Quando o grupo Fictor apresentou seu plano de recuperação judicial no início deste mês, a estratégia era separar o joio do trigo. Na prática, o processo não contaria com as operações de agro, incluindo a listada em Bolsa Fictor Alimentos, e incluiria somente a Fictor Holding e a Fictor Invest.
A empresa justificou, na ocasião, que tinha intenção de "evitar que empresas economicamente viáveis sejam afetadas por restrições típicas do processo de recuperação, impossibilitando o soerguimento do grupo, bem como a preservação de fornecedores, clientes e empregos enquanto a reestruturação financeira é conduzida no nível corporativo".
A estratégia não durou um mês. A empresa informou ao mercado na manhã desta quinta-feira, 26 de fevereiro, que incluirá a Fictor Alimentos e outras empresas da holding no processo, que soma dívidas de R$ 4,2 bilhões entre credores e investidores.
O grupo citou, em fato relevante arquivado na CVM, que optou pela inclusão após observar que o ambiente de negócios piorou nas controladas após a divulgação do processo de recuperação da controladora.
"Notadamente observamos restrições no acesso a crédito, revisão de limites por instituições financeiras e impactos nas relações comerciais, o que demonstra a necessidade de preservação da capacidade financeira e operacional da companhia", diz o documento.
Ainda segundo a Fictor, a consolidação desses negócios no processo de RJ ainda "proporciona um ambiente estruturado para a negociação coordenada, promovendo maior transparência e estabilidade para os stakeholders".
A performance das ações FICT3 na Bolsa após o anúncio da RJ da controladora - mesmo com a empresa de alimentos ainda de fora do processo - já mostrava que seria difícil separar as operações. No dia do anúncio, os papéis tombaram mais de 40% e nesta quinta, 26, a ação cai outros 6%. No acumulado do ano, a baixa já superior aos 70%.
A Fictor Alimentos S.A., com unidades em Minas Gerais e Rio de Janeiro, é pontada como a principal subsidiária do grupo, criado há 19 anos pelo empresário Rafael Góis.
A empresa seria a responsável por 70% das receitas do conglomerado, com faturamento declarado de R$ 3,5 bilhões em 2024 e operações também de comercialização de grãos, uma gestora de recursos e uma empresa de meios de pagamento, além de negócios nos segmentos imobiliário e energético.
Nos últimos anos, a Fictor Alimentos vinha fechando seu foco no segmento de proteína animal. A tese da empresa era investir na aquisição de empresas do setor, de preferência em ativos estressados, que envolvem empresas em recuperação judicial ou em dificuldades financeiras.
Em abril do ano passado, a Fictor Alimentos anunciou seu primeiro negócio com esse modelo, com a aquisição de uma unidade pertencente à Mellore Alimentos, de Minas Gerais, que está em RJ.
A Fictor foi vencedora de um certame aberto pelo administrador judicial da Mellore, com um lance de R$ 30 milhões. Na ocasião, o grupo anunciou que buscava novos alvos para aquisição nas áreas de avicultura e piscicultura.
Antes de pedir recuperação judicial, o AgFeed ouviu rumores de que a Fictor estaria buscando compradores para algumas de suas estruturas de armazenamento de grãos. Um empresário da área de comercialização de grãos chegou a dizer à reportagem ter recebido uma consulta informal de executivos do grupo a respeito, com uma listagem dos ativos disponíveis.
Questionado a respeito, através de sua assessoria de comunicação, a Fictor declarou, na ocasião, que essa informação não procedia.
No trâmite judicial, a Fictor teve uma sequência de pedidos de revogação do stay period - suspensão temporária das cobranças de credores, decretação de falência e até envio do caso para órgãos investigadores por parte dos credores.
No início desta semana, o juiz responsável pelo caso decidiu manter o curso do processo e advertiu os credores, citando um "tumulto processual" com esse excesso de petições.
Resumo
- O grupo Fictor voltou atrás e incluiu a Fictor Alimentos no plano de recuperação judicial, ampliando o escopo do processo que envolve R$ 4,2 bilhões em dívidas
- A decisão veio após piora no ambiente de negócios das controladas, com restrição de crédito, revisão de limites por bancos e pressão comercial mesmo antes da subsidiária entrar formalmente na RJ
- Principal fonte de receita do grupo, a Fictor Alimentos vinha expandindo via aquisição de ativos estressados no setor de proteína animal, mas vê suas ações despencarem mais de 70% no ano após o pedido de recuperação da controladora