A exigência de comprovar à União Europeia que as commodities exportadas não foram produzidas em áreas desmatadas já começa a se refletir em números com impactos negativos para o agro brasileiro.
Segundo um estudo da consultoria italiana BIP, compartilhado com o AgFeed, a entrada em vigor da Lei Antidesmatamento da União Europeia (EUDR, na sigla em inglês) pode afetar até 16% das exportações da agroindústria brasileira - o equivalente a US$ 17,5 bilhões por ano (ou R$ 91 bilhões pela cotação atual).
O cálculo considera um possível risco de exclusão de produtores que não consigam atender às exigências de rastreabilidade integral, comprovação de origem livre de desmatamento e processos considerados rigorosos de due diligence ambiental.
No final de 2025, a União Europeia adiou mais uma vez por mais doze meses a implementação da regra, que agora passa a valer em 30 de dezembro de 2026. A lei proíbe a entrada no bloco de commodities agrícolas originadas de áreas desmatadas (legal ou ilegalmente) após 31 de dezembro de 2020.
O estudo da BIP mapeou que sete produtos estão diretamente no escopo da norma: gado, soja, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma.
Em resumo, levantamento prevê que o impacto não está apenas no produto final exportado, mas em toda a cadeia.
Fica a cargo dos exportadores o envio de declarações digitais de due diligence para cada lote exportado, com informações detalhadas sobre coordenadas geográficas, volumes e documentação ambiental. E, somado a isso, a indústria precisará comprovar a legalidade de seus insumos e garantir segregação ao longo da produção.
Já o elo de logística e armazenagem terá de investir em integração de sistemas e controle de cargas. O descumprimento pode resultar em multas de pelo menos 4% do faturamento anual do operador na União Europeia, além de sanções comerciais.
Para a BIP, o montante de US$ 17,5 bilhões deve ser entendido como um "custo de oportunidade". Trata-se da parcela das exportações potencialmente exposta caso parte dos produtores brasileiros não consiga se adequar às novas exigências.
"O mercado ainda existe para esse produtor, que está apto para vender dentro do Brasil. Só que há um mercado mais demandante e pagando prêmio no preço se ele tiver uma série de registros", afirma Marcelo Pagoti, diretor da divisão de Agro e Manufatura da consultoria BIP.
Segundo ele, a lógica da regulação europeia é “descomoditizar” a commodity. “Mesmo em soja ou milho, no fim do dia, existe mercado pagando melhor desde que o produtor consiga 'contar a historinha' de onde foi plantado, mostrar que a área não foi desmatada e que não houve contaminação ao longo da cadeia", diz o diretor.
Pagoti acredita que grande parte desse impacto está ligado ao produtor rural médio ou pequeno, que não tem poderio financeiro para investir em tecnologias de ponta que o façam acessar o mercado europeu lá na frente.
Cerca de 19% dos estabelecimentos rurais também enfrentam dificuldades adicionais por não possuírem titulação formal da terra, o que inviabiliza o atendimento aos critérios de rastreabilidade, cita o estudo.
“O custo é real e não pode ficar só na mão do produtor. É um custo de oportunidade para a cadeia como um todo se adequar, desde empresas de insumos até trading, que podem ajudar o produtor nessa vertical de rastreabilidade”, diz Pagoti.
Além do esforço das multinacionais, segundo o diretor, as cooperativas agrícolas terão um papel de elo central para viabilizar a adaptação, justamente pela relação mais próxima dos produtores. “Se elas estruturarem programas de rastreabilidade e acompanharem a cadeia, podem abraçar esse mercado”.
A BIP classificou os produtos em níveis de vulnerabilidade a partir de quatro dimensões. Gado e cacau aparecem entre os mais expostos.
No caso da pecuária, o principal gargalo é a rastreabilidade integral - a necessidade de rastreabilidade desde o nascimento até o abate. “Nosso rebanho tem uma fatia relevante -15% a 16% - na mão de produtores com menos de 50 cabeças. Esse gado passa por diferentes propriedades até chegar ao frigorífico. É uma cadeia mais difícil de rastrear”, afirma Pagoti.
Café e cacau enfrentam desafios ligados à predominância de pequenos produtores, enquanto a soja combina forte dependência do mercado externo com dificuldades técnicas de rastreabilidade em larga escala.
O Brasil foi classificado pela União Europeia como país de risco padrão no âmbito da EUDR. O estudo reconhece que avanços institucionais, como o Código Florestal e sistemas de monitoramento por satélite, jogam a favor da adaptação à lei.
Contudo, aponta um descompasso regulatório: enquanto a legislação brasileira permite desmatamento legal em determinadas condições, a norma europeia adota o conceito de desmatamento zero. Apesar dos desafios, a BIP avalia que a regulação também pode funcionar como vetor de modernização da cadeia, e impulsionar empresas de tecnologia.
“Enxergamos oportunidades relevantes em soluções de geolocalização, blockchain, inteligência artificial e monitoramento remoto”, diz Pagoti.
Para a consultoria, a EUDR deve ser analisada dentro de um movimento regulatório mais amplo que condiciona acesso a mercado à comprovação de sustentabilidade. Ao mesmo tempo, as oportunidades para ganhar mercados europeis nunca estiveram tão em voga.
Paralelo à lei antidesmatamento, o Brasil e o restante do Mercosul comemoram o avanço no histórico acordo entre os blocos econômicos, que prevê eliminar tarifas de comércio ao longo dos anos.
“A Europa é um mercado mais exigente, e em certa medida mais elitista. Mas é um mercado que paga prêmio. O montante está disponível. A questão é estar apto a acessar".
Resumo
- Estudo da BIP mapeou que EUDR pode afetar soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, exigindo rastreabilidade integral e comprovação de origem livre de desmatamento após 2020
- O risco de exclusão do mercado europeu atinge principalmente pequenos e médios produtores, muitos sem titulação formal da terra ou estrutura tecnológica para atender às regras
- pesar do custo de oportunidade estimado em US$ 17,5 bilhões, a regulação também pode abrir espaço para prêmio de preço e modernização da cadeia com uso de tecnologia