Nas últimas edições, o Congresso da Abramilho conseguia ceder mais espaço para os números impressionantes do avanço da cultura do cereal no País, principalmente com o impulso da produção de etanol de milho e da crescente demanda do setor de proteína animal, que precisa de ração.
Nesta edição 2026, por mais que lideranças preparassem com cuidado cada ponto específico a ser analisado na cultura do milho, as pautas “urgentes” dominaram as rodas de conversa, com foco nas questões econômicas e políticas.
Um tema em destaque nem era diretamente relacionado aos grãos, mas também traz riscos ao setor. É a decisão da União Europeia de excluir o Brasil da lista de países aptos a exportar proteínas animais a partir de setembro, em função de critérios sanitários, relacionados ao controle de antibióticos.
Já na abertura do evento, que ocorreu em Brasília, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, e o ministro da Agricultura, André de Paula, procuraram acalmar as lideranças do setor, sinalizando que no prazo de 15 dias a UE terá uma resposta ao Brasil, deixando claro os critérios usados e, acreditam eles, permitindo que o Brasil faça as adequações e consiga impedir qualquer tipo de suspensão das exportações.
O outro “problema da vez”, que dominou os grupos de conversa, é o endividamento, que emperra qualquer discussão de novos investimentos entre produtores e empresas e que está travando inclusive as definições sobre o Plano Safra.
“Ficou bem claro aqui que a gente está num turbilhão, que a agricultura brasileira está realmente em xeque, a própria ex-ministra Tereza Cristina colocou que não é mais uma tempestade e sim uma tormenta”, afirmou Glauber Silveira, diretor executivo da Abramilho, em conversa com o AgFeed, em meio ao evento.
O dirigente se refere ao pleito das entidades do setor e da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) para que fosse viabilizada a renegociação de R$170 bilhões em dívidas agrícolas.
É consenso entre as lideranças que o problema hoje não é a oferta de crédito e sim a dificuldade de acesso aos recursos, em função da alta recorde na inadimplência e das margens cada vez mais apertadas dos produtores de grãos, o que tem deixado os bancos muito restritivos.
A sinalização do Ministério da Fazenda, até o momento, seria liberar em torno de R$ 80 bilhões para a renegociação, mas o setor considera esse volume insuficiente.
“Nós não estamos inflacionando esse valor. É por que os agricultores têm dívidas com bancos, t}em dívidas com as tradings, com as revendas de insumos e também com fundos. Não é só com o banco”, disse a senadora Tereza Cristina, ao AgFeed, depois de participar do painel de abertura do Congresso da Abramilho.
Ela explicou que, na conversa com os bancos, tem ficado claro que eles possuem recursos disponíveis. “O problema são as garantias, porque os produtores que estão endividados e que já renegociaram estão com todas as garantias presas, então eles não conseguem tomar novos recursos para o próximo Plano safra”, reforçou a ex-ministra.
Tereza Cristina passou a terça-feira em reuniões no Ministério da Fazenda, no Ministério da Agricultura e com senadores que discutem as propostas de renegociação dentro do Congresso Nacional. “É esse nó, esse gargalo, que estamos tentando resolver e oferecemos várias alternativas aos ministérios. Eles estão estudando. Eu espero que de verdade eles entendam o momento muito difícil por que passa a agricultura brasileira”.
Uma das propostas na mesa é a criação de um fundo garantidor, onde haveria aporte do governo e também dos próprios produtores rurais para reduzir o risco dos bancos e permitir que novas renegociações sejam feitas.
“Essa criação do fundo talvez seja uma alternativa interessante, porque a gente sabe que as ações do governo para poder ajudar não são suficientes. E a gente também sabe que depois, por mais que falam que precisava de 170 bilhões, mas aí libera 80 (bilhões), desses 80 só acabam liberando 20 (bi). A gente sabe que essa história não adianta, é preciso ter algo bem estruturado, com tranquilidade, não pensando só no agora, mas pensando no futuro”, defendeu Silveira, da Abramilho.
Além das dívidas, uma outra questão foi destacada ao longo dos debates. O custo cada vez mais elevado para produzir o milho, uma cultura que depende por exemplo, da ureia, um fertilizante nitrogenado cujo preço explodiu com a guerra no Irã.
Na opinião do diretor da Abramilho, inevitavelmente haverá uma redução da produção de milho do Brasil na safra 2026/2027.
“A gente está bastante preocupado, sabemos que vai ter uma diminuição em torno de 30% do uso de tecnologia. Ou seja, o produtor vai plantar colocando menos adubo”, ressaltou Glauber.
A disparada no preço dos fosfatados afetará também a soja, lembrou ele, que também já enfrenta a dificuldade na importação de defensivos agrícolas em função da guerra. Silveira acredita até em possível redução na área plantada de soja em função dos desafios.
“O produtor não vai conseguir também fazer muita coisa na safra de milho. E aí se você já plantou uma safra de soja, diminuindo defensivos agrícolas, e se você plantar outra safra de milho sem colocar defensivos, aí o risco é muito grande”.
A safra de milho será menor no próximo ciclo? O diretor da Abramilho acredita que sim.
“Se continuar desse jeito, com certeza vai ter (redução). Essa safra já caiu. Na safra anterior a gente colheu 150 milhões de toneladas (de milho). Nessa a gente vai colher 140, talvez 138 (milhões). E na próxima a gente pode voltar a patamares de três anos atrás, de 130 milhões de toneladas”, alertou.
Ele explica que áreas de solos arenosos, que seriam utilizadas para o milho, em função da maior demanda por adubo, podem ser abandonadas.
Enquanto não se resolve a questão do crédito e dos custos altos, o evento abriu espaço para outras discussões como a necessidade de aprovar novas biotecnologias para o milho na China, hoje um importante consumidor do cereal, globalmente.
Há sementes aprovadas no Brasil e em outros países produtores, que podem permitir maior produtividade e maior resistência a lagartas, por exemplo, mas que até agora não tiveram aval do comprador asiático.
Silveira pondera que, neste momento, a China tem comprado pouco milho do Brasil, mas deverá aprovar com maior rapidez quando precisar aumentar os volumes importados, como já ocorreu em anos anteriores.
Resumo
- Abramilho alerta para possível queda da produção de milho na safra 2026/2027 devido ao alto endividamento do setor
- Produtores devem reduzir em até 30% o uso de tecnologia e fertilizantes por causa dos custos elevados dos insumos
- Governo e lideranças discutem renegociação de dívidas e criação de fundo garantidor para destravar o crédito rural