Santos (SP) – A Copersucar, líder global na comercialização de açúcar e etanol, projeta a implantação de duas novas usinas de produção de biometano dentro de seu ecossistema a partir do fim de 2026, antecipou o presidente da companhia, Tomás Manzano, em entrevista a jornalistas nesta quarta-feira, dia 13 de maio.
“Ainda não podemos dizer o nome, mas temos duas usinas do sistema Copersucar já avançadas com os projetos, que devem começar a construção agora no final de 2026 e começo de 2027”, afirmou Manzano após um evento no terminal da companhia do setor sucroenergético no Porto de Santos, em São Paulo.
A expectativa da companhia é de que as novas usinas tenham uma produção estimada entre 50 a 60 mil metros cúbicos ao dia, a partir de uma moagem de 3 milhões a 4 milhões de cana, estimou Manzano.
A Copersucar já possui em seu ecossistema duas plantas de biometano, ambas da associada usina Cocal, uma localizada em Narandiba (SP), inaugurada em 2021, com capacidade de produção de até 25 mil metros cúbicos ao dia, e outra, inaugurada em 2025 no município de Paraguaçu Paulista (SP), com capacidade de produção de até 60 mil metros cúbicos do gás renovável durante a safra. O biometano das usinas é produzido a partir de vinhaça e torta de filtro, resíduos do processo produtivo da cana.
Manzano estimou que cada uma das novas usinas de biometano tenham custo girando entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões – duas novas plantas, portanto, custariam até R$ 600 milhões à companhia.
“O investimento numa usina de biometano não é um investimento tão relevante para uma indústria intensiva em capital como é uma usina de cana”, compara o presidente da Copersucar.
As novas usinas fazem parte de um projeto maior da companhia do setor sucroenergético, que está investindo R$ 8 bilhões ao longo de dez anos para acelerar a produção de biometano em seu parque industrial e também atuar no desenvolvimento da cadeia do biometano, desde a produção nas usinas do interior paulista à distribuição de biogás e energia elétrica.
Manzano estimou que, num horizonte de 10 a 15 anos, a Copersucar vai implantar entre 5 a 7 projetos de biometano por ano. "Dependendo da condição econômica geral do setor, pode ser que seja mais rápido, pode ser que seja um pouco mais lento", afirmou o presidente da Copersucar.
A expectativa da companhia é de ter produção de biometano em todas as 42 unidades que fazem parte do sistema Copersucar em cerca de dez anos.
“Na nossa visão, a tendência é que, com o tempo, toda usina deve ter uma planta de biometano, assim como toda usina hoje tem uma unidade de cogeração de energia”, disse Manzano.
O avanço da BioRota
Nos últimos dois anos, desde abril de 2024, a Copersucar vem desenvolvendo um projeto chamado BioRota, lançado oficialmente nesta quarta-feira em um evento restrito a funcionários, jornalistas e convidados no terminal portuário de Santos.
Nesses dois anos a companhia vem utilizando biometano produzido a partir de resíduos da cana-de-açúcar para substituir o diesel em parte da frota de caminhões que levam o açúcar das usinas associadas até o Porto de Santos.
Para Tomás Manzano, os resultados da operação já demonstram viabilidade econômica e operacional para expansão do modelo. “A equação já está muito bem estabelecida, a tecnologia já existe, já está disponível, é economicamente viável para todos os agentes que participam dessa cadeia”, afirmou.
Entre abril de 2024 e março de 2026, segundo a empresa, a BioRota realizou mais de 13 mil viagens, percorreu 11 milhões de quilômetros e transportou cerca de 600 mil toneladas de açúcar até o terminal portuário do litoral paulista.
A companhia estima ter substituído, nos últimos dois anos, aproximadamente 5 milhões de litros de diesel, evitando a emissão de mais de 8 mil toneladas de CO2.
A iniciativa começou a partir de uma parceria com a transportadora Reiter, especializada em frotas movidas a gás, e atualmente já envolve outras quatro transportadoras.
A expectativa da Copersucar é ampliar o uso do biometano nos próximos anos, estimulando também as usinas associadas a produzirem e utilizarem o combustível em suas operações.
Tomás Manzano projetou que, no futuro, todas as usinas da companhia estejam utilizando biometano no transporte rodoviário de açúcar.
“Nosso plano é rampar isso para que, no futuro, 100% do nosso transporte seja feito em caminhões a biometano”, afirmou.
A velocidade dessa expansão, no entanto, segundo o executivo, ainda depende de fatores estruturais, como a construção de novas plantas de biometano nas usinas, o desenvolvimento de pontos de abastecimento e a disponibilidade de caminhões aptos a receber o biocombustível.
No caso dos postos de abastecimento, Manzano afirmou que qualquer ponto de GNV (gás natural veicular) pode operar também com biometano.
“A gente já tem uma rede de postos no Brasil com gás GNV. Essa velocidade vai depender da evolução, da produção do biometano, da evolução dos caminhões, mais marcas operando caminhões a gás, e do desenvolvimento dos pontos de abastecimento”, avalia Manzano.
Além disso, a ideia da empresa é também inserir postos de abastecimento nas próprias usinas produtoras de biometano.
Hoje cerca de 75 dos 500 caminhões da frota da companhia já rodam com o biocombustível. No entanto, a potência dos caminhões disponíveis no mercado para uso agrícola ainda impede esse tipo de uso em escala, ponderou o presidente da Copersucar.
“Ainda não tem uma disponibilidade no Brasil de caminhões com potência de motor acima de 560 cavalos. E a gente precisa dessa potência maior para poder operar no campo”, disse Manzano.
Esse fator tecnológico ganha relevância porque a ideia da Copersucar é, no futuro, ampliar o uso do biometano também para as operações agrícolas das usinas, especialmente no transporte de cana-de-açúcar entre os canaviais e as unidades industriais.
O executivo afirmou ainda que o uso do biogás nos caminhões já apresenta vantagem econômica relevante frente ao diesel, com custos cerca de 20% a 25% mais baratos.
A economia, na avaliação do presidente da Copersucar, ajuda a compensar o maior custo inicial de aquisição dos caminhões movidos a gás. “Essa diferença do combustível é o suficiente para remunerar esse ativo que é um pouco mais caro”, disse.
Em paralelo, a empresa também avalia oportunidades para comercialização do biocombustível fora de sua própria operação logística, fornecendo biometano para indústrias e postos de abastecimento.
“Às vezes, o gás passeia mil quilômetros para chegar num destino, adicionando um custo logístico enorme, e agora você vai ter uma usina produzindo o gás do lado. Uma usina pode ter como cliente uma fábrica de vidro, de plástico, de alimentos, que está do lado dela”, projetou Manzano.
A Copersucar teve um lucro líquido de R$ 402 milhões na safra 2024/2025, com receita líquida de R$ 62,3 bilhões. A companhia ainda não divulgou os dados da safra 2025/2026.
À agência Reuters, Tomás Manzano avaliou que o mercado de açúcar está equilibrado. Para o presidente da Copersucar, a tendência é de crescimento da safra 2026/2027, lembrando que o mercado tem a expectativa de que a colheita possa atingir a faixa de 630 milhões de toneladas.
Manzano evitou comentar, no entanto, sobre as projeções da Copersucar para safra“Ainda é muito cedo, a safra começou agora, faz um mês, ainda tem muito tempo pela frente, está indo bem, e as usinas em priorizado neste início um pouco mais de produção de etanol, que está remunerando melhor do que o açúcar”, disse.
O presidente da Copersucar disse ainda que os preços do açúcar dependerão do desempenho do consumo do etanol no Brasil ao longo da safra 2026/2027.
“O açúcar está operando em intervalo de preços de 14 a 15 centavos (de dólar por libra-peso na bolsa de Nova York), em cenário de equilíbrio. (O preço) vai depender muito do tamanho da safra brasileira, é um número incerto”, disse Manzano.
“Mas nossas estimativas atuais indicam que o balanço está mais ou menos equilibrado, vai depender da reação do consumidor de etanol, do mix de produção das usinas e do tamanho da safra”, emendou o líder da Copersucar.
Resumo
- Copersucar projeta início de instalação de duas novas plantas de biometano de usinas associadas entre o fim de 2026 e o começo de 2027
- Novas usinas devem ter custo estimado entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões cada
- Projeto faz parte de investimentos de R$ 8 bilhões da companhia no desenvolvimento da cadeia de gás renovável