Fundado há 40 anos por Arthur Moscofian Jr., o Café Santa Monica surgiu em um momento em que o conceito de café especial ainda era pouco difundido no Brasil.

Quatro décadas depois e com preços de cafés nas alturas numa trajetória sem data para se encerrar, a companhia, uma das pioneiras em cafés especiais no Brasil, aproveita para crescer - com o consumidor brasileiro e estrangeiro.

O Café Santa Monica dobrou de tamanho nos últimos dois anos e iniciou 2026 consolidando os primeiros passos mais estruturados na exportação, com embarques para os Estados Unidos e a China, ao mesmo tempo em que reforça sua presença no mercado interno.

A empresa registrou crescimento de 120% no faturamento nesse intervalo, segundo revelou o CEO da empresa, Marcelo Moscofian, ao AgFeed. Para se ter uma ideia,  o mercado brasileiro de cafés especiais cresce 15% ao ano.

Segundo o executivo, 2026 deve marcar o terceiro ano consecutivo de expansão relevante, com expectativa de crescimento entre 40% e 50%.

O avanço ocorre em um momento de preços elevados do café no mercado internacional, após problemas climáticos recentes em grandes produtores e restrições de oferta. Para a empresa, no entanto, o crescimento não está atrelado apenas ao ciclo da commodity, mas à consolidação do posicionamento no segmento de cafés especiais e à expansão dos canais voltados ao consumidor final.

Hoje, cerca de 80% do faturamento do Santa Monica é destinado ao consumidor final por meio de varejistas como Amazon, Carrefour, Sam’s Club, Pão de Açúcar e, mais recentemente, Mercado Livre - além de um ecommerce próprio.

Depois de algumas décadas atuando junto a hotéis e restaurantes, o movimento no varejo ganhou força a partir de 2015, quando a empresa ampliou o portfólio no segmento, e acelerou no pós-pandemia, com a digitalização das vendas.

“O mercado de cafés especiais é crescente, e os consumidores hoje possuem muito mais informação. Nós temos uma vantagem de já estarmos focados nesse mercado há muito tempo, desde década de 1990”, afirma Moscofian.

A base produtiva da empresa combina produção própria e rede de parceiros. A Fazenda Santa Mônica, em Machado, no Sul de Minas Gerais, tem cerca de 149 hectares totais, sendo quase 100 hectares de área cultivada com fertirrigação e uso massivo de biológicos. "Hoje não usamos adubos químicos, e o manejo é feito principalmente com biológicos".

A produção própria responde por aproximadamente 40% da demanda. O restante vem de produtores parceiros — hoje mais de dez, distribuídos em diferentes regiões para garantir diversidade de perfis e padronização sensorial.

Ao todo, a empresa processa cerca de 12 mil sacas por ano em sua torrefação localizada no tradicional bairro da Mooca, em São Paulo, onde a capacidade instalada é de cerca de 150 toneladas mensais por turno.

Atualmente operando com dois turnos - e tendo ativado um terceiro em momentos de maior demanda no ano passado - a companhia avalia a ampliação do espaço produtivo, segundo o CEO.

Mesmo ainda pouco representativo no faturamento, a entrada em outros países é um dos principais trunfos para o ano de 2026 na empresa. Nos EUA, Moscofian conta o primeiro de pelo menos três containers já chegou nos EUA, e que o café Santa Mônica será vendido via Amazon.

O projeto está sendo estruturado faz alguns anos, e na última vez que o AgFeed conversou com o executivo, estava em um estágio embrionário. Duas safras - e um tarifaço - depois, chegou a vez de fincar os pés na terra do Tio Sam de vez.

A venda feita na plataforma na Amazon por lá será feita no esquema FBA (Fulfillment by Amazon, ou, Logística da Amazon). É um serviço oferecido pela big tech aos vendedores que desejam terceirizar seu processo logístico. Dessa forma, os cafés ficarão armazenados em centros de distribuições da própria companhia.

"Estaremos dentro do estoque da Amazon com um mix de produto ainda pequeno, pra ser assertivo nessa introdução. Entendemos que há uma demanda forte de cafés especiais nos EUA, e hoje não se encontra marcas brasileiras fortes lá, diferente de empresas da Colômbia e Etiópia", disse o CEO.

Segundo ele, o Brasil já conquistou um espaço forte na exportação de cafés verdes nos EUA, mas não no torrado. A empresa já atende países vizinhos como o Paraguai desde 2021, também focado no consumidor final. Um dos principais clientes por lá é o grupo Casa Rica, uma espécie de Pão de Açúcar paraguaio. No Uruguai, o grupo vende para a rede Disco, também supermercadista.

Outro conteiner deve percorrer um caminho mais distante neste ano - em direção à China. O país asiático não é um grande consumidor da bebida, mas tem aumentado a passos largos sua importação de café brasileiro.

Segundo dados do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), a China figurou na décima posição de maiores mercados em 2025 para o café brasileiro, com alta de 19% e ultrapassando 1 milhão de sacas importadas. O pais asiático havia figurado nesse top 10 em 2023 e ficou de fora em 2024.

O contenier de pacotes de cafés da Santa Mônica saiu do País em janeiro e deve chegar até o país nos próximos dias. "Exportação para nós ainda é uma estratégia muito pé no chão, mas estamos começamos a construir mercado lá fora. Hoje o foco ainda é interno, é o que cresce a empresa", disse o CEO.

Por aqui, estão previstos novos lançamentos, incluindo uma linha intermediária posicionada entre o café tradicional e o especial - focado no produtor que tem, aos poucos, se interessado por aumentar a qualidade da bebida que toma no dia a dia -, além de entrada no segmento de café solúvel premium.

A empresa também prepara colaborações com marcas de outros segmentos e amplia a atuação no canal corporativo, com soluções de vending machine para escritórios e hospitais. A companhia deve ainda passar a atender cafeterias, mas ainda em um projeto piloto. Uma será no aeroporto de Porto Seguro (BA), e outras duas serão em São Paulo, uma no mercado municipal, o Mercadão, e outra no bairro do Jardins.

Desbravar mercados fora do Sudeste também está na pauta e Moscofian cita que a companhia deve avançar com mais força para o Rio Grande do Sul neste ano.

Além da marca própria, o Santa Monica desenvolve linhas para marcas próprias desde 2019. Produz, por exemplo, cafés da marca União, em parceria com a Camil, além de itens para redes como Sam’s Club e Natural da Terra.

Nos últimos dois anos, o portfólio também foi ampliado para capturar a demanda por produtos de maior valor agregado.

A Specialty Coffee Association (SCA), organização global que mede a qualidade dos cafés pelo mundo, estabeleceu uma pontuação para medir essa qualidade e definiu que os cafés especiais são aqueles com uma nota acima de 80 pontos.

A empresa lançou uma linha de cafés com 85 pontos no ano passado, com microlotes que chegam a 87 pontos, além de edições especiais. O produto original criado na década de 1990 - hoje acima de 82 pontos - segue como carro -chefe e é o café em grão mais vendido da marca na Amazon no Brasil.

"Fizemos um trabalho de base e hoje compramos de pequenos produtores pra atender essa demanda acima dos 95 pontos. Esse é um mercado que lá na frente acreditamos que será massivo", projetou o CEO.

Resumo

  • O Café Santa Monica dobrou de tamanho desde 2024, impulsionado pelo avanço do mercado de cafés especiais e pela expansão no varejo e no ecommerce, que já respondem por 80% da receita
  • A empresa iniciou exportações de café torrado aos EUA via Amazon e à China, enquanto mantém foco no mercado interno, onde prepara novos lançamentos e expansão geográfica
  • Com produção própria cobrindo 40% da demanda e processamento de 12 mil sacas por ano, a companhia aposta em produtos acima de 85 pontos na escala da SCA para sustentar crescimento de 40% a 50% em 2026

Embalagem do microlote de café com pontuação acima de 87 pontos, um dos novos produtos lançados pela empresa