Como diz o ditado, enquanto muitos choram, outros vendem lenços. Nos últimos anos, órgãos públicos ligados à pesquisa agropecuária têm sido assunto frequente em manchetes relacionadas à falta de recursos e orçamentos cada vez mais reduzidos.

No tradicional Centro de Citricultura Sylvio Moreira (CCSM), braço do Instituto Agronômico (IAC), ligado ao governo do estado de São Paulo, a proposta tem sido diferente.

“Como a gente transforma uma instituição pública? Você começa a preparar pessoas, a estabelecer métodos de gestão, estabelece os KPIs, você realiza a pesquisa e você comunica o setor sobre aquilo que você faz. Então, esses quatro eixos passam pela estruturação de uma instituição moderna”, explicou o engenheiro agrônomo Dirceu Mattos Jr, atualmente diretor do Centro de Citricultura, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

No início da conversa ele ressalta os números impressionantes da citricultura brasileira, especialmente da cadeia da laranja. O Valor Bruto da Produção (VBP) do setor alcançou R$ 28,5 bilhões em 2024, ficando em sexto lugar, atrás de soja, milho, café e algodão.

Mas há uma diferença importante da laranja em relação a estas commodities agrícolas. Enquanto a soja ocupa 48 milhões de hectares, a laranja contabiliza apenas 600 mil hectares de cultivo.

Ao fazer a conta de qual valor é gerado pela cultura, chega-se a conclusão que a laranja “vale” 10 vezes mais do que a soja, por hectare. A cadeia da laranja como um todo, considerando também a indústria, movimenta US$ 15 bilhões.

A maior parte da produção brasileira de suco de laranja – cerca de 85% - está no chamado cinturão que envolve o interior de São Paulo e parte de Minas Gerais.

Três grandes indústrias – Cutrale, Citrosuco e Louis Dreyfus (LDC) – dominam esse mercado, que mantém o Brasil como maior exportador mundial de suco de laranja.

Mas e a pesquisa de novas tecnologias para a laranja, seria também dominada por grandes grupos privados? Não necessariamente. Dedicar anos estudando uma molécula ou determinados genes, sem a garantia de que haverá sucesso comercial ao final de tudo, é algo que as empresas preferem não se envolver diretamente.

É por isso que um instituto agronômico criado por D. Pedro II (sim, o IAC nasceu em 1892!) segue com relevância até hoje na geração de pesquisas e desenvolvimento de variedades para determinadas culturas. Em algumas delas, essa pesquisa virou passado – no algodão, por exemplo, o início do plantio no Cerrado era com variedades IAC e hoje são as multinacionais que dominam.

Na citricultura, a relevância do instituto paulista permanece. Em 1928 foi criada a área dedicada à citricultura, que passou a ser chamada de Centro Sylvio Moreira, décadas depois, e agora com sede em Cordeirópolis (SP).

O desafio agora é manter em pé o trabalho dos pesquisadores, que cada vez mais depende da participação do setor privado.

O CCSM diz já ter contabilizado a captação de R$ 36 milhões nos últimos cinco anos para seus projetos de pesquisa. Mais de 30% dos recursos chegam via FUNDAG (Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola), que viabiliza essa união entre as pontas pública e privada.

Enquanto algumas instituições de pesquisa vêm enfrentando queda nos recursos distribuídos por órgãos como FAPESP e CNPQ, Dirceu Mattos Jr garante que o Centro está mantendo um crescimento anual de 25% nas captações.

“Nós não sofremos tanto com estes cortes porque a gente tem competência de propor projetos com envergadura de resultados e esses projetos têm sido aprovados”, afirmou.

No ano passado, ele diz que o orçamento com origem no setor privado foi de R$ 9 milhões no CCSM. Em 2026, espera mais uma vez um avanço de 25%. Já para 2027, é possível que o crescimento fique entre 15% e 20%.

“A nossa visão é de uma instituição pública moderna. Organizações públicas não têm que ser ineficientes”.

A estimativa é de que 95% das variedades citrícolas hoje usadas no Brasil tenham sido desenvolvidas pelo Centro de Cordeirópolis.

Entre os destaques das pesquisas atuais estão projetos que envolvem Inteligência Artificial, resiliência climática e soluções para as principais pragas e doenças da citricultura, como o greening, que vem dizimando a produção, globalmente.

As três grandes exportadoras de suco, segundo Mattos Jr, hoje são responsáveis por cerca de 50% da área de laranja no País. Por isso, também apoiam ou demanda pesquisas do IAC.

“Ainda que nós tenhamos um setor centralizado, diferente de outros, que tem muitos players, a demanda por material genético, como é de longo prazo, ela acaba sendo atribuída ao nosso trabalho. Assim como outras estratégias que a gente começa a criar a competência e se tornar especialista num determinado assunto que a nossa visão antecipa algumas questões que são de uso deles (tradings). Então, a gente se torna um vínculo de consumidor e fornecedor”, pontuou.

Ele pondera que há pesquisas espontâneas – onde o pesquisador leva a descoberta para os elos da cadeia – e também as induzidas, quando empresas ou produtores pedem ajuda para resolver um problema.

“Os grandes desafios hoje, como estresse por clima, o desafio fitossanitário, eles são grandes demandadores dessas soluções. Eles (os players) estão buscando novas variedades tolerantes à doença, mais resistentes ao estresse do clima, que tenham mais qualidade de fruta”.

O orçamento público ainda domina o pagamento dos colaboradores do Centro de Citricultura. São atualmente 12 pesquisadores (já foram 16, há alguns anos), 15 servidores e 75 bolsistas.

O “case” da Expocitros

Mais de 10 mil pessoas passaram pela pequena cidade de Cordeirópolis ao longo desta semana. O objetivo era visitar a 51ª edição da Expocitros, evento promovido pelo Centro de Citricultura.

Entre os 87 expositores estavam grandes multinacionais dos setores de fertilizantes, defensivos químicos e biológicos, além de máquinas agrícolas mais apropriadas ao perfil dos citricultores.

Trata-se também de uma ação que envolve essa aproximação do instituto público com as empresas privadas e que ajuda a garantir o sustento do presente e os projetos futuros de Dirceu Mattos Jr e sua equipe.

“Nós saímos de um número lá de 6 mil visitantes e fomos para 12 mil no ano passado. Foi um salto imenso. Melhoramos a participação dos expositores e tivemos 85% de fidelidade”, disse o diretor, sobre a Expocitros.

Em parte, o sucesso foi também impulsionado pela alta expressiva nos preços da laranja até meados de 2025.

A caixa de laranja chegou a valer R$ 110 e hoje está em R$ 25. Isso fez praticamente dobrar a demanda, que chegou a 20 milhões de mudas, globalmente, segundo ele.

Um dos destaques da Expocitros deste ano foi a presença da Secretaria de Agricultura de Mato Grosso do Sul. Grandes empresas do setor vêm fazendo investimentos no estado, buscando alternativas em regiões menos afetadas pelo greening, como mostrou o AgFeed em 2024, em reportagem sobre a Cutrale.

Dirceu Mattos Jr acredita que a expansão para outros estados também seguirá abrindo oportunidades para o Centro de Citricultura, que detém um banco de germoplasma com 1.800 espécies e variedades de citros.

Nos últimos cinco anos, foram lançadas 24 novas copas e 15 novos porta-enxertos pelo CCSM/IAC. Entre os destaques estão aqueles tolerantes à seca. Houve também um ganho de 40% na produtividade com as novas tecnologias e uma economia de 20% no consumo de água, segundo o diretor.

Para 2027, está previsto o lançamento de uma nova variedade chamada de IAC Gabriela, que está em fase de registro junto ao Ministério da Agricultura.

O Centro de Citricultura Sylvio Moreira poderá um dia se transformar no “CTC da laranja”? O diretor acredita que é um cenário “um tanto remoto”, mas não impossível. Na cana o centro de desenvolvimento de variedades acabou se transformando numa empresa.

Dirceu Mattos Jr diz que tudo vai depender do amadurecimento da instituição, que depende da própria cultura interna.

“A gente olha desenvolvimento de pessoas e cultura organizacional, preparando esse time para ter uma governança e estrutura institucional e para cumprir com a nossa missão, que é a pesquisa”, acrescentou.

O trabalho já tem gerado frutos que não são apenas os projetos com a parceria privada. O Centro já alcançou uma premiação da FAO em 2025, pelo desenvolvimento de variedades na adaptação climática e possui certificações internacionais ligadas à qualidade e sustentabilidade.

Roberto Rodrigues homenageado

 

Resumo

  • Centro de Citricultura Sylvio Moreira, ligado ao IAC, desenvolveu 95% das variedades de laranja disponíveis no mercado e vem adotando modelo "moderno" de gestão
  • Diretor do CCSM, Dirceu Mattos Junior, prevê crescimento de 25% nos recursos captados com o setor privado em 2026
  • Na Expocitros, realizada esta semana em Cordeirópolis (SP), Centro de Citricultura divulgou nova variedade que será lançada em 2027

Visitantes na Expocitros, em Cordeirópolis (SP)

Tradicional brinde com suco de laranja na abertura da Expocitros

Sede do Centro de Citricultura Sylvio Moreira

Roberto Rodrigues foi homenageado no evento