De perto, de longe, parece um avião agrícola convencional. Até a pista de pouso e decolagem é semelhante. No céu, as manobras são tão perfeitas que só poderiam ser executadas por um piloto experiente.
Mas não se engane: por trás da aparência familiar está uma tecnologia que opera sem piloto a bordo, o Pelican 2, avião pulverizador autônomo que vem ganhando espaço em grandes fazendas brasileiras, principal vitrine da americana Pyka no País.
Quem participou do último Farm Day, evento da SLC Agrícola realizado neste mês em Cristalina (GO), pôde ver de perto esse desempenho em operação real, que impressionou quem estava por lá.
A SLC já recebeu quatro aeronaves da Pyka e aguarda uma quinta aeronave que está para chegar, saída diretamente do headquarter da fabricante dos aviões, localizado em Alameda, no estado americano da Califórnia.
A SLC utilizou aviões da Pyka inicialmente na Fazenda Paiaguás, em Mato Grosso, desde a safra 2024/2025, e agora deve expandir o uso para propriedades localizadas nos estados de Mato Grosso do Sul, Bahia e Maranhão.
Na temporada 2024/2025, o Pelican operou em 10.419 hectares na unidade, reduzindo o consumo em 9.377 litros de combustível e evitando a emissão de 23,8 toneladas de CO2 equivalente (tCO2e).
Em março deste ano, a SLC estimava que, na safra 2025/2026, a operação na mesma fazenda já ultrapassou 20.000 hectares, resultando na redução de 18.000 litros de querosene e de 45,6 toneladas de CO2e.
A presença da tecnologia da Pyka na operação e num dos principais eventos anuais da maior operadora de áreas agrícolas do Brasil simboliza a velocidade com que a empresa avançou no País desde sua chegada discreta, há cerca de três anos.
Longe dos holofotes na época, o diretor comercial da companhia, Volker Fabian, percorreu polos agrícolas estratégicos apresentando o Pelican, que tem 6 metros de comprimento, 11 metros de envergadura e capacidade para transportar até 300 quilos de calda.
O AgFeed foi o primeiro veículo especializado em agronegócio no Brasil a destrinchar a estratégia da Pyka no País, ainda em 2023, antes mesmo do contrato com a SLC e também de a empresa realizar sua primeira venda no mercado brasileiro.
De lá para cá, a operação ganhou tração. A fabricante passou a fechar acordos comerciais relevantes, estruturou uma base local e consolidou o Brasil como seu principal mercado global.
“Hoje pensamos a empresa praticamente como Brasil e depois o resto do mundo. O Brasil, desde o ano passado, é o principal mercado da empresa no segmento de aviões agrícolas, responde por 80% do nosso mercado”, afirma Ricardo Costa, diretor de operações da Pyka no Brasil, em conversa com o AgFeed durante o World Agri-Tech South America Summit, evento de agro e tecnologia realizado nesta semana em São Paulo.
Durante o encontro, representantes da empresa apresentaram novidades e detalharam os próximos passos da operação no País.
Além do acordo com a SLC Agrícola, primeiro grande nome do agro brasileiro a adotar a tecnologia da Pyka, a fabricante já fechou acordos comerciais com outras companhias de porte, como Amaggi, Natter Agro, ACP Bioenergia e Terral Agro.
Considerando as operações no Brasil e também em regiões como América Central e Estados Unidos, a Pyka já pulverizou 162.248 hectares com suas aeronaves autônomas
Atualmente, a empresa conta com 12 aeronaves em operação. “No começo de 2025 tínhamos uma aeronave em operação no Brasil. Hoje estamos com 12. E vamos encerrar o ano com algo entre 22 e 25 aeronaves em operação”, projeta Costa.
Para alcançar a meta, a Pyka mira a expansão no Brasil para outras culturas agrícolas, ampliando o escopo de aplicação da tecnologia.
“Soja, milho, algodão é o nosso grande maior mercado. E agora começamos a expansão para citros e para cana-de-açúcar”, diz Costa.
“No caso da cana, já temos parceria com a ACP e alguns outros clientes em negociação. São grandes usinas, os principais nomes do setor.”
Costa também não descarta a possibilidade de alcançar empresas do setor florestal mais adiante. “Mas esse é um mercado que a Pyka ainda precisa desbravar um pouco antes de chegar”, avalia o executivo.
Inicialmente, para ganhar tração, Pyka concentrou a base comercial da empresa em Cuiabá (MT) e em fazendas mato-grossenses, mas a estratégia de vendas leva em consideração também outras regiões produtoras do país para além de Mato Grosso, segundo o executivo.
“Já estamos expandindo para o Oeste da Bahia, para São Paulo e vemos também uma entrada forte no Maranhão. Ouso dizer que o Maranhão vai ser, até setembro, nosso segundo maior mercado no Brasil”, afirma.
A companhia opera com dois modelos de comercialização: vendas diretas para grandes clientes, como as maiores operadoras agrícolas brasileiras, e vendas via distribuição pela Synerjet Agro, distribuidora exclusiva das aeronaves autônomas da Pyka no Brasil.
“A Synerjet já adquiriu mais de 40 aeronaves da Pyka para revenda no mercado brasileiro”, calcula Costa.
Os usos da tecnologia também variam de acordo com a estratégia de cada produtor.
Se a SLC Agrícola, por exemplo, enxerga o equipamento da Pyka como uma solução complementar às demais tecnologias de pulverização já utilizadas, há casos em que a adoção é mais radical – com substituição integral dos aviões agrícolas convencionais pelos modelos autônomos da empresa.
É o caso da Natter Agro, primeira cliente a dar esse passo no Brasil, segundo anúncio feito nesta semana.
Rafael Bortoli, CEO da Natter, disse que uma das maiores vantagens do uso do avião autônomo tem sido a possibilidade de pulverizar à noite, aumentando a produtividade.
"Com dois turnos, podemos dobrar a eficiência. Nesse cenário, a produtividade supera a das aeronaves agrícolas tradicionais”, avaliou Bortoli em comunicado divulgado pela empresa.
Para Ricardo Costa, diretor de operações da Pyka no país, no entanto, ainda existe um trabalho importante de esclarecimento sobre a própria natureza da tecnologia.
Afinal, o Pelican se insere no meio do caminho entre as aeronaves agrícolas tradicionais - que podem transportar até 3 mil kg de defensivos agrícolas - e os drones - com capacidade máxima de 150 kg.
“Acho que 90% dos agricultores pelo menos ouviram falar da Pyka, sabem que é uma aeronave autônoma. Mas nas feiras precisamos explicar que não é um drone comum. Tem a mesma facilidade de pilotar, mas ele é um pouco diferente de um drone”, diz.
O Brasil se consolidou como peça central na estratégia global da empresa, mas a América Latina como um todo é um importante mercado para a empresa.
Na região, a Pyka mantém contratos como a multinacional Dole, um dos grandes players do mercado de bananas, além de outros produtores da fruta em países como Costa Rica e Guatemala. “Mas acho que Brasil e América do Sul serão sempre o maior mercado da Pyka”, diz Ricardo Costa.
Curiosamente, os Estados Unidos acabaram ficando de lado nessa estratégia. Isso acontece, segundo os executivos da Pyka, pelas dificuldades da FAA [Administração Federal de Aviação, órgão regulador americano, semelhante à Anac no Brasil] em adaptar as regras vigentes à adoção de novas tecnologias.
Já no Brasil, com uma simplificação no regramento de aviões autônomos feita pela Anac em 2023, o caminho ficou livre.
“Claro que se a gente tiver uma melhoria, um avanço nas regulamentações americanas, pode avançar bastante lá, porque aqui é muito mais flexível”, afirma Ricardo Costa.
Já os investidores americanos sempre foram bastante receptivos às ideias da Pyka, que conseguiu aportes de pelo menos US$ 88 milhões de investidores.
A rodada de captação mais recente, de US$ 40 milhões, ocorreu em 2024, liderada pela Obvious Ventures, empresa de venture capital fundada por Ev Williams, um dos criadores do antigo Twitter, com participação de Piva Capital, Prelude Ventures, Metaplanet Holdings e Y Combinator.
O montante dessa rodada representa praticamente a totalidade de recursos – US$ 48 milhões – que a companhia, fundada em 2019, havia conseguido captar no mercado até então.
A tecnologia da Pyka também foi bem vista por uma frente estratégica fora do setor agrícola: a Defesa dos Estados Unidos.
No fim do ano passado, a companhia fechou uma parceria com a Força Aérea dos Estados Unidos, que passou a demonstrar interesse no desenvolvimento do DropShip, uma aeronave autônoma de carga capaz de transportar até 250 kg de carga útil.
A Pyka foi selecionada pela iniciativa de inovação da Força Aérea americana para dar continuidade ao desenvolvimento do projeto, inserido em um programa voltado à aceleração de tecnologias para logística e operações militares.
A proposta é ampliar a capacidade de alcance operacional e a resiliência das missões da Força Aérea, aproveitando a base tecnológica já consolidada pela empresa em suas aeronaves autônomas comerciais.
“Com base na tecnologia comercial comprovada da Pyka, estamos entusiasmados em desenvolver novas capacidades que fortaleçam o alcance operacional e a resiliência da Força Aérea”, disse Michael Norcia, CEO da Pyka.
O primeiro voo da nova aeronave de carga foi completado com sucesso em abril deste ano. Será que um dia essa tecnologia ganhará também os céus das lavouras brasileiras? “Vamos aguardar”, brinca Ricardo Costa.
Resumo
- Pyka, fabricante de aviões agrícolas autônomos, acelera no Brasil e transforma o País em seu principal mercado global
- Grandes empresas como SLC Agrícola e Amaggi adotam tecnologia e ampliam uso em novas culturas e regiões
- Ao todo, empresa tem 12 aeronaves em operação no País e prevê dobrar frota até o fim do ano