“Se vocês querem uma estratégia do tipo ‘China mais um’, somos o ‘mais um’ nesse setor”. A frase é de Mike Frank, CEO da UPL Corporation, e foi proferida na sexta-feira, 20 de fevereiro.

Naquele mesmo dia, horas mais tarde, o Conselho de Administração da UPL Limited, controladora da companhia indiana de insumos agrícolas, aprovou uma das maiores reformulações internas de sua história, que, no seu entender, pode materializar as palavras do executivo.

A proposta da empresa prevê uma ampla reorganização corporativa, com o objetivo de consolidar suas operações de proteção de cultivos, até então divididas em duas companhias, uma dentro e outra fora da Índia.

Com isso, seria criada o que, na visão do grupo, seria a segunda maior plataforma listada do mundo dedicada exclusivamente à proteção de cultivos.

Os dois negócios, que haviam sido apartados em 2019, quando a UPL comprou a Arysta por US$ 4,2 bilhões, serão reunidos em uma nova entidade, a UPL Global Sustainable Agri Solutions Limited (UPL Global), que será listada na bolsa de valore da Índia após a conclusão da transação.

Será um processo complexo, que envolverá uma série de fusões e cisões em empresas controladas pelo grupo, até sua formatação final, que deve acontecer entre 12 e 15 meses.

Essa formatação prevê também que uma segunda companhia, a UPL Limited, funcionará autonomamente, como uma empresa diversificada de produtos químicos agrícolas e especiais.

Desde o início desta semana o chairman e CEO global da UPL, Jai Shroff, tem se empenhado em apresentar ao mercado a estratégia que moveu a companhia a reorganizar seus negócios.

Sua tese principal é a de que, ao reunir os negócios de proteção de cultivos em uma única empresa dedicada exclusivamente ao segmento, a companhia ganha sinergias, foco e poder de mercado para atuar em um ambiente cada vez mais competitivo, principalmente em função da presença cada vez maior de grupos chineses.

Além disso, simplificaria as estruturas de comando, dando às duas novas empresas mais flexibilidade para captação de recursos e investimentos mais alinhados aos seus objetivos e permitindo uma percepção mais clara de valor de cada uma para os investidores, com estratégias de crescimento e perfis de risco separados.

“A estrutura reorganizada da UPL fortalece nossa capacidade de construir e expandir negócios diversificados nos setores agrícola e de especialidades químicas, além de impulsionar a incubação de empreendimentos sustentáveis de próxima geração”, afirmou em nota. A ideia seria ser mais ágil, por exemplo, na formação de parcerias, como a que a empresa possui com a Bunge no Brasil com a criação da Orígeo.

O problema é que o mercado, a princípio, não comprou a ideia. No primeiro pregão após o anúncio da reestruturação as ações da companhia caíram mais de 13%. Até o fechamento dos mercados na quarta-feira, 24 de fevereiro, haviam recuado mais de 15%.

As principais críticas dos investidores se focaram menos na nova organização e mais na falta de indicações de que o novo modelo seja efetivo em reduzir a alavancagem da UPL, mais alta que a dos concorrentes e um desafio que vem sendo enfrentado desde a aquisição da Arysta.

Na entrevista concedida horas antes da aprovação da reorganização, o CEO Mike Frank já adiantava o discurso que deve ser reforçado a partir de agora. “O crescimento da receita bruta no curto prazo não é tão importante quanto a melhoria do Ebitda e da geração de caixa”, disse ele, segundo publicado pela agência Bloomberg.

“Reposicionamos a empresa com foco na geração de caixa e na flexibilidade da cadeia de suprimentos, tratando a desaceleração do setor como estrutural, e não cíclica.”

A dívida líquida da empresa fechou o ano passado em US$ 2,6 bilhões, o que fez a relação com o ebitda ficar em 2,5 vezes. É um indicador bem melhor que as 3,8 vezes registradas um ano antes, mas o mercado quer mais.

“A aquisição da Arysta foi muito importante em diversos aspectos para a UPL, assim como a estratégia de separar as operações de Índia e do resto do mundo na época”, afirmou ao AgFeed um executivo brasileiro que atuou na companhia durante vários anos.

“Hoje, faz sentido integrar tudo em uma companhia só, voltar a ter uma área de pesquisa e desenvolvimento única”, emendou. A nova UPL global teria dois centros de principais de desenvolvimento, um na Índia e um na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, além de estações de pesquisa em diversos países, inclusive o Brasil.

Mais do que isso, a capacidade de manufatura da Índia, hoje um dos poucos países capazes de competir com a China nesse segmento de químicos, é um trunfo que a UPL pretende explorar para fortalecer sua posição de player global, com presença em mais de 140 países.

“A nova estrutura dá uma robustez muito grande à companhia, é um movimento estratégico muito importante e os acionistas devem entender isso com o tempo”, avalia o executivo.

O anúncio da grande reorganização corporativa vem menos de um mês depois de outro movimento relevante da UPL: o início do processo que deve levar a um IPO da Advanta Seeds, subsidiária de sementes do grupo com negócios em 74 países.

Os prospectos para a listagem da companhia na bolsa indiana foram apresentados no dia 19 de janeiro, indicando também nesse caso uma busca por maior autonomia e agilidade de decisões da empresa.

Da mesma forma do que aconteceu após o anúncio da reorganização, a primeira reação do mercado foi negativa, com queda de 8% das ações da UPL no pregão seguinte à publicação da intenção de fazer o IPO.

Cabe a Jai Shroff e seu time convencer os investidores de que, com essa nova estratégia, a empresa estará pronta para o jogo de “China mais um”.

Resumo

  • UPL anuncia unificação de negócios e cria nova empresa focada em proteção de cultivos, mirando liderança global no segmento
  • Mercado reage negativamente após anúncio, pressionado por preocupações com endividamento
  • Estratégia busca ganho de escala, geração de caixa e competitividade frente a concorrentes chineses