Novas mudanças à vista na Rumo, empresa de logística da Cosan. Endividada e em busca de redução de sua alavancagem, a holding de Rubens Ometto confirmou, na manhã desta segunda-feira, dia 29 de junho, que avalia "alternativas" relacionadas à sua participação na empresa.
A Cosan informou ter contratado a assessoria financeira do BTG Pactual para o processo, que ainda está no início. Segundo o comunicado, ainda não há qualquer decisão de fato sobre a venda de sua participação na Rumo.
Hoje, a Cosan é dona de 20,33% da Rumo. Grande parte do capital da companhia (75,6%) é negociada na B3.
O restante é diluído em investidores menores como Julia Arduini (dona de pouco mais de 3%), da ALL (América Latina Logística), empresa que foi incorporada e fundida com a Rumo em 2015.
Em relatório divulgado nesta segunda-feira, o Citi estima que a venda da participação deve chegar a aproximadamente 10%. A instituição retomou a cobertura de ações da companhia de olho em novas movimentações à frente.
Nos bastidores, o mercado já trabalha com uma lista de potenciais interessados na fatia da Cosan na Rumo.
Há alguns meses, o Pipeline, site do jornal Valor Econômico, informou que entre os possíveis candidatos estariam a Inpasa, uma das maiores produtoras de etanol de milho do mundo, a Bunge, gigante global do agronegócio, e o Grupo Ultra, que recentemente assumiu o controle da Hidrovias do Brasil.
O movimento de venda da participação da Cosan na Rumo está relacionado não à performance da companhia - a Rumo ainda é um ativo gerador de caixa e com previsibilidade de receita - mas sim com as dificuldades da holding.
A própria companhia informou ao mercado, no início do mês, que sua prioridade é "desalavancar e simplificar a estrutura da empresa", e que esse processo envolve a avaliação de vendas de participação em investidas.
Os números recentes fazem com que a empresa tenha de adotar mais celeridade nesse processo.
No primeiro trimestre de 2026, a Cosan registrou prejuízo de R$ 1,5 bilhão e encerrou o período com dívida líquida expandida de R$ 11,4 bilhões.
Para analistas, a dúvida está na capacidade da holding de sustentar seu endividamento apenas com os dividendos recebidos das controladas.
Um sintoma disso é o fato de que a empresa não divulga abertamente sua alavancagem e optou por informar o índice de cobertura do serviço da dívida (ICSD), que mede a relação entre os dividendos recebidos pelas investidas - como Rumo, Compass e Raízen - e os juros pagos nos últimos 12 meses.
Essa relação estava em 0,9 vez no final de 2025 e caiu para 0,4 vez no fim de março. Há um ano, estava em 1,2 vez.
Na prática, a geração de caixa das investidas cobre hoje apenas 40% das despesas financeiras da holding, o que reforça a necessidade de venda de ativos e outras medidas para reduzir a alavancagem.
E, ainda assim, mesmo os desinvestimentos não serão suficientes para melhorar totalmente a situação da companhia, na avaliação do Citi.
“Ainda vemos a empresa dependente de cortes nas taxas de juros no Brasil, melhorias significativas em suas unidades de negócios e/ou novos desinvestimentos para melhorar seu fluxo de caixa”, disse o banco, que tem recomendação neutra, classificação de alto risco e preço-alvo de R$ 4,50 para a ação.
As ações da Cosan abriram o pregão da B3 nesta segunda-feira no vermelho. Às 12h30, estavam cotadas a R$ 3,63, acumulando queda de 3,46%. No ano, apresentam queda de 30,86%.
Ativo rentável
Apesar das dificuldades da Cosan, a Rumo é um ativo estratégico, com forte geração de caixa e elevada previsibilidade de receitas – e não à toa tem vários interessados.
No ano passado, a empresa teve lucro líquido de R$ 865 milhões, recuperando o prejuízo de R$ 949,9 milhões registrado no ano anterior.
"O momento da Rumo não é ruim. É uma ativo de infraestrutura muito estratégico", disse ao AgFeed na semana passada uma fonte que conhece de perto o mercado de logística.
Essa mesma fonte acredita que nenhum dos três players ventilados pelo mercado - Inpasa, Bunge e Ultra - não aceitariam um aporte sem ter o controle do negócio.
Dos três, essa fonte acredita que o Ultra é que teria mais fit com a compra.
Do lado da Inpasa, que teve aproximações estratégicas com empresas como a Petrobras e tentativas de joint venture com a Amaggi - ambas sem concretização -, seria improvável um aporte sem esse prognóstico.
No caso da Bunge - sempre apontada como possível compradora em rumores envolvendo grandes M&As no agro - a compra poderia motivar uma união entre concorrentes como Cargill, Amaggi, Cofco, LDC e ADM a recorrerem em instâncias como o Cade, nos mesmos moldes que a Raízen fez no passado quando a Ipiranga tentou comprar a Ale. O negócio não saiu do papel.
O Ultra, todavia, entra no negócio se o caminho para assumir controle estiver claro, assim como foi na compra da Hidrovias do Brasil há cerca de dois anos, avalia a fonte ao AgFeed.
"É preciso olhar que [a Rumo] é um negócio sem concorrência, de faturamento estável, de perspectiva de faturamento crescente porque os volumes do agro continuam subindo, e é um ativo em expansão que portanto captura volume e faturará mais. Isso tem a cara do Grupo Ultra. Eles não costumam jogar em mercados de muita competição", disse.
De acordo com o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, em nota publicada no domingo, dia 28 de junho, o Ultra teria desistido de comprar a Rumo.
Segundo o jornalista, o BTG já teria inclusive recebido uma carta formal do Ultra na semana passada comunicando sua renúncia ao processo coordenado pelo banco. Ainda de acordo com Jardim, restam outros oito interessados na Rumo.
Em paralelo às movimentações nos bastidores, a Rumo terá, em breve, um novo CEO. Pedro Palma, que ocupava o cargo desde 2024 e acumula mais de 10 anos de companhia, deixou o cargo, informou a empresa na semana passada.
Em seu lugar, a partir do próximo dia 20 de julho, entrará Daniel Rockenbach, que já liderava a Rumo Malha Sul, operação de mais de 7 mil quilômetros que passa pelos estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Resumo
- Cosan contrata BTG Pactual para assessorá-la em alternativas para participação na Rumo
- Holding de Rubens Ometto está endividada e em processo de desalavancagem, que prevê desinvestimento de ativos
- Rumo teria vários interessados em adquirir fatia da empresa