Por trás dos dados de crescimento da piscicultura no Brasil, que avançou quase 150% em 10 anos, estão grupos empresariais nem sempre conhecidos, que ampliam investimentos e atraem capital estrangeiro para o setor.
Um dos exemplos desta história é a Fisher Piscicultura, fundada por empresários brasileiros em 2011. Ao longo do tempo, o grupo foi investindo em tecnologia e passou a ser reconhecido pela criação dos chamados TRGVs (Tanques-Rede de Grande Volume), que foram patenteados.
São estruturas circulares gigantes, integradas a alimentadores automatizados, consideradas uma importante inovação na atividade. A empresa também se destacou por sistemas de manejo mais sustentável, como a classificação de peixes sob a água, que elimina a necessidade de retirá-los do ambiente aquático para mudar de tanque, o que reduz o estresse e a taxa de mortalidade das tilápias.
Ao chamar a atenção do mercado, a Fisher acabou atraindo também investidores. Em 2019, recebeu um aporte – o valor oficial não foi divulgado – do fundo holandês Aqua-Spark.
“A partir desse momento (do aporte holandês) houve mais investimento e nós voltamos a fazer um planejamento muito mais forte e já consolidado com investimento para expansão. Começamos a construir tanques com volume bem acima do que a gente estava fazendo com vistas em ampliar a capacidade”, explicou Cláudio Mazocatto, diretor operacional da Fisher, em entrevista ao AgFeed.
Segundo ele, até hoje os holandeses mantêm uma participação minoritária na empresa, de cerca de 20%.
A companhia que começou com dois ou três tanques, na atual sede, em Riolândia (SP), saltou para 50 tanques, uma estrutura que permite uma capacidade produtiva de aproximadamente 300 toneladas mensais de tilápia. Antes da entrada do fundo, a produção estava em cerca de 50 toneladas/mês.
Mazocatto diz que a parceria é sólida e que não se trata de um fundo que primeiro investe e depois quer vender a empresa. O que atraiu o Aqua-Spark teria sido justamente o plano já desenhado pelos fundadores da Fisher, para fazer uma expansão para outros estados brasileiros.
Além da sede principal, onde se faz a engorda do peixe para vender aos frigoríficos, a empresa possui também uma unidade em Monte Aprazível (SP) para produzir o peixe juvenil.
“Lá a gente compra o alevino de 1 grama, vacina e transforma ele em 30 gramas e leva para a unidade de Riolândia para fazer a terminação”, descreve o diretor.
As próximas unidades da empresa – ainda sem data para serem colocadas em operação – já foram planejadas.
Em Minaçu, Goiás, por exemplo, foi adquirida uma área aquícola que já está licenciada. Segundo o diretor, essa localidade não é a prioritária, por enquanto, já que ainda há pendências ambientais e também do ponto de vista do investimento necessário.
“É um projeto para trabalhar com tanques de grande volume, iguais aos que a gente já tem, mas está um pouco em segundo plano por algumas questões ambientais e mesmo de investimento nosso ele não virou prioridade. A prioridade para nós em investimento virou a unidade de Monte Aprazível, porque ela sustenta a unidade de Riolândia na questão da matéria-prima, que é o peixe juvenil”, ressaltou.
A ideia é passar a fornecer não somente para o consumo próprio, mas também tornar essa unidade “comercial”. Hoje ela seria capaz de abastecer Riolândia com 350 mil a 400 mil peixes mensais. Ao ser ampliada, passará para cerca de 600 mil peixes mensais, quando o excedente será comercializado a outros clientes.
As próximas paradas devem ser junto ao Rio Madeira, em Rondônia, em Itaparica, na Bahia e uma duplicação em Riolândia.
“São cinco áreas já estudadas pelos sócios da empresa porque eles trabalham com hidrelétricas, eles têm técnico de reservatórios propícios pra piscicultora”, contou Mazocatto.
Ele calcula que cada nova unidade terá a capacidade de produzir 300 toneladas de tilápia por mês. Sendo assim, quando as três novas estiverem operando e também a duplicação da atual sede, o volume produzido poderia ser quintuplicado.
O executivo ponderou, no entanto, que não há data específica para que o plano seja implementado, porém é algo visto com bons olhos pelo sócio holandês.
A piscicultura, recentemente, também cresce no estado de Tocantins, que marcou presença com estande do governo na edição da Aquishow 2026 este ano, em Uberlândia (MG).
A Fisher também estaria posicionada nesta região já que Minaçu (GO) é próximo da divisa com Tocantins.
“É uma unidade que tem uma perspectiva muito boa porque a gente está perto de dois grandes centros consumidores bons que são Goiânia e Brasília”, lembrou, “estamos apostando, mas ainda não chegou o momento”.
Mercado em recuperação
Embora tenha uma capacidade de 300 toneladas mensais, a Fisher estava operando neste início de ano com uma produção abaixo deste patamar, em cerca de 200 toneladas.
“Isso por questão de mercado, de preços que tivemos no passado, então houve uma desaceleração na parte de povoamento dos tanques, nós seguramos um pouco, agora voltamos a crescer”, contou Mazocatto.
Ele diz que os preços atuais da tilápia estão em bons patamares, o que vem garantindo crescimento de receita mesmo sem aumento de volume. Com mercado mais favorável, a expectativa é de que em outubro a empresa já esteja operando em 320 toneladas.
A desaceleração também foi influenciada pelos percalços no mercado da tilápia desde o ano passado. Um dos frigoríficos que compra os peixes da empresa exporta para os EUA e foi afetado pelas tarifas impostas por Donald Trump.
Em paralelo, a maior entrada de tilápia do Vietnã com preços abaixo do produto brasileiro aumenta a concorrência no mercado interno. O executivo da Fisher diz que a expectativa é que as medidas adotadas por governos estaduais, como em São Paulo, que taxou a tilápia importada, ajudem a pelo menos estabelecer uma igualdade entre o preço do produto nacional e do peixe importado.
Resumo
- Fisher Piscicultura tem participação de fundo holandês Aqua-Spark e desenhou um plano para abrir mais cinco unidades de engorda de tilápia
- Ainda não há data definida para implantação do projeto que, quando concretizado, elevaria capacidade produtiva em 1,5 milhão de toneladas mensais
- No início do ano, empresa operou abaixo da capacidade, mas voltou a povoar os tanques para aumentar produção até outubro