O principal motor de resultados da BrasilAgro no terceiro trimestre do ano-safra 2025/2026, período que vai de janeiro a março na companhia, costuma ser a soja.
Mas, neste início de 2026, a escalada e a continuidade do conflito no Oriente Médio encareceram o diesel, elevaram os custos de transporte e provocaram uma disparada nos preços do frete, dificultando a comercialização dos grãos da companhia.
Com isso, a empresa encerrou o trimestre no vermelho. Entre janeiro e março, a BrasilAgro teve prejuízo líquido de R$ 14,3 milhões. A receita líquida total recuou 26% no período, passando de R$ 224,9 milhões para R$ 166,9 milhões.
O Ebitda (sigla para lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado total também piorou, encerrando o trimestre em resultado negativo de R$ 28,5 milhões. Um ano antes, o indicador já havia ficado no vermelho, em R$ 5 milhões.
Diante de uma alta nos fretes estimada pela empresa entre 12% e 15% nos fretes, a BrasilAgro decidiu estocar parte mais considerável da soja no início deste ano, aguardando a normalização dos preços.
"Todos tínhamos expectativas de que a guerra iria se concluir em seis semanas. Falamos: 'Vamos esperar um pouquinho, não vamos vender um volume expressivo'", relata Lopez.
O executivo explica que, tradicionalmente, a companhia vende cerca de 70 mil por trimestre neste período do ano e carrega o restante para o segundo semestre.
Desta vez, no entanto, o volume foi menor: a BrasilAgro comercializou 55.433 toneladas de soja no trimestre encerrado em março, volume 8% inferior ao registrado no mesmo período de 2025.
Com vendas menores, a receita oriunda da soja também caiu, passando de R$ 104,4 milhões no ano passado para R$ 95,7 milhões neste ano.
No outro lado, as despesas com vendas cresceram 11% no terceiro trimestre, totalizando R$ 16,8 milhões. O avanço foi puxado principalmente pelos custos de armazenagem e beneficiamento, que aumentaram 28%, pressionando o balanço da companhia.
Lopez afirma que a empresa não descarta alternativas comerciais para enfrentar os fretes elevados e cumprir os contratos com as tradings sem comprometer ainda mais os resultados.
"Nós temos contrato para cumprir, ou seja, não vamos poder escapar de que até 30 de junho, nós vamos ter que entregar essas 90 mil toneladas para cumprir o contrato", diz o CFO da BrasilAgro.
Uma das possibilidades avaliadas pela companhia é de buscar vendas no modelo CIF, modalidade em que o vendedor assume os custos e riscos do transporte até o destino final.
"A ideia é levar a soja para o porto, trazendo algum fertilizante de volta. O problema que estamos tendo, por outro lado, é que o fertilizante também está pressionado", diz.
A companhia já adquiriu boa parte dos fertilizantes que vai necessitar para a safra 2026/2027, totalizando 69% de cloreto de potássio e 43% de fosfatados. A expectativa de Gustavo Lopez é de que a situação se normalize até o segundo semestre, quando se inicia a adubação de grãos. “Caso que isso não aconteça, a gente vai ter que convalidar algum preço mais alto”, reconhece o executivo.
No lado financeiro, também há problemas: a Selic ainda alta vem interferindo nos juros sobre o capital de giro pagoas pela companhia. A companhia relata no balanço que as despesas com juros cresceram 20% em um ano, somando R$ 25,2 milhões no terceiro trimestre do ano-safra neste ano.
“As expectativas eram de que (o BC) começasse a diminuir a um ritmo, mais ou menos, de 0,5 ponto por cada reunião do Copom, e isso também não está acontecendo. Depois da guerra, o Banco Central estabeleceu um ritmo um pouco menor de redução”, disse.
Se a geopolítica é um tormento para a vida da BrasilAgro, no campo, a companhia tem tido um ano um pouco mais tranquilo.
Lopez avalia que a safra 2025/2026 deve se encerrar “muito próxima” das estimativas iniciais e destaca uma recuperação importante da produtividade em regiões como Matopiba e Paraguai, após dois anos de problemas climáticos.
A exceção ficou por conta de parte das operações em Mato Grosso. Segundo o executivo, um intervalo de estiagem no momento inicial do plantio da soja comprometeu cerca de 25% da área semeada, reduzindo o estande de plantas e puxando a produtividade para baixo em parte das fazendas do Estado. “Já a outra parte teve produtividade ‘padrão Mato Grosso’”, diz.
Ainda assim, a companhia projeta colher 245,9 mil toneladas de soja na safra 2025/26, alta de 17% sobre o ciclo anterior, embora 2% abaixo da estimativa inicial divulgada anteriormente.
Acumulado do ano e perspectivas
Nos nove primeiros meses de 2026, a BrasilAgro também acumula resultados mais fracos, tendo um prejuízo somado de R$ 76 milhões.
No período, a receita líquida da companhia recuou 27%, totalizando R$ 639,8 milhões, ante R$ 870,5 milhões registrados no mesmo recorte de 2025.
O Ebitda ajustado total também encolheu de forma expressiva, passando de R$ 195,2 milhões no acumulado de 2025 para R$ 42,7 milhões neste ano, uma queda de 78%.
Com isso, a margem Ebitda caiu de 22% para 7% no período, retração de 15 pontos percentuais.
A cana foi a “vilã” do resultado nos nove primeiros meses do ano, segundo López, refletindo principalmente a quebra de produtividade da safra passada, já que os preços estavam melhores do que agora.
A receita da cultura recuou 31% nos nove meses de 2026, passando de R$ 239,4 milhões para R$ 164 milhões, refletindo principalmente a quebra de produtividade da safra passada, já que os preços estavam melhores do que agora.
"No ano passado, a gente sofreu muito com geadas e algumas queimadas no Nordeste e alguns problemas produtivos na fazenda São José, no Norte", diz.
Para a safra atual, no entanto, as perspectivas para a cana são mais positivas. "Tivemos uma chuva muito boa durante todo o verão e maio está chegando com uma temperatura média abaixo do ano anterior, fazendo com que a planta não entre em estresse hídrico", analisa Lopez.
A expectativa é de que, nesta safra, a companhia colha 25% toneladas a mais de cana-de-açúcar, somando 2,1 milhões de toneladas, ante 1,7 milhão de toneladas, com aumento também de 18% no TCH - toneladas colhidas por hectares - passando de 67,55 na safra passada para 79,51 hectares nesta safra.
López admite que os preços do ATR, principal métrica do açúcar, estão um pouco abaixo em relação ao registrado no ano passado. “E também um pouco abaixo do que tínhamos estimado, mas temos toda a safra por acontecer”, ressalta o executivo.
Em março, o preço médio do quilo do ATR estava em R$ 1,0816, segundo dados do Cepea-USP. Em abril do ano passado, o preço era de R$ 1,2294, também segundo o CEPEA.
Em paralelo à evolução da produção agrícola, a companhia segue de olho em oportunidades imobiliárias. Recentemente, a companhia vendeu 921 hectares de uma propriedade no Paraguai, a Fazenda Morotí, por US$ 1,5 milhão.
Agora, Lopez diz que o mercado está "muito líquido" especialmente nos estados de Maranhão, Piauí e Bahia, onde a BrasilAgro é dona de seis propriedades (quatro na Bahia, uma no Maranhão e outra no Piauí).
"Temos recebido propostas para compras não expressivas de áreas entre 2 mil e 2,5 mil hectares de nossas fazendas", diz o CFO da BrasilAgro. "Parte da nossa estratégia é vender aos nossos vizinhos que estão bem capitalizados."
O mesmo movimento não acontece, no entanto, em Mato Grosso, relata o executivo, onde a BrasilAgro é proprietária de duas fazendas.
"O que vimos em Mato Grosso é o contrário: devoluções de muitas áreas de arrendamento. Temos recebido propostas de produtores que querem continuar o arrendamento com outras empresas e empresas que, talvez, tenham melhor reputação do ponto de vista de crédito."
Resumo
- BrasilAgro teve prejuízo de R$ 14,3 milhões no terceiro trimestre do ano-safra
- Companhia teve de segurar vendas de soja em função de fretes mais caros
- Nos nove primeiros meses do ano, empresa acumula prejuízo de R$ 76 milhões