Chegar ao mercado americano, o maior e mais competitivo do mundo, é o sonho de muitas empresas que buscam se transformar em companhias globais.
A Biotrop, uma das principais fabricantes de insumos biológicos do Brasil, decidiu encarar esse desafio – e os resultados iniciais são animadores.
Após seu primeiro ano de operação comercial nos Estados Unidos, já contabiliza vendas, recompra de clientes e presença em 23 estados americanos, incluindo regiões bastante relevantes para a agricultura global como o Cinturão do Milho.
O faturamento acumulado dos últimos 12 meses pela Biotrop no mercado americano foi de US$ 1,3 milhão (R$ 6,7 milhões, no câmbio do dia).
Se comparado à receita de R$ 900 milhões aferida pela companhia somente no ano passado, trata-se de uma quantia modesta.
O montante ganha importância, no entanto, quando colocado no contexto de entrada recente da companhia em um dos mercados mais competitivos do agronegócio global e em um momento de queda de receitas dos produtores americanos em função da queda sucessiva dos preços de commodities relevantes como soja, trigo e milho.
Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam que a renda líquida dos agricultores americanos em 2026 deve ser de US$ 153,4 bilhões – queda de US$ 4,1 bilhões na comparação com 2025 em números ajustados pela inflação do período.
Os pagamentos diretos aos produtores rurais por parte do governo americano devem somar US$ 44,3 bilhões neste ano, se aproximando e podendo ultrapassar a cifra recorde de repasses de US$ 45,7 bilhões, registrada em 2020, em meio à pandemia de covid-19.
“O primeiro ano da Biotrop nos Estados Unidos não poderia ter sido melhor dentro das condições que o mercado está apresentando”, avalia Matheus Gueratto, head de negócios da Biotrop nos Estados Unidos, em entrevista ao AgFeed.
Para a companhia, o principal indicador de sucesso neste primeiro momento da operação americana não está na receita aferida.
“O mais importante é gerar experiência de uso. Temos centenas de produtores, distribuidores e cooperativas experimentando as nossas soluções. No início da operação, isso é mais relevante do que o volume de vendas em si”, avalia Gueratto.
A receita adotada pela Biotrop nos Estados Unidos é semelhante à estratégia já consolidada no Brasil e em outros países da América do Sul.
A empresa está oferecendo aos produtores americanos um portfólio que inclui biofungicidas, bionematicidas e condicionadores de solo, com foco em grandes culturas extensivas como soja, milho, trigo, algodão e amendoim. Ao todo, 13 produtos já foram registrados junto às autoridades americanas.
Para Gueratto, a trajetória construída pela Biotrop no Brasil tem sido decisiva para acelerar a entrada da empresa no mercado americano.
O executivo relata que muitos produtores dos Estados Unidos carregam um histórico de experiências inconsistentes com produtos biológicos, o que gera resistência inicial à adoção desse tipo de produto.
Nesse contexto, o histórico da empresa no Brasil funciona como um importante cartão de visitas, avalia Gueratto. “Acho que essa é a principal forma de a gente quebrar essas barreiras, porque o pessoal vê que não somos aventureiros”, afirma.
A Biotrop possui 13 profissionais nos Estados Unidos, sendo que seis atuam em campo, distribuídos em três polos agrícolas diferentes.
O primeiro é a região produtora de amendoim, situada entre o sul da Geórgia, o norte da Flórida e o leste do Alabama, área responsável por cerca de 70% da produção americana da cultura.
O segundo foco é o famoso Corn Belt, o Cinturão do Milho, a principal região produtora de milho e soja dos Estados Unidos. Já a terceira frente comercial está no Vale do Rio Mississippi, importante polo agrícola que reúne culturas como soja, milho, algodão, amendoim e arroz.
Embora a operação ainda esteja em estágio inicial, com valores de faturamento ainda baixos, a empresa já observa um movimento que considera estratégico: a recompra dos produtos por agricultores que realizaram os primeiros testes.
De acordo com Gueratto, produtores que utilizaram as soluções da Biotrop na safra de 2025 voltaram a comprar volumes maiores na temporada seguinte. “É um termômetro que indica que a performance está consistente”, diz o executivo.
O executivo evita dar detalhes sobre projeções de faturamento para este ano, preferindo trabalhar com uma ambiciosa visão de longo prazo.
“Até o ano de 2034, nosso plano é estar faturando US$ 160 milhões”, diz Gueratto. Isso significaria manter um crescimento médio alto e consistente, de cerca 70% ao ano, por quase uma década.
“É um crescimento significativo, mas que está pautado em um plano de negócio muito sólido e com um crescimento de mercado que deve acontecer aqui nos Estados Unidos”, afrma.
O líder de negócios da Biotrop nos EUA chegou à companhia no início do ano passado, mas já acumula uma experiência de cinco anos vivendo nos Estados Unidos, tendo atuado em empresas como Basf e Bayer.
Para Gueratto, a semelhança entre os produtores americanos e brasileiros pode ser resumida em um substantivo: confiança.
“No final das contas, o que vai de fato fazer a diferença nos dois lugares é você conseguir criar confiança na sua empresa, nas suas soluções, e conseguir demonstrar. A questão de ver para crer existe nos dois mercados”, diz.
Investimentos em P&D
A entrada da Biotrop nos Estados Unidos foi construída antes mesmo da chegada do time comercial no início de 2025.
No fim de 2024, a empresa já havia instalado um centro avançado de pesquisa e desenvolvimento de produtos no UF Innovate, hub de inovação da Universidade da Flórida localizado na cidade de Gainsville, como primeiro passo para chegar ao mercado americano. Gainsville passou a ser a sede da empresa nos Estados Unidos.
Hoje, além da Universidade da Flórida, a empresa mantém parcerias de pesquisa com instituições como University of Georgia, Iowa State University, North Dakota State University e Louisiana State University.
A companhia projeta aportar entre US$ 12 milhões a US$ 15 milhões em pesquisa e desenvolvimento nos Estados Unidos, adianta Gueratto, investimentos que serão feitos à medida que o mercado exigir. “Não está estipulado um período”, diz.
A estratégia de forte ligação com a comunidade acadêmica, segundo o executivo, visa combinar a experiência da Biotrop em biológicos com o conhecimento local sobre culturas, clima e manejo agrícola.
“Nós somos experts em biológicos, temos muito disso dentro de casa e podemos aportar muito isso ao mercado americano. Mas temos que ter humildade de reconhecer que há uma expertise local de dinâmica de mercado, das culturas, das intempéries, né, dos problemas encontrados pelo agricultor”, afirmou.
Atualmente, a maior parte dos produtos comercializados pela Biotrop nos Estados Unidos é importada do Brasil, onde a companhia possui duas fábricas, em Curitiba (PR) e Jaguariúna (SP).
Mas a ideia da companhia, segundo Gueratto, é, no futuro, ter produção local nos Estados Unidos, ainda que hoje não exista cronograma definido para o investimento. "Ter uma planta local é algo factível e viável assim que a demanda permitir", diz.
Além da expansão nos Estados Unidos, a companhia prepara sua entrada comercial no Canadá, conta Gueratto.
A Biotrop já possui três produtos registrados no País e conduz uma série de ensaios de campo e processos regulatórios para ampliar o portfólio. A expectativa é iniciar as vendas na safra de 2027.
Bioworks
Em paralelo ao início da operação da Biotrop nos Estados Unidos, no fim de 2025, a Biofirst, grupo belga controlador da companhia, colocou sob o guarda-chuva da Biotrop outra de suas controladas, a Bioworks.
Com sede nos Estados Unidos, a companhia tem foco em soluções biológicas para os cultivos de hortifrutis.
Com ela, a Biotrop incorporou uma receita de cerca de 20 milhões de euros (pouco mais de R$ 120 milhões), uma equipe de 40 profissionais nos Estados Unidos e 16 na Europa, além de mais unidades de produção.
Até em função das regiões de atuação, a operação da Bioworks caminha em paralelo à chegada a Biotrop nos Estados Unidos, explica Gueratto, mas a ideia é criar sinergias entre os dois negócios.
“Estamos trabalhando muito para gerar oportunidades para ambas as empresas”, diz. “As duas empresas mutuamente se aceleram em termos de portfólio, tecnologias e sinergias. Apesar de as operações serem separadas, existe uma aceleração mútua pela proximidade que nós temos hoje dentro do grupo”, emenda.
Resumo
- Em primeiro ano de operação nos EUA, Biotrop fatura pouco mais de US$ 1 milhão
- Companhia pretende acelerar vendas para ter receitas acimas de US$ 160 milhões em oito anos
- Empresa vem apostando fortemente em pesquisa e desenvolvimento para conquistar produtores americanos