A crise de crédito que atingiu o agronegócio nos últimos anos produziu um efeito curioso dentro da Syngenta.

Em um momento em que bancos ficaram mais seletivos, recuperações judiciais se multiplicaram pelo campo e o custo do dinheiro disparou, as soluções financeiras oferecidas ou intermediadas pela multinacional passaram a ganhar um peso cada vez maior dentro da operação brasileira.

Hoje, cerca de um terço das vendas da companhia no País já envolve algum tipo de mecanismo financeiro estruturado para viabilizar a compra de insumos, incluindo operações de barter, crédito facilitado pela fintech Syde e outras modalidades de financiamento, revelou ao AgFeed o CFO da companhia no Brasil, João Campos.

O dado chama atenção pelo tamanho da operação. A Syngenta é uma das maiores fornecedoras de insumos agrícolas do mundo, com vendas globais de US$ 28,4 bilhões em 2025 e tem o Brasil como seu principal mercado, apesar de não divulgar dados específicos por País.

Por aqui, o setor de agroquímicos ronda os US$ 16 bilhões (aproximadamente R$ 83 bi), considerando todas as empresas do ramo.

Em um momento em que juros persistentemente elevados e recuperações judiciais em alta que restringiram o crédito - e às vésperas de mais um Plano Safra -, a aposta da Syngenta, segundo Campos, é utilizar o know-how e relação de décadas com produtores para fazer a cadeia girar.

“Quando você olha o produtor hoje, ele está num nível de alavancagem superior a duas vezes a rentabilidade em alguns casos. Então o grande desafio é fazer o recurso chegar na ponta. Muitas vezes vemos o dinheiro disponível e na hora de liberar, dado o cenário, os bancos ficam com um pé atrás", disse, durante conversa realizada no World Agri-Tech South America Summit, evento realizado nesta semana em São Paulo.

Apesar de figurar no cargo de CFO para o Brasil apenas desde setembro do ano passado, João Campos já tem quase duas décadas de Syngenta. O caminho foi o inverso do comum - iniciou a trajetória na Europa e agora é um dos líderes da operação nacional.

A maior parte do tempo foi no escritório suíço, onde chegou a ser CFO para a região da Alemanha, Áustria e Suíça. Posteriormente, assumiu a posição de CFO para a América Latina (sem contar o Brasil) e, antes de vir para o País, assumiu um centro de serviço compartilhado no Uruguai por dois anos.

"Falaram para mim que estava chegando no momento que o setor estava tranquilo de crédito, aí quando eu assinei meu contrato aí me contaram todos os detalhes", disse, brincando e em tom de ironia durante a conversa.

Dentre as verticais financeiras da empresa, a Syde vem ganhando espaço. A fintech criada pela multinacional atua como uma espécie de ponte entre o mercado financeiro e o campo.

A ferramenta, liderada pelo executivo Fábio Neufeld, conecta bancos, gestoras e estruturas de crédito ao histórico de relacionamento da Syngenta com produtores rurais, reduzindo a assimetria de informação que normalmente encarece ou limita o acesso ao financiamento no agro.

O serviço foi lançado em 2023, e nasceu com a expectativa de viabilizar mais de R$ 6 bi em linhas de financiamento nos primeiros cinco anos de existência. A Syde reúne parceiros financeiros como Itaú, BTG Pactual, Farmtech, AL5 Amaggi, além de cooperativas de crédito e outros agentes do mercado.

"Quando os bancos veem que eles não possuem o dado para precificar um crédito ou estão longe do produtor, a Syngenta com a base de dado dos produtores parceiros consegue fazer essa ponte. Dá um pouco mais de segurança para o banco pois não apresenta um risco desconhecido, e com isso oferecemos taxas muito mais competitivas", disse Campos.

"Quando eu visito os produtores muita gente pergunta: 'esse ano vai ter crédito liberado pela Syde de novo?' E sim, a gente vai ter de novo", acrescentou. Questionado, o executivo não abriu os números projetados de desembolso para a fintech na próxima safra, mas projetou crescimento.

O avanço dessas soluções financeiras não se restringe ao crédito via fintech. O modelo de barter também vem ganhando relevância dentro da estratégia comercial da Syngenta, de acordo com João Campos, funcionando como uma das principais engrenagens para manter o fluxo de vendas em um ambiente de maior restrição financeira.

"A gente trabalha esse tipo de solução para fazer a vida do produtor viável, porque tomar crédito com uma taxa que vai levar ele à inadimplência não é uma solução sustentável, a nosso ver", disse o executivo, citando que a companhia costuma recomendar ao produtor não aderir a certos empréstimos com taxas elevadas, que podem chegar a 25% a 28% ao ano.

"Falo pra equipe que, se a gente realmente gosta do produtor não vamos deixar ele tomar crédito nesse nível. Ele vai ser jogado numa situação ainda mais complicada", argumentou.

Do ponto de vista da estrutura comercial e de crédito, a companhia opera em dois grandes canais: vendas diretas ao produtor e vendas via distribuidores.

A soja segue como principal motor de demanda no Brasil, refletindo o peso da cultura no agro nacional e maior ticket médio de defensivos por hectare. Em seguida, Campos cita milho e algodão como culturas com participação relevante nas concessões de crédito da companhia.

Nos últimos anos, no entanto, a Syngenta também observa o crescimento gradual de culturas como o café dentro da sua base de clientes, ainda que com menor representatividade no volume total devido aos tickets menores.

Segundo Campos, essa divisão de concessão de crédito entre produtores diretamente e revendas é praticamente equilibrada hoje no Brasil.

A estratégia com as revendas é outro ponto que a Syngenta se orgulha e já citou no passado até como uma certa vantagem competitiva em meio à turbulência recente no setor de distribuição.

Enquanto parte do mercado enfrentou dificuldades com o enfraquecimento de grandes revendas e processos de recuperação - judicial e extrajudicial (em especial às outrora maiores do País, AgroGalaxy e Lavoro) - no setor, a companhia optou por trabalhar com um número mais restrito de parceiros comerciais. Pouco mais de uma centena de "poucas e boas".

A estratégia, na visão da Syngenta, reduz exposição a riscos de crédito pulverizados e permite maior previsibilidade na ponta da venda, especialmente em um cenário de maior pressão financeira sobre o produtor rural.

“A gente é muito feliz de ter construído um modelo de go to market muito casado com nossos distribuidores e uma outra parte da venda direta ao produtor. E são produtores que a gente conhece há mais de duas décadas, é uma parceria muito sólida", prosseguiu o CFO.

No ano passado, a divisão de defensivos agrícolas (Crop Protection), principal negócio da companhia, registrou receita de US$ 13,7 bilhões a nível global, alta de 4%, impulsionada por volumes e novos produtos, mesmo com pressão de preços em mercados relevantes, incluindo o Brasil.

"Os volumes totais aumentaram à medida que a normalização dos estoques nos canais de distribuição se materializou nos principais mercados, enquanto as pressões sobre os preços permaneceram, principalmente no Brasil e na América Latina", dizia o balanço.

No País, as vendas recuaram 1%, e no continente, 3%. Em entrevista concedida aovideocast AgLíderes, em março passado, o presidente da unidade de Crop Protection da Syngenta para o Brasil, André Savino, projetou um 2026 ainda de ajuste no agro, com juros altos, crédito restrito e menor expansão de área.

Para ele, produtores devem focar em eficiência e em novas tecnologias com maior retorno sobre investimento. Savino ainda analisou que a guerra no Irã já traz efeitos indiretos ao setor, pressionando custos logísticos e fertilizantes.

Resumo

  • Cerca de 1/3 das vendas da Syngenta no Brasil já passa por crédito, barter e soluções financeiras estruturadas
  • Fintech Syde conecta bancos e produtores via dados da Syngenta e mira mais de R$ 6 bi em crédito nos primeiros anos