Vendo produtores de grãos operando sob margens cada vez mais apertadas, custo de capital elevado e um ambiente competitivo mais agressivo no mercado de armazenagem, o Citi decidiu reclassificar sua recomendação para as ações da Kepler Weber de neutra para venda.

Em relatório divulgado a clientes no fim de semana, o banco também informou que cortou o preço-alvo dos papéis de R$ 9 para R$ 5,60 por ação.

Após o movimento do Citi, as ações da Kepler Weber permaneceram a manhã toda desta segunda-feira, dia 1º de junho, em queda. Às 12h (horário de Brasília), os papeis recuavam 7,53%, cotados a R$ 6,51 cada. Nos últimos seis meses, acumulam queda de 32,85%.

Para justificar a decisão, o Citi disse, em seu relatório, que a mudança reflete uma deterioração dos fundamentos que sustentaram o ciclo recente de investimentos em infraestrutura de armazenagem no Brasil.

O banco elencou três fatores que, combinados, indicam limitação futura da demanda por investimentos em silos.

O primeiro deles é a situação financeira dos produtores de grãos. “Os produtores brasileiros de soja e milho estão operando com margens próximas ou no ponto de equilíbrio, no pior ambiente de rentabilidade em duas décadas, praticamente sem justificativa econômica para investir em infraestrutura de armazenamento”, afirmam os analistas do Citi.

O segundo ponto de preocupação levantado pelo banco é o ambiente macroeconômico brasileiro. O Citi avaliou que o país continua apresentando um dos custos reais de capital mais elevados do mundo.

"A incerteza fiscal torna improvável qualquer normalização no curto prazo, elevando a taxa de retorno mínima exigida para todos os investimentos rurais de longo prazo", disse o banco.

Além da questão financeira, o banco disse ver uma mudança estrutural no ambiente competitivo do setor.

O relatório do Citi destaca a venda da divisão de armazenagem da AGCO, que incluía a GSI e outros negócios, para a gestora americana AIP por US$ 700 milhões. O negócio, que formou a empresa GPT, foi fechado em 2024.

Na avaliação do Citi, o novo controlador vem adotando uma estratégia de expansão agressiva de participação de mercado.

“A dinâmica competitiva mudou estruturalmente”, diz o documento. “(O mandato estratégico da GSI) parece ser ganhar participação de mercado, provavelmente em detrimento dos preços e da rentabilidade do setor.”

Os números mais recentes apresentados pela Kepler Weber reforçam parte das preocupações do Citi.

No primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou lucro líquido de R$ 17,5 milhões, queda de 33% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita líquida recuou 11%, para R$ 318 milhões.

O desempenho mais fraco foi observado justamente no segmento de fazendas, principal vertical da empresa e diretamente exposta ao ciclo de investimentos dos produtores rurais. A receita da divisão caiu 34% no trimestre, somando R$ 86,7 milhões.

Durante a apresentação dos resultados a jornalistas, o CEO da Kepler Weber, Bernardo Nogueira, reconheceu que o mercado deve permanecer retraído ao longo de 2026. Segundo ele, a expectativa é de que a desaceleração continue, embora em intensidade inferior à observada entre janeiro e março.

No início do ano, a Kepler chegou a negociar uma fusão com a GPT, mas as tratativas foram encerradas após divergências sobre os termos da operação entre a companhia e a Trígono Capital, maior acionista da Kepler.

Resumo

  • Citi rebaixa recomendação de Kepler Weber para venda e corta preço-alvo da ação
  • Banco aponta margens apertadas dos produtores, juros elevados e avanço da concorrência como fatores de pressão
  • Ação da Kepler acumula queda de mais de 5% no pregão