no projeto, com expectativa de alcançar o breakeven ainda este ano.

A receita do primeiro semestre foi 45% maior do que o mesmo período de 2023 – a comparação é feita em função de ter sido a última safra mais cheia. Em 24/25, segundo Haas, houve uma quebra de 80% na produção gaúcha, em função do excesso de chuva na época da floração.

A empresária afirma que a fazenda poderá destinar um total de 500 hectares, futuramente, para o cultivo de oliveiras. Mas o crescimento será feito aos poucos, observando a resposta dos olivais que ainda estão em maturação.

“A gente tem como aumentar, mas não sabemos se é esse o nosso desejo. Porque existe também uma dificuldade, quanto mais aumenta, existe um tamanho que você consegue manter a qualidade, justamente por todos os cuidados necessários, eles têm que ser muito precisos”.

Um risco que está no radar é o fenômeno El Niño. Quem planta oliveiras torce para que não haja excesso de chuva em setembro, período da floração.

“A gente precisa da chuva na primavera, mas elas não podem ser muito intensas, porque o pólen viaja com o vento e a chuva prejudica a polinização”.

Com os altos e baixos do clima, Haas afirma que a empresa também tem estudado a oferta de produtos além do azeite, para reduzir a dependência de um só item. O uso dos resíduos da produção, como o bagaço, seria uma das alternativas na geração de receita, por exemplo.

Azeites premiados

Em cinco anos de existência da marca, a Lagar H já alcançou mais de 90 prêmios internacionais para seus azeites.

O nome, diz Glenda, é uma referência ao “local onde se faz o azeite”, com um processo que demanda muito cuidado em diferentes etapas, como filtragem e armazenamento. O “H” vem de Haas, da família.

“Quando eu comecei a estudar sobre azeites, eu entendi que a grande questão do azeite ser de alta qualidade é o processo que é feito, depois que colhe, tem um tempo para levar ao lagar, é um processo contínuo, tudo muito bem organizado, com muitos critérios”, explicou.

Um dos prêmios recentes foi o EVO IOOC Italy 2026, mas a marca também reconhecimentos em concursos como o Leone d’Oro International 2026 e o EVOOLEUM Awards. Algumas vezes a empresa venceu como melhor azeite do Hemisfério Sul e da América Latina.

A presença é comemorada porque até pouco tempo os azeites brasileiros eram excluídos de distinções antes dominadas por produtores de países europeus como Portugal, Espanha e Itália.

A empresária diz que o foco da Lagar H não são apenas os produtos de preço mais elevado, embora venha se destacado nas chamadas “edições limitadas”. Um lançamento recente, chamado de “Rituais” é relacionado ao azeite do dia a dia, que pode ser usado para cozinhar e também na finalização dos pratos.

Outra aposta da marca é o apelo voltado à sustentabilidade. A empresa diz ter uma produção “carbono negativo”, devido a uma “pré-disposição das oliveiras em sequestrar CO2”.

Resumo

  • A produção brasileira de azeite de oliva deve atingir o recorde de 1 milhão de litros em 2026, mas abastece apenas 1% do consumo nacional.
  • Com 170 hectares de oliveiras, a gaúcha Lagar H prevê elevar sua produção de 40 mil para 100 mil litros nos próximos anos
  • A empresa já soma mais de 90 prêmios internacionais e aposta na expansão gradual, com foco em sustentabilidade