Os avisos vinha sendo dados ao longo das últimas semanas nos comunicados oficiais da companhia e nas declarações de executivos ligados a ela. Até que o dia chegou: na noite da terça-feira, 10 de março, a Raízen, maior empresa brasileira do setor sucroenergético, definiu que a rota escolhida para renegociar dívidas que superam os R$ 65 bilhões com credores financeiros é a da recuperação extrajudicial.

Com o apoio de credores que representam 40% do total a ser renegociado, a companhia controlada por Shell e Cosan protocolou na justiça paulista o pedido de RE, abrindo a contagem regressiva de 90 dias para que obtenha quórum mínimo de mais de 50% para a homologação do seu plano de recuperação.

Os detalhes deste plano devem começar a ser conhecidos nesta quarta-feira. A partir dele é que se conhecerá prazos e condições de pagamento das dívidas e o tamanho do hair cut que a empresa pretende aplicar aos credores.

Outro ponto importante que a empresa deve esclarecer é se será feito o aporte de R$ 4 bilhões de Shell (R$ 3,5 bilhões) e Aguassanta Investimentos (R$ 500 milhões), do empresário Rubens Ometto, controlador da Cosan, que constava como ua das medidas previstas para o início do processo de saneamento financeiro da companhia.

A princípio, débitos com fornecedores e funcionários não serão incluídos no processo. A decisão visa garantir a operação normal da Raízen.

Entre os credores financeiros, estes sim afetados pela RE, estão pelo menos 15 bancos nacionais e internacionais e investidores que adquiriram títulos da dívida da empresa no Brasil e no exterior, os chamados bondholders.

Esse contingente representa cerca de 80% da dívida bruta total da empresa, que chega a R$ 73 bilhões, segundo o balanço de 2025, publicado em 13 de fevereiro passado.

Ao divulgar o balanço, a Raízen já havia dado a primeira pista de que uma solução de maior impacto, como uma recuperação judicial ou extrajudicial, poderia ser adotada para reestruturar as dívidas da companhia.

No documento, a direção da empresa admitia ter “dúvida significativa” sobre sua capacidade de continuidade operacional.

Dias depois, em um fato relevante publicado em 4 de março, o texto tratava explicitamente, pela primeira vez, da possibilidade de buscar proteção legal para forçar uma renegociação das suas dívidas.

“Nesse contexto, a companhia pretende assegurar um ambiente protegido e ordenado que permita a condução de discussões com seus credores financeiros e a busca de uma solução consensual, a ser eventualmente implementada por meio de uma Recuperação Extrajudicial, se necessária”, afirmava.

Uma semana depois, na manhã desta terça-feira, foi a vez do CEO da Cosan, Marcelo Martins, deixar claro, em uma conferência com analistas, que uma solução definitiva para o caso da sua controlada se daria em um período breve e que iria além do aporte bilionário, que ele via como insuficiente.

A busca da recuperação extrajudicial, assim, abre um novo capítulo na história da Raízen, que no período de apenas cinco anos saiu de um dos maiores IPOs da bolsa brasileira para a maior recuperação extrajudicial da história do Pais.

Resumo

  • Com apoio dos detentores de 40% de suas dívidas, a Raízen protocolou pedido para renegociar mais de R$ 65 bilhões em dívidas financeiras
  • Medida impacta cerca de 15 bancos e investidores detentores de títulos, que concentram cerca da 80% da dívida total da empresa
  • Processo de reestruturação pode incluir aporte de R$ 4 bilhoes de Shell e Aguassanta, de Rubens Ometto, e marca a maior RE do Brasil