Como a esmagadora maioria das startups, a Mombak nasceu do desejo de seus criadores de resolver problemas.

Mas, neste caso, não se tratava de utilizar a tecnologia para solucionar questões corriqueiras do cotidiano como a dificuldade de pegar um táxi, pedir comida por aplicativo ou enviar dinheiro para outras pessoas.

A ambição era bem maior: ajudar a enfrentar – ou ao menos mitigar – os efeitos das mudanças climáticas em escala global.

Foi com esse objetivo que Peter Fernández, ex-CEO da 99, e Gabriel Haddad Silva, ex-CFO do Nubank, se uniram para buscar formas eficientes de combater as mudanças climáticas.

E a resposta encontrada foi a remoção de carbono por meio de soluções baseadas na natureza, especialmente projetos de reflorestamento em larga escala.

Dessa reflexão nasceu a Mombak, dedicada à geração de créditos de remoção de carbono a partir de projetos de restauração florestal.

Após um período de testes e validação do modelo de negócios, a empresa estruturou uma tese de investimentos considerada robusta pelo mercado e atraiu mais de US$ 250 milhões (o equivalente a R$ 1,3 bi no câmbio atual) em aportes de instituições como o Banco Mundial e o BNDES.

Agora, a companhia se prepara para uma nova rodada de captação com o objetivo de acelerar a escala de seus projetos na Amazônia brasileira.

As metas da Mombak são ambiciosas para além das relações com os investidores.

No longo prazo, a startup pretende restaurar centenas de milhares de hectares de áreas degradadas, remover 1 milhão de toneladas de CO2 da atmosfera por ano a partir de 2035 e se consolidar como o maior e mais escalável projeto de remoção de carbono por reflorestamento biodiverso na Amazônia.

A aposta pela remoção de carbono se explica pela percepção dos fundadores da startup de que não bastava apenas reduzir a quantidade de emissões de CO2 para mitigar os efeitos das mudanças climáticas.

Ainda que a redução seja necessária, nem todos vão obtê-la, lembra Tomás Balistiero, COO da Mombak, em entrevista ao AgFeed.

"A humanidade hoje emite em torno de 50 bilhões de CO2 equivalente por ano e tem que fazer duas coisas para a gente poder resolver esse problema", explica.

"A primeira delas é reduzir a emissão de CO2, ou seja, todas essas iniciativas de transição, de energia, eletrificação, redução de combustível fóssil, etc.”, afirma Balistiero.

“Mas mesmo assim não é possível (reduzir todas as emissões), porque países também que estão em desenvolvimento vão evoluir a qualidade de vida e é justo também ter eletrificação em países e nações que você não tem esse acesso.”.

"(A segunda coisa) é que você tem que remover carbono. Deveriam ser removidos 10 bilhões de toneladas de CO2 equivalente por ano, um volume muito significativo", diz.

Segundo Tomás Balistiero, o reflorestamento é hoje a forma mais eficiente de realizar essa remoção em larga escala. Mas nem todo projeto florestal, ressalta, gera o mesmo impacto climático.

O diferencial está na velocidade de crescimento das florestas e na capacidade de acumular biomassa, fatores nos quais o Brasil, especialmente a Amazônia, se destaca.

Para além do lado ambiental, para provar que o mercado no qual atua é promissor, a Mombak trabalha com uma estimativa da BloombergNEF de que o mercado poderá chegar a US$ 1 trilhão. "É o dobro hoje do mercado global de proteína animal e de outras commodities brasileiras como a soja, que são mercados de US$ 200 bilhões ou US$ 300 milhões", afirma.

Na prática, diz Balistiero, a Mombak ocupa o espaço de uma convergência entre um problema climático complexo, um mercado potencial gigantesco e o principal instrumento disponível hoje para remoção de carbono em escala: a floresta. E essa equação, reforça, se fecha de forma particularmente favorável na Amazônia – e por isso a startup resolveu focar seus projetos no bioma brasileiro.

Foi a partir dessa tese que a startup começou a procurar a rodar investimentos para iniciar o plantio de seus projetos de reflorestamento, que começaram a partir de 2023.

Ao todo, já foram plantadas 12 milhões de árvores de mais de 100 espécies nativas ameaçadas de extinção como ucuúba, itauba, mogno, acapu e castanha-do-pará, entre outras, em 12 fazendas no Pará, totalizando 20 mil hectares sob gestão.

A metodologia utilizada pela Mombak conecta dados de campo, com a utilização de drones, a dados 3D e imagens de satélite, conseguindo medir quanto de carbono já foi capturado pela floresta.

Do ponto de vista operacional, a Mombak compra terras para implantar seus projetos de reflorestamento. Mas, em paralelo, desenvolve parcerias com produtores rurais como forma de expansão. Nesse modelo, o proprietário entra com a terra e participa da receita gerada pelos créditos de carbono.

A proposta atrai produtores interessados em uma renda de longo prazo, vinculada a um ativo ambiental.

"O projeto participa de um projeto de longuíssimo prazo, que tem um baita potencial em função dessa indústria, porque você faz a parceria já com a venda do carbono e o carbono vai estar lá. O produtor participa disso e tem uma rentabilidade bastante interessante, se o mercado se desenvolver para a direção que a gente está vendo", avalia o COO da Mombak.

Com longa experiência em indústrias como Fibria e Citrosuco antes de integrar a startup, Balistiero avalia que a Mombak está fazendo uma aposta bem-sucedida em utilizar o know-how da indústria de silvicultura para desenvolver um novo mercado.

“A gente trouxe também muito conhecimento de indústrias consolidadas no Brasil e vencedoras, como indústrias de florestas plantadas, para fazer floresta de restauração em escala industrial, com foco em produtividade”, diz Balistiero.

Bolsos cheios

Para desenvolver os projetos na Amazônia, implantar as primeiras florestas e validar a tese que estava nos flipcharts e na cabeça dos fundadores, a Mombak foi em busca de investidores e conseguiu atrair nomes de peso para aportarem em sua operação, intensiva em capital.

Ao todo, a startup conseguiu amealhar cerca de US$ 250 milhões. Desse montante, US$ 120 milhões são de equity, com recursos que foram aportados em um fundo chamado The Amazon Reforestation Fund (ARF), gerido pela própria Mombak.

Entre os investidores estão nomes como as gestoras Axa e Bain Capital, o fundo de pensão canadense CPP e a Fundação Rockefeller.

Os US$ 120 milhões restantes foram captados via dívida, sendo que US$ 37 milhões vieram via DFC (Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA), US$ 36 milhões via outcomes bonds – títulos para projetos de longo prazo – do Banco Mundial, e US$ 29 milhões em empréstimo pré-aprovado pelo BNDES via Fundo Clima e linha BNDES Finem.

Nesse meio tempo, a Mombak também conseguiu clientes dispostos a investir nos projetos de reflorestamento.

Primeiro, em 2023, a Microsoft assinou um acordo com a startup para obter até 1,5 milhão de créditos de remoção de carbono até 2032.

O acordo, segundo a big tech, permitirá que Mombak refloreste 25  áreas desmatadas da Amazônia, com pelo menos 30 milhões de árvores de 100 espécies nativas em seus territórios.

“À medida que a Microsoft continua o seu trabalho para se tornar negativa em carbono até 2030, é importante investirmos em projetos escaláveis ​​e de alta qualidade como este, com a Mombak, que trazem benefícios sociais e ambientais significativos”, disse Brian Marrs, diretor sênior de energia e remoção de carbono da companhia, na ocasião.

Mais recentemente, em novembro do ano passado, foi a vez de o Google anunciar que estava assinando um acordo para a compra de 200 mil toneladas de remoção de carbono, após um piloto bem-sucedido em 2024.

Outros nomes conhecidos do público, como a escuderia britânica McLaren e a consultoria McKinsey, também já fizeram acordo de compra de créditos de remoção com a Mombak.

Esses créditos são comercializados no mercado voluntário, no qual as empresas compram créditos de carbono para compensar suas emissões de gases de efeito estufa de forma voluntária.

O mercado tem sofrido com preços baixos nos últimos anos, em função das crescentes dúvidas em relação a muitos projetos, mas a situação de baixa não chega a afetar o negócio da Mombak.

Com seu modelo de negócio já testado e mecanismos que asseguram a integridade dos projetos de reflorestamento e dos créditos gerados, a Mombak consegue praticar preços acima da média do mercado, chegando a cobrar cerca de US$ 100 por tonelada de carbono removido, segundo Balistiero.

O valor aferido pela Mombak está bem acima da faixa média, que ficou entre US$ 2 e US$ 50 por crédito de projetos de reflorestamento ao longo do ano passado, segundo dados da plataforma Sylvera.

“É um valor importante que faz com que a gente tenha potencial também de oferecer um produto de alta integridade e qualidade, ao mesmo tempo financiar esses projetos e poder seguir em frente e escalar esse produto”, diz Balistiero.

Vem aí o “hipercrescimento”

Agora, a startup entra numa segunda fase, que Balliestro chama de "hipercrescimento".

"A gente está avançando significativamente na captação de recursos, agora numa lógica um pouco diferente, na qual já temos comprador, eu capto dinheiro e coloco o projeto em pé, porque eu já testei o produto e o produto funcionou. O que a gente quer agora é ganhar muita escala. É o que estamos fazendo neste momento", diz Balistiero.

Por isso, a startup montou um novo fundo chamado The Amazon Reforestation Fund II FIP Multiestratégia IS, ainda em fase pré-operacional, para continuar recebendo recursos e ir além. E mais uma vez deve receber recursos do BNDES.

Isso porque, no fim de janeiro, o veículo foi selecionado, em conjunto com outros seis fundos, por uma chamada pública do BNDES, focada em mitigação climática, que vai aportar até R$ 4,3 bilhões nas estruturas, por meio da BNDESPar, empresa de participações do banco estatal. A ideia é que os fundos consigam multiplicar esses valores em capital privado.

O fundo da Mombak vai receber até R$ 500 milhões da instituição por meio de equity, uma novidade para a startup pois, até então, os aportes do BNDES foram em dívida.

A ambição da startup, no entanto, é de captar um volume de recursos bem maior nesse novo veículo, superando os US$ 250 milhões conseguidos com o primeiro fundo – ainda que Balliestro não tenha definido uma meta fixa de recursos.

"Se no fundo 1, com dívida mais equity, chegarmos a US$ 250 milhões, esperamos que (o número captado no novo fundo) seja bem maior", afirma o COO. "O fundo 2 tem um track record do fundo 1, tem uma redução de risco, porque já provamos que funciona."

O primeiro fechamento do fundo está previsto para ocorrer ainda no primeiro trimestre de 2026. Paralelamente, a Mombak também vem avançando com novos compradores de créditos, que devem ser anunciados em breve, segundo Balliestro.

Embora totalmente concentrada no Brasil hoje, a empresa não descarta avaliar outros biomas ou países no futuro, desde que apresentem alta produtividade para remoção de carbono.

Resumo

  • Mombak atua em projetos de remoção de carbono baseada em soluções naturais, especialmente projetos de reflorestamento em larga escala na Amazônia
  • Com modelo já validado, a startup atraiu mais de US$ 250 milhões em investimentos, fechou contratos com empresas como Microsoft e Google e passou a vender créditos de remoção de carbono a preços acima da média do mercado
  • Agora, entra em uma fase de “hipercrescimento”, estruturando um novo fundo para escalar seus projetos, com meta de remover 1 milhão de toneladas de CO₂ por ano a partir de 2035