Seja no interior de Mato Grosso, no coração do Texas ou sob o rigor do inverno no Leste Europeu, produtores rurais enfrentam a mesma dúvida: como elevar a produtividade e ganhar eficiência se o clima vêm oscilando cada vez mais e, agora, também há a possibilidade de que faltem insumos básicos com mais um conflito armado (dessa vez no Oriente Médio)?
A resposta não é simples e, há anos, também vem pressionando as grandes fabricantes de defensivos agrícolas a reverem sua atuação. Mas é possível arriscar que está vinculada à tecnologia, a julgar pelo comportamento das grandes companhias do setor nos últimos anos.
As empresas defendem que, hoje, não basta apenas comercializar o produto final, mas também agregar ferramentas digitais capazes de apoiar o agricultor na tomada de decisão, na tentativa de mitigar a falta de previsibilidade e também no aumento da eficiência no campo.
Nesse movimento, gigantes como as alemãs Bayer e Basf e a norte-americana Corteva passaram a investir, nos últimos anos, em plataformas como FieldView, xarvio e Granular, respectivamente.
Na Syngenta, companhia do grupo ChemChina, o movimento também foi semelhante. Sustentada por investimentos anuais na faixa de US$ 2 bilhões em pesquisa e desenvolvimento, a estratégia adotada no fim da década passada foi de comprar agtechs, integrá-las à empresa e utilizar o seu know-how para a construção de soluções digitais.
Assim, a empresa comprou a brasileira Strider, em 2018, e a Cropio, com forte presença no Leste Europeu, em 2019, e, pari passu, acelerou o desenvolvimento de uma plataforma, a Cropwise, que foi lançada em 2020 e que chegou ao Brasil em 2023.
"Compramos plataformas que eram muito relevantes em seus mercados. Nosso desafio foi entender como que a gente transformava essas plataformas em uma única e como é que a gente faz desafios regionais resolverem um problema global", avalia André Piza, líder global de digital agtech da Syngenta, que conversou com jornalistas nesta terça-feira, dia 14 de abril.
"Temos fazendas grandes usando a plataforma e, ao mesmo tempo, pequenos produtores, pequenos mesmo, na Ásia, também muito ativos em downloads."
Esse esforço de integração está diretamente ligado à ambição da companhia que, até 2030, pretende alcançar a marca de 100 milhões de hectares monitorados em todo o mundo por sua plataforma.
Até agora, a Syngenta soma 76 milhões de hectares, dos quais 14,8 milhões estão no Brasil - ou seja, quase 20% do total. A SLC Agrícola, maior operadora de áreas produtivas do Brasil, é um dos principais clientes da companhia na área digital - que, inclusive, funciona numa estrutura apartada da companhia de insumos, ainda que ligada ao Grupo Syngenta.
Para que sua plataforma alcance mais produtores no País, a empresa apresentou a jornalistas nesta terça-feira uma nova solução a ser oferecida dentro da plataforma Cropwise ao público brasileiro.
Trata-se da ferramenta digital Cropwise Operations, que auxilia os produtores a ter uma dimensão mais exata da gestão agrícola de suas propriedades. A solução se soma a outras cinco ferramentas que a Syngenta já oferecia aos agricultores locais desde que trouxe o Cropwise para o Brasil, na Agrishow de 2023.
Globalmente, a solução vem sendo levada a produtores de diferentes partes do mundo há dez anos. Na Ucrânia, por exemplo, é utilizada pelo governo local para estimativas de tamanho de produção agrícola, semelhante às projeções feitas no Brasil pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Ao todo, a ferramenta Cropwise Operations soma, segundo a companhia, 50 milhões de hectares monitorados, 30 mil máquinas conectadas diariamente e 40 mil usuários ativos.
Por aqui, a Syngenta está rodando vários pilotos na safra atual para terminar de validar a ferramenta e a expectativa da companhia é de disponibilizá-la para uma base maior de clientes já a partir da próxima temporada, com introdução primeiro em Mato Grosso e depois seguindo para outras regiões.
Na prática, essa nova ferramenta digital da companhia funciona como uma camada que integra planejamento, execução e análise. A solução permite identificar diferenças de desempenho entre talhões, mapear desperdícios invisíveis e entender variações de eficiência de insumos, fatores que, somados, impactam diretamente o custo operacional ao longo da safra.
Bruno Muller, head de serviços de agricultura digital da companhia, lembrou que, em muitas propriedades, ainda é comum que esses dados estejam desagregados.
"Hoje, o produtor tem tudo separado. Às vezes tem ERP, às vezes controla o estoque numa planilha, o monitoramento faz num papel, a análise de solo vem em PDF, maquinário é outro papel que ele entrega pro operador", diz o executivo. "Agora, da lavoura à colheita, o produtor consegue fazer toda a gestão numa só plataforma."
Outro diferencial, segundo Muller, está na capacidade de integrar dados de telemetria independentemente da marca das máquinas. Isso permite centralizar a gestão operacional dos equipamentos em um único ambiente, mesmo em fazendas com frotas heterogêneas.
A solução é capaz de trabalhar de forma offline, ainda que algumas funcionalidades - com a de telemetria - tenham desafios de conectividade a serem superados. No exterior, em países como a Ucrânia, a rede Starlink, da SpaceX, já é utilizada para conectar as máquinas à solução. Já no Brasil, os executivos da Syngenta ainda avaliam a melhor forma de promover conectividade à ferramenta.
A ferramenta também possui inteligência artificial embarcada. De acordo com André Piza, líder global de digital agtech da Syngenta, a estratégia da companhia em inteligência artificial se sustenta em dois pilares complementares.
Internamente, a empresa adota uma abordagem agressiva, desenvolvendo e aplicando soluções de IA em nível comparável ou até superior ao de outros setores mais avançados, algo ainda raro no agronegócio.
Externamente, porém, a adoção tem acontecido mais gradual, já que a prioridade tem sido garantir a precisão das recomendações oferecidas aos clientes, como agricultores e demais atores da cadeia.
Essa cautela se apoia em mais de duas décadas de pesquisa em agricultura de precisão e soluções digitais, cujo conhecimento já foi convertido em algoritmos robustos, que, na prática, também representam aplicações consolidadas de inteligência artificial.
"Temos focado na precisão das nossas recomendações de IA. São mais de 20 anos de pesquisa dentro da agricultura de precisão e agr digital, que já estão modeladas em algoritmos Isso também é IA", resumiu Piza.
O executivo relatou ainda que, desde o ano passado, a Syngenta tem aprofundado a adoção de inteligência artificial generativa em suas plataformas, ainda que de forma controlada.
"Temos mesclado funções novas com recomendações de algoritmos e machine learning para questões específicas de solo e histórico de doenças, por exemplo", diz. "Mas estamos tendo muito cuidado para trazer a melhor informação para o agricultor."
A solução Operations é comercializada ao produtor em conjunto com a plataforma Cropwise. Assim, os agricultores podem escolher quais ferramentas vão querer adotar em suas fazendas.
Em termos de público, o foco está em produtores de grãos e cana-de-açúcar, além de algodão, café, citros, florestas e tabaco. A tendência, em função dos custos envolvidos, é que a solução seja adotada por produtores com áreas maiores.
"O preço varia de acordo com a área do produtor, cobramos por hectares. Produtores com área maior conseguem diluir custo fixo por causa do tamanho de suas propriedades", disse Bruno Muller.
Resumo
- A Syngenta está trazendo ao mercado brasileiro solução que ajuda produtores a ter visão completa de gestão das fazendas
- Ferramenta permite verificar diferença de desempenho entre talhões, mapear desperdícios invisíveis e entender variações de eficiência na aplicação de insumos
- Expectativa da companhia é de disponibilizá-la para base maior de clientes do Brasil já a partir da próxima safra