Mesmo em um momento de crédito mais restrito no agronegócio, com juros elevados, aumento da inadimplência e bancos mais seletivos, a Farmtech não tem motivos para duvidar que o ano que vem pela frente será muito bom.

“A gente está numa toada de crescer, mas com muito cuidado”, definiu Rafael Pilla, fundador e CEO da companhia, em entrevista ao AgFeed.

A empresa, que oferece serviços para facilitar as operações de crédito entre indústrias, revendas e produtores, projeta que o ano será positivo ao apostar no que faz de melhor, também na visão do executivo: um modelo baseado em ecossistemas fechados, relacionamento de longo prazo com grandes players do setor, carteiras pulverizadas com muitos dados para monitorar o capital dentro da cadeia agrícola.

Pilla disse que, depois de desembolsar cerca de R$ 5,5 bilhões em 2025, a Farmtech estima atingir algo próximo de R$ 8 bilhões em crédito em 2026.

Um dos principais motores dessa expansão é o CropCredit, programa desenvolvido em parceria com a Bayer e que atingiu R$ 3,3 bilhões movimentados desde quando foi criado em 2023, revelou a empresa.

A estrutura conecta empresas - seja indústria, seus distribuidores, cooperativas ou revendas parceiras - e produtores rurais dentro de um mesmo ecossistema de crédito digital.

Pilla explica que o modelo funciona como uma plataforma capaz de operar diferentes canais comerciais, perfis de clientes e estruturas financeiras ao mesmo tempo, inclusive com funding em reais e dólar.

“A beleza da coisa é que uma companhia como a Bayer é muito complexa, ela é muito grande e as necessidades são igualmente difíceis. Então, como atender isso tudo com um guarda-chuva só? Com nossa tecnologia em conjunto com a Bayer, que tem profundidade no conhecimento de como que a cadeia econômica funciona”, disse Pilla.

Hoje, o CropCredit opera com cinco fundos principais, alguns exclusivos da Bayer e outros compartilhados com parceiros financeiros da Farmtech. Além deles, há estruturas específicas voltadas diretamente para distribuidores regionais ligados à companhia alemã.

Um dos principais exemplos dessa engrenagem, e que mostra como funciona o fluxo do dinheiro, veio no início deste ano, quando Rabobank e Bayer estruturaram cerca de R$ 1 bilhão em dois Fiagros-FIDC ligados ao programa, justamente para financiar distribuidores, cooperativas e produtores dentro da cadeia da multinacional.

Segundo Pilla, o diferencial do modelo está justamente na capacidade de fazer o crédito chegar até o momento da venda.

“Nosso grande desafio é estar no ponto de venda, na hora que a venda é decidida, com o crédito pronto, pré-aprovado e em todos os canais”, afirmou.

A operação foi desenhada para financiar diferentes elos da cadeia ao mesmo tempo. O maior volume ainda passa pelas revendas e distribuidores, mas a Farmtech afirma que vem aumentando rapidamente a participação do crédito diretamente ao produtor rural. “O pêndulo do crédito tende cada vez mais ao produtor”, disse.

A lógica por trás disso é reduzir fricções comerciais em um setor onde o financiamento segue sendo peça central para destravar vendas de insumos.

Segundo a empresa, a plataforma consegue pré-aprovar crédito apenas com o CPF do produtor, permitindo que equipes comerciais cheguem às fazendas já sabendo o limite disponível para negociação.

“Antes mesmo da visita, o vendedor consegue abrir o sistema e ver quanto aquele produtor já tem disponível. Isso acelera muito a venda”, afirmou Pilla. No CropCredit, a expectativa é que o programa sozinho alcance cerca de R$ 6 bilhões nos próximos 12 meses, estimou o executivo.

Ele calcula que hoje Farmtech atua hoje junto a cerca de 85% do mercado brasileiro de insumos agrícolas, incluindo empresas como Bayer, Basf, UPL e Adama. Segundo a companhia, aproximadamente 3 mil das cerca de 4 mil revendas agrícolas existentes no Brasil já operaram algum financiamento via suas estruturas.

É nesse histórico que a empresa aposta como vantagem relevante no atual momento do crédito agro. Pilla cita que isso permite que a Farmtech monitore regiões, culturas e perfis distintos em vários níveis de deterioração financeira. “A gente consegue ter uma visão bastante apurada do que está acontecendo dentro da cadeia”, afirmou.

Segundo ele, a estratégia da empresa sempre foi operar crédito dentro de ecossistemas considerados mais estáveis e recorrentes, evitando operações isoladas ou excessivamente oportunísticas.

“Nosso foco é construir relações de longo prazo. Em 10 ou 15 anos, tempo médio que fazemos nossos projetos, haverá crises, então o crédito precisa ser pensado atravessando ciclos”, afirmou.

Mesmo diante da deterioração observada em partes do setor agrícola nos últimos dois anos, a Farmtech afirma que sua inadimplência segue "bem abaixo da média de mercado".

A empresa atribui isso principalmente à pulverização da carteira. Hoje, o tíquete médio das operações gira em torno de R$ 150 mil, espalhado entre diferentes culturas, regiões e perfis de produtores.

“O nosso crédito é muito pulverizado e isso dilui o risco. É a mesma esteira de crédito controlada 100% por nós e presente no Brasil todo. Uma pulverização de produtores, de regiões e de commodities ajuda quando uma vai mal e outra vai bem. A nível Brasil, isso é resiliente", disse.

Segundo Pilla, a companhia já financiou cerca de R$ 30 bilhões desde sua criação e segue operando abaixo do limite histórico de perdas considerado aceitável internamente.

Isso não significa ausência de problemas. O executivo reconhece que o setor vive um dos períodos mais desafiadores dos últimos anos, pressionado simultaneamente por juros altos, clima adverso, margens apertadas e acúmulo de dívidas de safras anteriores.

"Tem problema de crédito? Lógico. Tem RJ? Claramente. Mas quando olhamos para essa pulverização, está tudo dentro do nosso índice de perdas, até abaixo, mesmo no momento ruim. Evidentemente, é claro que estamos mais conservadores na concessão do que há dois ou três anos", acrescentou.

Ele cita o Rio Grande do Sul como exemplo. Mesmo após sucessivos problemas climáticos, a empresa afirma ter mantido suas operações na região. “Não posso deixar um parceiro desassistido nunca. A gente pisa no freio quando precisa, mas continua financiando”, disse.

Além da expansão do crédito em si, a Farmtech também prevê ampliar sua atuação como fornecedora de infraestrutura financeira para outros tipos de parceiros da cadeia agrícola.

Pilla cita que a empresa tem ido além da frente tradicional de insumos e passou a estruturar operações no mercado de máquinas agrícolas, atuar com barter com liquidação física e até operações ligadas à pecuária.

Para ajudar nesse crescimento, a companhia recebeu, em 2024, um aporte de US$ 10 milhões da gestora Bewater. Na época, Pilla afirmava enxergar espaço para multiplicar tanto o número de parceiros quanto o volume de crédito gerado pela companhia.

Segundo Pilla, a expansão, porém, seguirá concentrada em setores onde a empresa acredita conseguir combinar tecnologia, conhecimento da cadeia e estruturas financeiras próprias. “Onde for só dinheiro pelo dinheiro, a gente não vai”, afirmou.

No médio prazo, a Farmtech também quer ampliar sua base de investidores e se consolidar como uma alternativa mais recorrente para o mercado de capitais ligado ao agro. Segundo Pilla, a ideia é abrir espaço para investidores tradicionais acessarem carteiras pulverizadas e lastreadas em operações da cadeia agrícola. “Gostaríamos de ser vistos como uma alternativa de investimento segura, estável e de longo prazo”, disse.

Resumo

  • Farmtech projeta R$ 8 bi em crédito agro em 2026 após desembolsar R$ 5,5 bi em 2025
  • Só no CropCredit, programa dedicado à Bayer, empresa já movimentou R$ 3,3 bi e deve alcançar R$ 6 bi em 12 meses
  • Farmtech aposta em crédito pulverizado e ecossistemas fechados para crescer, mas com cautela