Até ao início da década de 1970 era comum arar o solo para plantar grãos e o Rio Grande do Sul era o destaque nacional do cultivo da soja.

Nesta época surgiu a fabricante de equipamentos agrícolas Semeato, em Passo Fundo (RS), que vendia principalmente a chamada “grade” que era puxada pelos tratores para preparar o solo.

Com o passar do tempo, porém, os produtores e os especialistas concluíram que “revolver” o solo era prejudicial para o meio ambiente – causava muita erosão, por exemplo – e afetava também a produtividade.

Assim surgiu o plantio direto, técnica que não remexe o solo e deixa a palhada como cobertura, trazendo uma série de benefícios, o que hoje é amplamente adotado no Brasil e um dos pilares da agricultura regenerativa.

“A Semeato é conhecida no mundo inteiro como a pioneira do plantio direto e da agricultura de conservação”, conta com orgulho a atual vice-presidente da empresa, Carolina, filha do fundador Roberto Rossato, em entrevista ao AgFeed.

A marca de plantadeiras está completando 61 anos de existência “e não fabrica equipamentos que não forem para plantio direto”, reforçou Carolina.

Ela diz que a aposta nesta modalidade de plantio, lá no início, foi liderada por um projeto da Semeato, que se chamava Meta, em conjunto com empresas como Monsanto e Adubos Trevo (ambas já foram vendidas e hoje são Bayer e Yara, respectivamente).

O foco atual são plantadeiras e semeadoras de “grãos finos e graúdos”, para pequenos, médios e grandes produtores.

“Toda a tecnologia é desenvolvida dentro de casa pelos nossos engenheiros. É uma empresa exportadora de tecnologia, o que nos dá muito orgulho, porque a gente é uma empresa genuinamente brasileira, que compete com fabricantes europeus de igual para igual”, afirmou Rossato.

A Semeato é uma empresa familiar e adota um modelo “vertical”, segundo a executiva, já que possui sua própria fundição e usinagem, por exemplo.

Apesar de vender para todo o Brasil e já ter exportado para mais de 60 países, a maior parte do faturamento da empresa – que não é divulgado – ainda vem dos estados da região Sul.

Após a pandemia, o cenário desafiador foi se alastrando no agro pelo País e, no Rio Grande do Sul, agravado por secas seguidas.

Na Semeato, que já carregava dívidas do passado, a situação levou a um pedido de recuperação judicial em 2022, que foi homologado em agosto de 2023. Carolina Rossato preferiu não falar sobre o tema com o AgFeed, já que a RJ ainda não foi encerrada.

Quando homologado o pedido, a empresa tinha mais de R$ 1 bilhão em dívidas. Já iniciou pagamentos a credores, mas o processo segue marcado por renegociações relevantes, como por exemplo um acordo de cerca de R$ 700 milhões com a União em 2026.

Um relatório de janeiro deste ano, ao qual o AgFeed teve acesso, aponta para dívidas totais próximas de R$ 1,5 bilhão e um corte drástico no número de funcionários.

Quando comunicou o acordo, o governo federal informou que se tratava de uma dívida antes classificada como “irrecuperável”, de mais de 20 anos.

Estratégias para voltar a crescer

Assim como o mercado de máquinas agrícolas em geral, a Semeato registrou recuo na receita em 2025.

“O mercado faz cinco anos que sofre uma retração. Nós entendemos que essa demanda está represada. O grande motivo é o preço do grão e também uma taxa de juro muito alta”, afirmou Carolina.

Ela disse ao AgFeed que chegou ver uma recuperação no final do ano passado, por isso previam até 4% de crescimento em 2026, mas agora já tem dúvidas de qual será a realidade do ano no setor.

“Em janeiro essa previsão já não aconteceu. A cada semana nós enfrentamos como empresários e como indústria, uma novidade. Agora a gente enfrenta esse novo fato que é a guerra”, lembrou.

Mas, se de um lado aumentam alguns custos, como o fertilizante, ela diz que, eventualmente, pode haver impacto no preço das commodities agrícolas. “Está muito difícil fazer uma previsão”.

Como diferencial, a Semeato pretende seguir apostando no plantio direto, nas plantas de cobertura, que contribuem para saúde do solo e produtividade.

Além disso, Carolina Rossato afirma que “houve uma reestruturação total da empresa”, mas não dá detalhes. Segundo ela, a empresa ainda teria 600 colaboradores (menos do que tinha a Semeato anos atrás).

A conversa com o AgFeed foi durante a Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque (RS).

“Aqui nessa feira estamos com quatro lançamentos novos. Então a gente acredita muito na inovação. E também a gente vem com preços extremamente competitivos aqui, preços que a gente nunca conseguiu produzir, a gente está entregando aqui pra tentar fazer negócio mesmo. Então são várias frentes”, explicou.

Há planos também para expandir a presença em outros estados e seguir avançando na exportação, hoje responde por cerca de 15% da receita.

“Nós temos mais de 11 mil máquinas exportadas para todos os continentes. Um grande cliente nosso é a Ucrânia, mas nós perdemos o mercado do leste europeu com a guerra da Rússia”, revelou.

Rossato espera retomar vendas para a Venezuela, que já teria sido grande compradora de máquinas agrícolas brasileiras, além de seguir acessando Paraguai e Argentina, que são importantes mercados. Há também vendas para Uruguai, Chile e Bolívia.

Como estratégia de diferenciação em relação aos concorrentes multinacionais, ela diz que tem duas palavras em mente. “Primeiro, a resiliência. Uma empresa brasileira tem que ser resiliente e uma empresa gaúcha tem que ser resiliente duas vezes”. A segunda diretriz, diz ela, é agilidade como diferencial.

“É agilidade em produzir, em criar, inovar, em entregar no campo e tudo isso testado. Então, a agilidade de uma empresa de um porte como o nosso é muito maior”.

Entre os lançamentos apresentados na Expodireto a executiva destaca um “rodado automático”, em que o agricultor não sai da cabine do trator e muda de modo de trabalho para modo de transporte “em um minuto e meio”.  Foi feita uma versão de preço acessível para pequenos produtores.

Outro destaque é uma plantadeira com um motor elétrico que tem tecnologia alemã.

Mesmo sem registrar alta nas vendas, Carolina diz que sempre vale a pena levar essas inovações em eventos como a Expodireto em função da vitrine e da proximidade com a fábrica – é possível levar clientes para conhecer como a máquina é manufaturada.

Em relação aos negócios com os agricultores gaúchos, a empresária defende novas renegociações das dívidas (do produtor) aconteçam, afinal já faltam dois meses para o Plano Safra.

“O momento tem que ser de trabalho, da nossa bancada em Brasília, porque independente do governo que esteja, o Plano Safra é homologado por 12 meses”, acrescentou.

Resumo

  • Pioneira no plantio direto, Semeato reforça foco em inovação e tecnologia para recuperar crescimento no agro
  • Empresa enfrenta recuperação judicial e dívida elevada, em meio à crise no mercado de máquinas agrícolas
  • Estratégia inclui novos lançamentos, expansão internacional e preços competitivos para retomar vendas