O mercado brasileiro de defensivos agrícolas superou os R$ 102 bilhões em 2025, , conforme levantamento da Kynetec Brasil a pedido do Sindiveg. Desse total, cerca de R$ 47 bilhões correspondem ao segmento de herbicidas, a maior fatia do bolo, à frente de fungicidas e inseticidas.

Já no uso de insumos biológicos, o mercado brasileiro rompeu, segundo dados da CropLife Brasil, a barreira dos R$ 6,2 bilhões no ano passado, crescimento de 15% sobre o ano anterior, enquanto a área tratada com produtos biológicos avançou 28%, chegando a 194 milhões de hectares.

Bioinsumos e herbicidas, entretanto, não fazem parte, até agora, das mesmas estatísticas. Hoje o controle de plantas daninhas ainda é feito inteiramente por fórmulas químicas em virtude da falta de oferta de produtos biológicos para esse fim, não apenas no Brasil, mas em nível global.

O controle de plantas daninhas permanece como um grande desafio para as indústrias do setor de bioinsumos, mas que pode começar a ser vencido a partir de um projeto inédito que vem sendo executado sem alarde em laboratórios brasileiros por uma das empresas líderes do setor em todo o mundo.

Em entrevista exclusiva ao AgFeed, o CEO da Koppert Brasil, Danilo Pedrazzoli, confirmou que a empresa já iniciou as pesquisas para o desenvolvimento inédito de um herbicida biológico à base de um fungo – cujo nome ainda é mantido em sigilo devido a cláusulas de patente e pesquisa.

O estudo da filial brasileira é realizado em conjunto com a matriz da Koppert, na Holanda, as universidades federais de Viçosa e Uberlândia, além de instituições internacionais como a Universidade de Wageningen, da homônima cidade holandesa, uma das maiores referências em pesquisa agronômica no mundo.

No centro do desenvolvimento está o SPARCBio, centro avançado de pesquisas da Koppert Brasil e parceiros, sediado em Piracicaba (SP), que funciona como hub para conectar essas universidades aos esforços de uma rede de 74 pesquisadores internos para o desenvolvimento do projeto.

O caminho, porém, não será curto. Pedrazzoli é enfático ao calibrar as expectativas. "Como a gente trabalha com um pipeline bastante extenso, é muito difícil falar quando essas tecnologias chegarão especificamente ao mercado", aponta.

O histórico da própria Koppert ilustra bem essa realidade. O fungicida Macan, considerado o grande lançamento da empresa em 2026 e desenvolvido a partir de cepas estudadas na Universidade de Málaga, na Espanha, está sendo pesquisado desde 2002. Foram 23 anos de desenvolvimento para chegar às prateleiras.

Antes dele, um trichoderma para tratamento industrial de sementes consumiu oito anos de pesquisa, com dúvidas sobre o lançamento até o sétimo ano, quando, finalmente, a formulação com adjuvantes químicos biodegradáveis compatíveis ao organismo foi resolvida.

O herbicida biológico em desenvolvimento segue a mesma lógica de rigor. Segundo o CEO, existem basicamente duas linhas de estudos para preencher, no futuro, a bilionária lacuna dos herbicidas de origem biológica.

A primeira trabalha com dessecantes ou maturadores, que atuam de forma genérica, sem seletividade. "Você não vai ter resistência a esse tipo de produto, mas precisa usá-lo em momentos onde a cultura não depende de seletividade", descreve Pedrazzoli.

A segunda vislumbra produtos específicos, com alvos definidos. É nessa segunda linha que a Koppert, que fatura cerca de R$ 890 milhões no Brasil com suas linhas de micro e macrobiológicos, aposta suas fichas, apontando como grande tendência do mercado.

Ao ser questionado sobre qual planta daninha será o alvo do projeto, o CEO revelou que a equipe estuda a aplicação em buva, capim-amargoso e outras variedades.

A diferenciação é importante porque delimita o que o produto poderá e o que não poderá fazer. Um bio-herbicida que substitua o glifosato sem prejudicar a soja, por exemplo, ainda não existe e, segundo Pedrazzoli, não está no horizonte imediato.

"Se ele substituir o glifosato matando tudo, ele vai matar a soja também", pondera o executivo.

A proposta em desenvolvimento não é substituir o químico de forma direta, mas abrir uma frente inédita de controle biológico em alvos específicos de plantas daninhas – um mercado que, até hoje, permanece inteiramente nas mãos dos agroquímicos.

Os herbicidas respondem por 46% de todo o volume de químicos consumidos no Brasil em 2025. E a demanda não dá sinais de diminuição: a área potencial tratada com defensivos agrícolas cresceu 7,6% no ano passado, superando 2,6 bilhões de hectares protegidos.

A soja, principal lavoura do país, concentra 55% de toda essa área tratada – e é exatamente nas grandes culturas que o controle de plantas daninhas mais pesa, tanto no custo quanto no impacto ambiental.

Os defensivos biológicos representam um mercado em expansão, mas que ainda não tem resposta para o principal problema das lavouras em volume: as plantas daninhas.

Preencher sequer uma fração desse espaço com uma solução biológica pode representar uma mudança estrutural no setor. Por ora, cada hectare de soja, milho ou algodão que recebe tratamento herbicida no Brasil depende exclusivamente da química.

À espera de um novo sócio

A Koppert Brasil é hoje uma das maiores operações globais da multinacional. A companhia fatura cerca de R$ 890 milhões no Brasil com suas linhas de micro e macrobiológicos e seus dois líderes locais, Pedrazzoli e Gustavo Herrmann, CEO da empresa para a América do Sul – ambos são também sócios da filial local – têm participação relevante nas estratégias globais do grupo.

Atualmente, a filial passa por uma transformação interna, iniciada no ano passado, com o objetivo de preparar a estrutura para a entrada de um novo sócio-investidor. Em agosto de 2025, a Koppert entregou ao Itaú BBA um mandato para selecionar esse investidor, que aportaria um montante estimado em 100 milhões de euros (cerca de R$ 600 milhões, no câmbio atual) na operação brasileira da Koppert.

Segundo o cronograma estabelecido entre a empresa e o banco, esse processo caminha para definições em breve. No final do ano passado, o Itaú BBA fez uma seleçãode cerca de 20 potenciais investidores, que, a partir da assinatura de termos de confidencialidade, receberam os prospectos com as informações preliminares sobre a Koppert e seus planos – inclusive um pacote de dados que permitem fazer uma primeira avaliação financeira do valor do negócio.

A partir do início de 2026, as conversas foram afuniladas ficando focadas em um número estimado entre três e cinco propostas, buscando “a melhor combinação entre valuation e perfil do sócio”, segundo afirmou Herrmann em entrevista ao AgFeed em dezembro passado.

A expectativa da Koppert era definir o nome e as condições de entrada desse investidor até o próximo mês de julho. O prazo estabelecido responde a uma necessidade estratégica da empresa, segundo Herrmann.

O capital é necessário para dar fluxo a um plano de expansão da capacidade produtiva, com a construção de até três novas plantas na região de Piracicaba, onde fica a sede da empresa.

“Nós precisamos fazer expansão da fábrica de fungos, precisamos fazer uma nova fábrica de produtos à base de bactérias. Agora tem a tecnologia nova dos nematóides e dos entomopatogênicos, que é um produto que a gente traz da Holanda. Mas fica muito caro para trazer, então também seria interessante internalizar essa produção”, disse o executivo na entrevista.

Nas projeções de Herrmann, a Koppert tem até 2028 para colocar no mercado novas linhas de produtos que a permitirão manter uma posição de liderança no mercado de biológicos.

“Uma fábrica demora dois anos, no mínimo, para ficar operacional. Então, a gente começou a ficar muito atrasado e começou a descasar essa questão de ter a capacidade de investimento e suplantar o mercado”, afirmou.

Resumo

  • Koppert Brasil pesquisa herbicida biológico à base de fungo para combater daninhas como buva e capim-amargoso nas lavouras
  • Mercado de bioinsumos cresce no Brasil, mas controle biológico de plantas daninhas ainda é exclusivo dos químicos
  • Empresa busca novo investidor para ampliar fábricas e acelerar expansão no mercado de biológicos até 2028