A palavra “cliente” não consta do vocabulário corporativo de Vitor Moraes, superintendente de Agronegócio do Sicredi – e possivelmente da grande maioria de seus colegas de empresa.

Em cerca de meia hora de conversa com o AgFeed nesta terça-feira, 28 de abril, no estande da na instituição financeira cooperativa na Agrishow 2026, ele cuidadosamente tratou como associados as mais de 10 milhões de pessoas físicas e jurídicas que mantêm operações nas mais de 3 mil agências da marca ao longo do País.

Trata-se de um detalhe que, em tempos de crédito escasso e inadimplência em alta, parece estar grande diferença, pelo menos na carteira agro do Sicredi.

Tendo os “clientes” literalmente como sócios do negócio – característica que marca as cooperativas, seja as agrícolas como as de crédito –, a instituição fechou o balanço de nove meses do plano safra 2025/2026 com uma elevação de 16,5 no volume de recursos desembolsados no setor.

O número consolidado para o período indica que a carteira setorial atingiu R$ 52,8 bilhões, o que, de acordo com o Sicredi, o mantém na liderança entre os financiadores privados nesse segmento.

“O que nos diferencia é que o associado decide junto com a gente”, aponta Moraes ao explicar como essa relação, bem diferente da dos clientes dos bancos tradicionais, permite trazer benefícios para ambos os lados.

A possibilidade de estar mais próximo dos produtores “associados”, por exemplo, é uma das explicações para um dos trunfos do Sicredi para atingir esse nível de crescimento em um momento de juros altos e aversão ao risco, que restringiu, em parte da concorrência, a oferta de capital para custeio e investimentos.

Entre as linhas de crédito em moeda estrangeira – mais particularmente em dólar – o volume de operações subiu cerca de 70% em relação ao mesmo período do ano, chegando a R$ 4 bilhões.

“O produtor comprou a ideia”, diz Moraes, lembrando que a alternativa é adequada apenas aos agricultores e pecuaristas que têm receitas também em moeda estrangeira, fruto sobretudo da venda associada à exportação.

O executivo já havia previsto, no lançamento dos recursos para o plano safra que se aproxima do final, um avanço de cerca de 10% na carteira agro como um todo, com destaque para o potencial das linhas dolarizadas. E errou – nos dois casos, para menos.

“Essas linhas, de fato, contribuíram para esse aumento positivo, acima da nossa expectativa em relação ao guidance que a gente tinha trazido lá no início da Safra”, aponta.

O sucesso está diretamente ligado à capacidade das mais de 100 cooperativas de crédito que formam o Sicredi de individualizarem o atendimento aos seus associados, desenhando operações mais adequadas a cada um deles ao invés de oferecer produtos de prateleira.

Moraes diz que, “cada vez mais, a gente observa que não existe outro caminho que não seja um relacionamento consultivo”.

No caso do crédito dolarizado, por exemplo, antes de falar das vantagens das taxas – que ficam abaixo dos 10%, além da variação cambial, contra 15% da Selic ou mais de 20% da taxa média de uma CPR, por exemplo –, os representantes da instituição verificam se o produtor está realmente apto a se habiitar a elas. E se essa é mesmo a opção mais adequada para aquele caso.

O trabalho consultivo analisa, assim, os instrumentos para avaliar os potenciais riscos da variação cambial, cuidando para que o vencimento da operação coincida com a expectativa de entrada de receitas para o produtor.

“Se tiver descasamento, a variação cambial ou pode ajudar muito ou pode prejudicar bastante o tomador de crédito”, explica.

Alternativas mais baratas

A exigência de que o associado apresente documentos que comprovem as receitas em dólar limitam, evidentemente, o alcance dessa linha, que, portanto, avança mais em culturas e regiões com maior vocação exportadora.

Não tem limitado, entretanto, a estratégia do Sicredi de ampliar sua presença no crédito rural através de instrumentos alternativos, buscando outras fontes de recursos para oferecer financiamentos com custos mais competitivos aos associados.

Nesse campo, Moares destaca, por exemplo, o desempenho da instituição na liberação de créditos via convênios com recursos subsidiados por programas públicos.

Rapidamente ele lista uma série deles. No programa Pró-Trator, do governo de São Paulo, é responsável por cerca de 80% dos desembolsos.

No Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO), operou em torno de R$ 1 bilhão. No Funcafé, voltado para oprações de custeio e investimento na cafeicultura, aumentou em 100% o volume transacionado, superando os R$ 500 milhões.

“A gente foi a instituição financeira que mais liberou no agronegócio junto ao BNDES”, acrescenta. De um total de R$ 12 bilhões do banco estatal repassados pelo Sicredi, R$ 9 bilhões foram para o agro.

“Estamos sempre buscando uma alternativa mais barata para o produtor frente a outras linhas”, afirma Moraes.

Outro destaque nesse sentido veio da administradora de consórcio do Sicredi, hoje posicionada como uma das dez maiores do Brasil. Com uma carteira total que já supera R$ 61,8 bilhões, ela registrou mais de R$ 3 bilhões em novas vendas no segmento agro, um crescimento de 23% em relação ao período anterior.

Inadimplência e renegociação

O “cliente” sócio do negócio também te se mostrado um bom pagador. Segundo o superintendente de Agro do Sicredi os nossos níveis de inadimplência da instituição no segmento têm se mantido em patamares baixos, sobretudo quando comparados com a média do mercado.

“Não significa dizer que a gente não está atento a isso”, afirma Moraes. “O cenário do agronegócio é, de fato, desafiador em relação a isso. Mas, sem dúvida, o nosso modelo contribui muito para termos níveis menores de inadimplência”.

Para o executivo, pelo fato de receber, ao final de cada exercício, parte do resultado líquido da cooperativa, o associado se sente parte dela e, com isso, as conversas em busca de soluções para buscar saídas para o produtor em dificuldades financeiras torna-se “mais natural”.

O Sicredi, diz, tem atuado fortemente na renegociação de dívidas dos assiciados, seja utilizando ferramentas próprias, seja buscando, como no caso de crédito, recorrendo a programas públicos voltados para esse fim.

Um exemplo disso, ele conta, são os recursos criados a partir da Medida Previsória 1314, do final do ano passado, através da qual o governo, em que o Ministério da Fazenda e outros órgãos do governo federal disponibilizaram R$ 12 bilhões para renegociação de dívidas.

A partir desse programa, como um todo, Moraes pontua que Sicredi fez R$ 6 bilhões em renegociação de dívidas. E desse total, R$ 2 bilhões foram com as linhas via BNDES, a taxas controladas. “Foi um desempenho muito bom”, avalia.

“Nossa capilaridade nos ajuda a entender para qual associado determinado remédio é o mais importante, se alongar uma dívida ou equilibrar melhor o fluxo de caixa vai fazer com que ele ganhe um respiro e consiga produzir”, diz.

“No sistema, cada cooperativa tem o seu perfil específico. Isso acaba ajudando a ter esse conhecimento”.

De acordo com Moraes, a diversidade de perfis e públicos transforma as cooperativas integrantes do Sicredi em uma espécie de laboratório de soluções, que são compartilhadas de forma fluida entre elas dentro da rede da instituição.

O superintendente aponta, que, apesar disso, o Sicredi aumentou o rigor na análise de crédito, tornando-se mais criterioso e ampliando o número de camadas na avaliação dos riscos de cada produtor, agregando variáveis para entender melhor a sua estrutura de custo e a capacidade de pagamento.

“A gente vai agregando novas informações à medida que vemos que elas são relevantes para a análise de crédito”, diz.

Resumo

  • Sicredi alcança R$ 52,8 bilhões no agro, com crescimento de 16,5% em nove meses da safra 2025/2026
  • Linhas em dólar crescem 70% e impulsionam expansão, com foco em produtores exportadores
  • Modelo cooperativo reduz inadimplência e fortalece renegociação e crédito personalizado