Em 2025, a MBRF (nascida da fusão da BRF com a Marfrig) vendeu como nunca, mas teve sua rentabilidade prejudicada, principalmente com a interrupção do mercado chinês devido à gripe aviária e viu seu lucro cair 77%.
"Foi um ano de receita líquida e volume de vendas recorde. São resultados históricos e terminamos um ano desafiador com muita satisfação", resumiu Miguel Gularte, CEO da empresa, em coletiva com jornalistas para apresentar os resultados do ano.
Trazendo o ano para os números, a BRF registrou um faturamento líquido de R$ 164 bilhões, crescimento de 12% em relação a 2024. O volume total de vendas avançou 4%, alcançando 8,2 milhões de toneladas de alimentos. O lucro líquido veio em R$ 358 milhões, queda abrupta frente aos R$ 1,6 bilhão de um ano antes.
Apesar do avanço da receita, os indicadores operacionais mostraram recuo. O lucro operacional medido pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização, depreciação) ajustado somou R$ 13,1 bilhões, uma queda de 3,2%, enquanto a margem Ebitda recuou para 8% (ante 9,3% no ano passado), evidenciando compressão de rentabilidade mesmo com maior escala.
Para além da gripe aviária e seus efeitos, José Ignacio Scoseria, vice-presidente de finanças e RI da empresa, citou que o momento do ciclo do gado nos EUA fez a empresa registrar uma queda no lucro operacional.
Na operação de bovinos na América do Norte, o impacto foi mais agudo. O Ebitda do segmento recuou 54%, com margem de apenas 1%, refletindo o menor nível de oferta de gado em décadas nos Estados Unidos. O cenário pressionou custos e limitou a capacidade de captura de margens, mesmo diante de preços mais elevados da proteína bovina.
Houve ainda, segundo Scoseria, uma pressão no resultado financeiro pelo aumento da dívida e pelos dividendos distribuídos no processo de fusão, que, junto de uma Selic elevada, aumentou o custo da dívida. "Existe um aspecto operacional com queda nas margens na América do Norte e na BRF, mas também o custo financeiro", disse.
A dívida líquida da MBRF encerrou 2025 em R$ 43,44 bilhões, um avanço de 5,1% frente ao terceiro trimestre e de 11,9% em um ano. A alavancagem saiu de 2,47 vezes para 3,3 vezes de dezembro de 2024 para dezembro de 2025.
O diretor citou que, da receita líquida, 47% veio da operação da America do Norte, 39% da BRF e 14% da operação de bovinos na América do Sul.
Apesar dessa distribuição na receita, a operação da BRF, por exemplo, responde por cerca de 77% do Ebitda consolidado, enquanto a América do Norte teve participação marginal, com apenas 4%. O dado reforça que, embora "multiproteína", a companhia ainda depende fortemente do desempenho de aves e alimentos processados para sustentar sua rentabilidade.
Na operação "Beef North America", a receita líquida anual foi de US$ 14 bilhões (algo próximo a R$ 73 bilhões se considerada a cotação atual), um crescimento de 11,8% em relação ao ano anterior.
O avanço da receita na região foi puxado majoritariamente por preços, que subiram 14,4% no período, compensando a queda de volumes (1,93 milhão de toneladas, queda de 2,3% em um ano) diante da menor disponibilidade de gado.
"O desempenho do segmento reflete a dinâmica do mercado no período, com menor volume em função da redução da oferta de gado e demanda resiliente pela proteína bovina, sustentando a evolução da receita", cita a companhia no balanço.
Na operação Beef América do Sul, a receita foi de R$ 22,9 bilhões, um crescimento de 20% em um ano. Os volumes somaram 1,08 milhão de toneladas, avanço de 14,6% no período, refletindo a expansão de capacidade das operações na região.
A BRF faturou R$ 65 bilhões em 2025, 5,8% superior ao ano anterior. Do total, R$ 35,7 bilhões vieram do mercado interno (alta de 14,1%) e R$ 29,2 bilhões (queda de 2,5%) do mercado externo.
Com o principal destino para a carne de frango brasileira paralisado durante alguns meses, a BRF sentiu e viu o custo dos produtos vendidos subir 6,8%, para R$ 48,6 bilhões. A margem bruta veio ligeiramente menor em um ano, em 25,2%.
A empresa ainda cita um avanço no custo de consumo do milho de 16% no ano e um avanço no custo de produção na operação da Turquia como fatores de pressão.
Apesar disso, Manoel Martins, vice-presidente de mercado Brasil e marketing da MBRF, destacou que a empresa teve um "bom natal" em 2025. "Fomos bem nos negócios de peru e ave e evoluímos em market share. Registramos um volume recorde na campanha de kits de natal corporativos, para além do varejo", disse.
A empresa cita, no balanço, que as marcas Sadia e Perdigão somaram 59,9% de participação de mercado no último trimestre.
Sem impactos com o conflito no Oriente Médio
Miguel Gularte ainda frisou que a MBRF não teve nenhum impacto em sua operação no Oriente Médio, nem logístico e nem de distribuição.
Ele explicou que, em 2024, a BRF moveu seus estoques de distribuição para lá, na intenção de driblar novos casos - se houvesse - da doença de Newcastle, que atingiu o Sul do país com um caso em uma granja comercial.
“Caso existisse um novo episódio,ou até mesmo de gripe aviária, que aconteceu em 2025, estariamos com estoque disponível. E agora com o caso da guerra entre EUA e Irã, já estamos com estoque posicionado e sem problemas, manejando a situação com tranquilidade”, disse o CEO.
Leonardo Dall'Orto, vice-presidente de mercado internacional na empresa, pontuou que a MBRF tem encontrado rotas alternativas, como portos e fretes terrestres para driblar possíveis pontos bloqueados com o conflito.
Gularte relembrou que há um aumento do custo do frete, classificado como “taxa de guerra”, mas que os compradores absorveram o preço sem problemas. “Eles fazem isso pois sabem que é uma taxa real e não especulativa”, completou.
Resumo
- A MBRF teve receita e volume recordes em 2025, mas viu o lucro despencar 77%, pressionado por margens menores e piora no resultado financeiro
- A paralisação das exportações para a China por gripe aviária e o ciclo desfavorável do gado nos EUA derrubaram a rentabilidade, especialmente na operação de bovinos na América do Norte.
- Custos mais altos (milho, produção e dívida) e aumento da alavancagem para 3,3x reforçaram a compressão de margens, evidenciando que o crescimento não se traduziu em geração de lucro