“Essa é a quarta safra difícil que estamos entrando, eu diria, mas não vislumbro mais muito mais safras nesse ciclo ruim. Agora, quando vai haver a virada é uma informação que ninguém tem, mas que vai virar, vai”.

A visão compartilhada pelo CFO e diretor de Relação com os Investidores da Vittia, Alexandre Del Nero Frizzo, talvez seja comum entre todos os gestores que atuam no agro brasileiro no momento. O que difere as estratégias de cada negócio é o “como” atravessar essa tormenta.

Na empresa paulista, a saída passa por investir em novos produtos. A companhia anunciou na última semana que contratou um financiamento de até R$ 153 milhões junto à Finep para desenvolver dezenas de projetos de pesquisa ao longo dos próximos quatro anos, em um pacote que reúne novas tecnologias biológicas, biofertilizantes, defensivos de menor impacto ambiental e até soluções voltadas à saúde animal.

O desembolso deverá ser feito ao longo de quatro anos e o foco, segundo o CFO, são os microbiológicos.

Henrique Ferro, diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, acrescenta dizendo que as pesquisas se concentram em atender as grandes culturas do País e citou como exemplo o desenvolvimento de bioinseticidas à base de metabólitos, sejam de fungos ou bactérias, para controle do percevejo marrom na soja.

“Outro gap de tecnologia que temos projeto é nos herbicidas biológicos e outra linha diz respeito à novas tecnologias para nutrição de plantas por meio de fertilizantes especiais e inoculantes. Estamos ainda desenvolvendo um portfólio para o controle biológico de ecto e endoparasitas no mercado de saúde animal”, explicou.

A Vittia tem lançado ao mercado, na média, de duas a três novas tecnologias por ano - e deve manter esse ritmo nos próximos anos. “Mesmo que tivéssemos 10 ou 15 prontas para lançar, não seria viável do ponto de vista comercial”, continuou Frizzo.

Segundo Henrique Ferro, parte importante do investimento também será destinada ao desenvolvimento de processos industriais capazes de reduzir custos de fabricação.

Hoje, a Vittia produz seus biológicos em uma fábrica na unidade da empresa em São Joaquim da Barra (SP), que possui uma capacidade produtiva de 15 milhões de litros/quilogramas por ano e ocupa uma área de 110 mil metros quadrados, sendo 35 mil metros quadrados construídos, dos quais, 17 mil são dedicados à planta produtiva.

No plano de fundo para esse movimento de investimento em inovação está uma discussão mais ampla sobre o mercado de biológicos.

Pelo fato de ser aberta e listada em Bolsa - fator que eleva e muito a governança das companhias -, a Vittia se tornou uma espécie de “termômetro” do mercado brasileiro de biológicos.

Mercado esse que, para além da tradicional e tão falada “crise no agro”, ancorada principalmente por preços baixos na cotação dos grãos como soja e milho, vive uma particularidade interna.

Nas palavras de Frizzo, o setor de biológicos passa por um momento de massificação. “Não vejo uma commoditização no mercado, porque biológico ainda não é uma commodity. Mas existe uma questão de aumento de oferta no mercado frente ao que tínhamos há cinco anos. Houve um aumento grande de competição, com novo entrantes”, disse.

Diante desses dois fatores, o preço dos biológicos caiu. “E é claro, num ciclo onde a gente está enfrentando um preço que restringe a margem do produtor e consequentemente também diminui os investimentos, o mercado fica mais difícil sob ponto de vista de precificação”, continuou Frizzo.

Os balanços recentes da empresa ajudam a ilustrar esse momento. No primeiro trimestre de 2026, tradicionalmente mais fraco para a comercialização de biológicos, a receita líquida da companhia como um todo caiu 11,5%, para R$ 121,9 milhões.

A empresa encerrou o período com prejuízo de R$ 5,9 milhões, ante perdas de R$ 1,9 milhão um ano antes. A retração nas vendas atingiu todas as linhas de produtos. A receita com soluções biológicas e naturais recuou de R$ 49,9 milhões para R$ 46 milhões entre os primeiros trimestres de 2025 e 2026.

Já fertilizantes foliares e produtos industriais passaram de R$ 58,6 milhões para R$ 49,7 milhões. Por fim, os fertilizantes de solo trouxeram R$ 26,1 milhões para o faturamento, queda de 10,3% em um ano.

Além da queda na receita, houve contração também nas margens. Na vertical de biológicos e produtos naturais, o lucro bruto caiu 22,9%, para R$ 24,1 milhões, enquanto a margem bruta recuou 10,2 pontos percentuais, chegando a 52,5%. O movimento já havia aparecido ao longo de 2025. No consolidado do ano passado, a divisão registrou lucro bruto de R$ 161 milhões, queda de 9,5%, enquanto a margem passou de 63,3% para 58,6%.

“É aqui que entra a estratégia de construir pipeline de lançamentos para os próximos cinco a dez anos na Vittia. Mas isso não significa que as tecnologias atuais foram commoditizadas. Produzir um biológico bem feito e de qualidade não é algo que todos fazem”, disse o CFO da empresa.

Ao mesmo tempo que projeta novas tecnologias, a Vittia se segura em outras frentes para encarar o momento, em uma aposta além das fronteiras nacionais. A companhia iniciou recentemente sua operação comercial no México, onde já possui registros para parte do portfólio.

Ao contrário do Paraguai, país que hoje é atendido em grande parte pela estrutura brasileira, o México representa a primeira operação internacional estruturada da companhia. A estratégia, segundo Frizzo, é usar a operação mexicana para levar ao exterior tecnologias desenvolvidas no Brasil.

Apesar de uma cultura parecida, o agro mexicano é menos concentrado em grãos e mais voltada para frutas, legumes e hortaliças (FLV), segmentos onde o uso de biológicos já é bastante difundido. A expansão deverá acontecer de forma gradual.

"Somos uma empresa bastante cautelosa. Vamos fazer um passo de cada vez”.

Voltando ao Brasil, a missão é atravessar 2026, ano que deve ser muito parecido - e difícil - com o que foi em 2025. No aspecto financeiro, a Vittia encerrou o primeiro trimestre com reversão da provisão para perdas de R$ 121 mil ante os R$ 873 mil do primeiro trimestre em 2025.

Segundo a empresa, o nível histórico de inadimplência continua em níveis históricos e baixos, mesmo com a expansão das contas a receber. No balanço, esse indicador ficou em R$ 347 milhões, um avanço frente aos R$ 329 milhões vistos no final de 2025.

a alavancagem estava em 1,62 vez a dívida líquida (de R$ 174 milhões, queda de quase 20% em um ano) sobre o Ebitda, apesar de o período concentrar tradicionalmente o maior consumo de caixa da companhia.

Para Frizzo, esses indicadores mostram que, além de investir no longo prazo, a Vittia também procura atravessar o ciclo ruim preservando a disciplina financeira.

"O agro sempre foi cíclico. Estamos há 55 anos passando por esses movimentos. O momento é desafiador, mas os ciclos mudam. Ninguém sabe exatamente quando será a virada, mas ela vai acontecer. Nosso papel é chegar preparados quando isso acontecer”.

Um segundo trimestre possivelmente melhor

Ainda longe de colher os resultados dos investimentos que serão feitos nos próximos quatro anos com a linha de financiamento junto à Finep, a Vittia deve ter um segundo trimestre melhor na comparação anual.

A percepção é do analista Leonardo Alencar, da XP, que divulgou na terça-feira, 21 de julho, um relatório com projeções para o período. Segundo ele, o desempenho da companhia deve permanecer fraco em "termos absolutos", avaliando a dinâmica do setor ainda com produtores pressionados e reduzindo investimentos, apesar de resultados melhores de abril a junho.

"Projetamos uma receita líquida de R$ 122 milhões, alta de 5% em um ano, o que deve trazer uma margem bruta de 20,1%. Apesar dessa recuperação, projetamos um Ebitda ainda negativo em R$ 15 milhões. O segundo trimestre costuma ser o período em que as entradas de caixa acelera após o ciclo de pagamentos de 30 de abril", escreveu o analista.

Em relação à qualidade da carteira, Alencar espera que a Vittia mantenha níveis de inadimplência e de contas a receber em atraso inferiores aos pares, sustentados por uma política de crédito mais conservadora.

"Embora os indicadores de inadimplência devam apresentar deterioração sequencial por fatores sazonais, esperamos que permaneçam abaixo dos níveis observados no setor", prosseguiu no relatório.

A Vittia divulgará seus resultados referentes ao segundo trimestre de 2026 no próximo dia 12 de agosto.

Resumo

  • Vittia contratou R$ 153 milhões da Finep para desenvolver novas tecnologias em biológicos, biofertilizantes e saúde animal
  • Empresa vê mercado de biológicos mais competitivo e aposta em pipeline de lançamentos para sustentar margens no longo prazo
  • Além da inovação, companhia avança no México e mantém disciplina financeira enquanto atravessa o quarto ciclo difícil do agro

CFO e diretor de relações com investidores da Vittia, Alexandre Del Nero Frizzo