Um encontro realizado em no Insper em São Paulo, no fim de março passado, debruçou-se sobre os grandes desafios para que se acelere a transição na pecuária brasileira para modelos mais sustentáveis.
A iniciativa é parte de um projeto que reúne as perspectivas de diferentes agentes da cadeia produtiva e da sociedade civil, seguindo a lógica de identificar barreiras, mas também de propor ações consentidas por todos a fim de obter uma nova teoria de mudança para o setor.
Ainda é um trabalho em andamento e, portanto, não quero me adiantar às suas conclusões. Mas quero me debruçar sobre um ponto específico da discussão, identificado como crítico de forma quase unânime: governança.
Aprimorar a forma como agentes da cadeia se organizam e tomam decisões que impactam o setor e seu futuro é visto como uma ação prioritária para que a pecuária possa avançar de forma menos desigual e mais eficiente na superação de barreiras.
A grande pergunta é porque no Brasil, maior produtor e exportador do mundo, a cadeia da carne nunca conseguiu se organizar de forma eficiente?
Não foi por falta de motivos. Ao longo das últimas décadas sofremos diversos choques por causas internas e internas.
Alguns exemplos: focos de aftosa em 2006; a novela do Sisbov e a decisão 61 da União Europeia que criou a lista Traces de fazendas aprovadas, fazendo despencar nossa exportação em 2008; a crise financeira e a onda de recuperações judiciais em 2009; os TACs da carne em 2009; a guerra entre a indústria da carne e a indústria farmacêutica por causa de resíduos de ivermectina na carne em 2010 e 2011, que suspenderam as exportações aos EUA; os achados de BSE atípica em 2021 e 2023; e, mais recentemente, o tarifaço de Trump e as cotas na China.
São apenas exemplos, entre outros tantos. O desafio da rastreabilidade continua já que a indústria não consegue até hoje demonstrar em grande parte a origem do que comercializa, criando dificuldades para atender regulamentações e exigências de bancos, de clientes, da EUDR europeia e do próprio MPF.
As normas europeias em relação a promotores de crescimento e antimicrobianos e mesmo antidesmatamento criam o risco real do Brasil perder em breve um mercado de US$ 1 bilhão pela incapacidade da cadeia em implementar protocolos de rastreabilidade, controle do uso de produtos veterinários e segregação.
É uma aposta arriscada achar sempre que exigências vão ser adiadas ou renegociadas ou que o mundo sempre vai precisar do Brasil.
As tentativas passadas de coordenar ações na cadeia fracassaram em grande medida. Em 2010, chegou-se a propor um Consecarne, ou Conseboi, espécie de conselho unindo indústrias e produtores que trabalharia para resolver conflitos ligados à formação de preços, peso, toalete e classificação de carcaças, sustentabilidade e promoção comercial entre outros desafios.
Não foi para a frente por disputas dentro da cadeia. Mesmo iniciativas de interesse comum, como o Serviço de Informação da Carne que deveria informar e promover o consumo de carne bovina, foram abandonados pelas partes.
A Mesa Brasileira de Pecuária Sustentável, que deveria ser o fórum para que as questões ligadas à sustentabilidade da cadeia fossem resolvidas, patina por falta de apoio e liderança de quem deveria justamente ser protagonista.
De onde vem nossa incapacidade de colocar diferentes elos da cadeia, mas sobretudo indústria e produtores na mesma mesa, considerando a importância do setor para o País, especialmente quando comparamos o que acontece aqui com a carne com outros países como Australia ou Uruguai, ou com outros setores como papel e celulose, algodão e mesmo aves e suínos?
Eu tenho alguns palpites.
O primeiro é que é, de fato, mais difícil. Cadeias mais organizadas geralmente são cadeias curtas, com forte integração entre produção e processamento, e concentradas em regiões específicas.
A pecuária tem uma complexidade sem paralelos, já que a produção se divide em diferentes elos e, geograficamente, abrange grande parte do País, com grande disparidade de sistemas de produção, escala e graus de tecnificação.
O segundo palpite é que, por mais que o setor tenha atravessado momentos de crise, o volume de produção e comercialização tem uma escala tão gigantesca que continuamos crescendo apesar da ausência de uma governança eficiente, o que dá a falsa impressão de que tudo vai bem.
A outra hipótese é a de que há quem se beneficie com a bagunça.
Cadeias produtivas precisam de uma razão muito forte para se organizar.
Essa razão pode vir de uma necessidade. Para países como Australia e Uruguai, garantir mercados de exportação era uma necessidade vital, visto que seus mercados domésticos são pequenos para absorver o que produzem. Avançou-se em diferenciação de qualidade, imagem, rastreabilidade e controle total da produção por ações tomadas em conjunto entre produtores, indústrias e governo para garantir mercados de exportação.
É a mesma razão pela qual o setor de etanol se organizou no Brasil, para fazer frente a outros setores de geração de energia, sobretudo os fósseis.
Mas a razão também pode vir de crises. E aparentemente nenhuma crise no setor no Brasil foi suficiente, até hoje, para fazer a cadeia se organizar.
O mais perto que chegamos disso foi justamente em 2009, com a tempestade perfeita de recuperações judiciais na indústria queda de preços e a imagem da pecuária no chão, com o relatório da Farra do Boi na Amazônia sendo espalhado aos quatro ventos no mundo. Mesmo assim não foi suficiente.
A pergunta é se precisaremos de uma crise apocalíptica mesmo para que a cadeia se organize (torço que não) ou se ela agirá proativamente para se organizar justamente antes que alguma nova crise aconteça.
Infelizmente, essa última hipótese demanda um tipo de liderança atualmente em falta no mercado. Gente com visão estratégica de futuro, capaz de ler as mudanças no mundo e no mercado e traduzir isso em ganhos para todos os elos da cadeia produtiva, antes, dentro e depois da porteira.
Mas se é difícil imaginar que essa organização aconteça em nível nacional, a coisa fica mais palpável quando olhamos regionalmente. Estados e regiões produtores onde a pecuária tem alta relevância deveriam pensar em formas de se organizar e se autorregular.
Neste sentido é bom acompanhar as experiências como a do Instituto Mato-Grossense da Carne – IMAC, não por acaso inspirado no INAC uruguaio.
Mas também é bom estar de olho nas fragilidades. O Pará construiu um Comitê Gestor para seu Programa de Integridade da Cadeia Pecuária.
O próprio governador atropelou essa estrutura ao decidir unilateralmente e vergonhosamente adiar o programa de rastreabilidade do estado passada a COP30 em Belém por interesse político, ignorando por completo a governança que o programa criou.
O fato é que há oportunidades nessa organização regional. Mas ela também demanda lideranças de visão.
O Rio Grande do Sul, por exemplo, tem uma carne de alta qualidade, baixíssimo risco socioambiental. Poderia há muito tempo ter se tornado uma espécie de Uruguai dentro do Brasil, com um rebanho 100% controlado e projeção comercial. Mas as lideranças locais precisam enxergar esse potencial.
O que acontece se não fizermos nada? Nada. Vamos continuar produzindo e vendendo simplesmente por inércia, e apagando um incêndio após o outro como temos feito esses anos todos. A pergunta é o que deixaremos de ganhar.
Mas vejo também um segundo efeito na ausência de governança. Como é cada um por si, as grandes indústrias irão se regular com seus grandes fornecedores.
Teremos uma espécie de condomínio de luxo na cadeia com gente capaz de atender qualquer demanda do mercado e dominar boa parte dele. E do lado de fora uma segunda classe de produtores e indústrias sobrevivendo no que sobrar.
Talvez a Classe A, no fim, resolva se diferenciar do resto e se organizar sozinha. Mal comparando é o que houve no setor de mineração no Brasil, com grandes empresas organizadas se juntando e se opondo frontalmente ao caos do garimpo informal e da pequena mineração.
É triste, mas é o mais provável.
Fernando Sampaio é engenheiro agrônomo e membro do Grupo Estratégico da Coalizão Clima, Florestas e Agricultura.