Campinas (SP) - O produtor até voltou a olhar com mais carinho para novos investimentos, mas ainda não voltou a comprar máquinas como antes - e a John Deere parece ter ajustado sua estratégia a essa nova realidade.
Assim como no ano passado, a gigante do setor fez um evento proprietário em Campinas, no interior do Estado de São Paulo, para concentrar seus lançamentos do ano que se espalham pelas feiras agrícolas da temporada - e antes da principal delas, a Agrishow.
Chamado de “Casa John Deere”, o evento faz jus à magnitude da empresa: 40 mil metros quadrados de área, 21,5 quilômetros de cabeamento elétrico, 26 geradores com capacidade de abastecer uma cidade de 60 mil habitantes, ou um festival como o Lollapalooza, que aconteceu no último final de semana na capital paulista.
O “DeerePalooza” ocorre, também assim como em 2025, em meio a um mercado ainda travado por juros altos e crédito mais restrito. Diante disso, a estratégia da fabricante americana ilustra a tentativa de se aproximar do cliente para vender algo que, hoje, parece mais acessível e mais urgente: tecnologia.
A escolha de fazer um evento próprio, fora do ambiente competitivo da Agrishow, não é casual. “Aqui conseguimos ouvir os clientes de forma mais efetiva”, disse Rodrigo Bonato, recém empossado vice-presidente de Vendas e Marketing da John Deere para a América Latina.
A proposta é simples: concentrar clientes e concessionários em um espaço dedicado, com foco total na marca e nas soluções oferecidas, longe das distrações e ativações de uma grande feira, que também conta com grandes estandes dos principais concorrentes.
“Mais do que uma vitrine de lançamentos, estamos aqui para entender necessidades do mercado e, com isso, entender como nossas soluções geram resultado para quem produz”, completou Cristiano Correia, vice-presidente de Sistemas de Produção da John Deere para a América Latina.
O pano de fundo é um setor que ainda não se recuperou totalmente. Dados da Abimaq mostram que, apesar da alta de 7,4% no faturamento em 2025 após dois anos de queda, o início de 2026 voltou a pressionar os números: um recuo de 15,6% em janeiro.Para o ano, a expectativa é de nova retração, de cerca de 8%.
Juros elevados, maior rigor na concessão de crédito, inadimplência crescente e preços de commodities menos favoráveis ajudam a explicar o freio. E isso aparece diretamente no comportamento do produtor.
Rodrigo Bonato citou que esteve presente em três feiras agrícolas nos últimos 40 dias: Show Rural Coopavel (Paraná), Expodireto (Rio Grande do Sul) e Expoagro (Argentina).
O que ele percebeu? Um produtor mais animado com a produtividade esperada na lavoura para a safra 2025/2026, que ainda está em andamento.
De acordo com o executivo, os números da Expodireto ficaram aquém do esperado, mas ilustram bem a realidade do mercado. “São números que traduzem a situação do estado junto desse otimismo pelo que vem pela frente”.
“O interessante é que os produtores estão sim vindo até nós e buscando tecnologia. Não necessariamente comprando novos equipamentos, mas querendo atualizações ou um pacote de conectividade do JD Link para que ele conecte a frota e tome decisões mais rápidas”, revelou.
A própria John Deere tem se adaptado a esse cenário focado em extrair mais eficiência das mesmas máquinas. Na Casa John Deere, o portfólio foi organizado menos como uma “vitrine de lançamentos”, nas palavras do próprio Cristiano Correia, e mais como um conjunto de soluções ao longo de todo o ciclo produtivo.
Isso inclui desde tratores e plantadeiras até pulverizadores e plataformas de colheita, com foco em produtividade e redução de perdas.
Um exemplo citado foi uma nova plantadeira transportável, que reduz o tempo de preparação para deslocamento de até dois dias para cerca de duas horas, um ganho considerado relevante pela empresa em épocas de janelas de plantio cada vez mais curtas.
Na conectividade, a empresa apresentou uma evolução no JD Link Boost, o sistema via satélite que conecta a equipamentos coletando dados das máquinas em tempo real e as transmite para a nuvem. Agora, a antena do produto é mais compacta e a instalação é simplificada.
Esse mesmo racional aparece no braço financeiro da companhia. A inadimplência mais elevada no setor e o custo do crédito têm sido apontados como entraves relevantes para o mercado.
“A inadimplência é um fator que preocupa todos os bancos e nós sofremos como todos os outros. Estamos com o indicador em linha com as outras instituições financeiras”, afirmou Alex Ferreira, CEO do Banco John Deere no Brasil.
Segundo ele, a parceria com o Bradesco, firmada há cerca de um ano, dobrou a capacidade de financiamento da instituição, permitindo ampliar a oferta de crédito mesmo em um ambiente mais restritivo.
Na Casa John Deere, isso se traduz em condições agressivas para destravar demanda. Há linhas do Plano Safra com taxas reduzidas, como Pronaf a 2,62% ao ano e Moderfrota a 11,72%, além de financiamentos em dólar na faixa de 6,5% ao ano e opções com taxa zero para peças, serviços e upgrades tecnológicos.
Ao mesmo tempo, a empresa segue ajustando sua operação ao ritmo do mercado. No início do ano, anunciou férias coletivas e suspensão temporária de contratos na fábrica de Horizontina (RS), reduzindo a produção de colheitadeiras em cerca de 30%.
A medida, segundo Bonato, faz parte da gestão normal do ciclo e busca evitar estoques elevados na rede de concessionários.
“Com juros nesse nível, não podemos ter a rede de concessionários estocada. Uma rede mais leve reduz custo operacional e ajuda no preço final para o produtor”, disse.
No campo tecnológico, a companhia também aposta em agendas de mais longo prazo, como o uso de biocombustíveis. No evento, a empresa apresentou um trator movido a etanol.
A tecnologia não é uma novidade, mas pela primeira vez a apresentação ao público vai além de um motor e uma ideia, e já funciona dentro de uma máquina operante.
O produto não deve chegar ao mercado neste ano de forma comercial, mas segundo Cristiano Correia, a empresa está “finalizando as milhares de horas de testes”. “Estamos testando completamente o consumo, adaptação da máquina, capacitação dos profissionais, treinamento dos clientes. É toda a cadeia”, afirmou.
*O jornalista viajou a convite da John Deere
Resumo
- Evento proprietário em Campinas concentra lançamentos antes da Agrishow e reúne clientes e concessionários em ambiente exclusivo, permitindo escuta direta e apresentação de soluções sem a concorrência das grandes feiras
- Avanços em conectividade (JD Link), eficiência operacional (nova plantadeira) e testes com trator a etanol refletem aposta em tecnologia diante de um produtor mais cauteloso nos investimentos
- Com mercado de máquinas ainda pressionado, empresa ajusta produção, evita estoques elevados e aposta em crédito via Banco John Deere, que tem Bradesco como sócio, mesmo com inadimplência assolando setor