Inflação e mudanças climáticas se consolidaram como as principais fontes de preocupação dos CEOs do agronegócio brasileiro em 2026, superando, com folga, o nível de apreensão observado entre empresários de outros setores da economia.

Essa é a síntese da 29ª edição da pesquisa CEO Survey, feita anualmente pela PwC, e que neste ano ouviu mais de 4,4 mil executivos em 95 países, com um recorte específico para o agro brasileiro. O público é diverso, e conta com executivos de agroindústrias, produtores rurais, de empresas de defensivos, fertilizantes e de máquinas e implementos.

Segundo o levantamento, 35% dos CEOs do agronegócio no País afirmam estar “muito” ou “extremamente” expostos à inflação nos próximos 12 meses. O patamar superior à média brasileira de todos os setores (29%) e também acima do resultado global (25%).

Na visão da PwC, a pressão inflacionária afeta os produtores principalmente nos custos de insumos, logística e nas margens operacionais.

A sequência de preocupações dos empresários rurais é preenchida pelas mudanças climáticas, citada por 33% dos executivos do setor como uma problemática. O percentual é quase o dobro do observado entre CEOs brasileiros de outros segmentos (18%) e bem acima da média mundial (23%).

"O dado reforça a centralidade dos eventos climáticos extremos, da volatilidade das safras e dos desafios de adaptação ambiental para o desempenho do setor", diz a PwC.

O diagnóstico é fruto, de acordo com a pesquisa, de um ambiente de cautela que se espalhou pelo comando das empresas do agro, com um otimismo perante a economia nacional.

No levantamento divulgado nesta semana, 58% dos CEOs do agronegócio no Brasil esperam aceleração da economia nacional, bem abaixo dos 76% registrados no ano anterior. No cenário global, apenas 50% projetam crescimento mais forte, contra 66% em 2025. Somado a isso, 28% dos entrevistados espera uma desaceleração da economia. Levando em consideração todos os setores, a projeção pessimista é vista em 21% dos CEOs.

A perda de confiança também aparece quando o foco se volta para o próprio desempenho das empresas. A proporção de CEOs do agro “muito” ou “extremamente” confiantes no crescimento da receita nos próximos 12 meses caiu de 48% para 38% em um ano, convergindo para a média brasileira e permanecendo acima do patamar global.

Apesar do pessimismo com a economia e com as próprias empresas, nem tudo é negativo. Como ressaltou Mayra Theis, sócia e líder de Agribusiness da PwC Brasil, durante coletiva com jornalistas para apresentar os resultados da pesquisa, as respostas relacionadas ao uso de inteligência artificial e inovação foi uma "grata surpresa".

No Brasil, 33% dos CEOs do setor afirmam que o uso de IA já resultou em aumento de receita nos últimos 12 meses, enquanto 58% indicaram pouca ou nenhuma alteração e apenas 5% relataram impacto negativo. Do lado dos custos, 33% observaram redução, atribuída a ganhos de eficiência e automação. 18% ainda citou um aumento de custos, relacionados, segundo a pesquisa, a treinamentos e implementação de novos softwares.

Mesmo com sinais positivos, a pesquisa sugere que a captura de valor com IA ainda ocorre de forma gradual. A maioria das empresas do agro brasileiro permanece em fase de adoção ou maturação das soluções, o que explica o fato de quase metade dos CEOs (48%) não perceber alterações relevantes nos custos até agora.

Theis, da PwC, ainda citou que o uso de IA ainda traz um efeito colateral: 60% dos CEOs do agro se mostram preocupados com uma redução de empregos causada por essa tecnologia nos próximos três anos, um percentual alinhado à média nacional.

Um terço desse grupo projeta uma redução superior a 16% nesses quadros. Ao mesmo tempo, apenas 23% esperam necessidade de novas contratações, abaixo da média brasileira (28%).

Outro movimento captado pela pesquisa é uma espécie de convergência entre o agronegócio e outros setores da economia.

Metade dos CEOs do agro no Brasil afirma que suas empresas passaram a competir em novos segmentos nos últimos cinco anos, percentual semelhante ao observado no conjunto das empresas brasileiras (51%).

"Vimos setores atraindo e conseguindo desenvolver novos produtos, serviços e novos portfólios. No setor sucroenergético, por exemplo, que historicamente produziu açúcar e etanol, passou a atuar com cogeração de energia, depois com biometano e fertilizantes feitos de vinhaça", diz a sócia da PwC.

"Novas tecnologias permitem o desenvolvimento de novos produtos, para além da eficiência", acrescentou.

A inovação é considerada um componente crítico da estratégia por 63% dos CEOs do agronegócio, número acima da média global de 50%. Apesar disso, apenas 15% afirmam contar com centros formais de inovação, incubadoras ou estruturas de venture capital internas. Além disso, só 18% dizem tolerar alto risco em projetos inovadores, indicador inferior ao global (25%).

Apesar de a exposição às mudanças climáticas ser uma das maiores preocupações do setor, apenas 25% dos executivos do agro no Brasil disseram ter processos estruturados para incorporar riscos e oportunidades relacionados ao tema, incluindo alocação de capital e M&As.

A pesquisa também mostra que, ao contrário de outros setores, a pressão direta dos stakeholders - grupos interessados como investidores, acionistas e clientes - sobre temas considerados como "de confiança" ainda é relativamente baixa no agronegócio nacional.

A PwC mostrou que apenas 25% dos CEOs relatam questionamentos frequentes sobre os impactos das mudanças climáticas no desempenho dos negócios.

Por trás de boa parte dessas dificuldades está a chamada “opressão do curto prazo”. Segundo a PwC, 54% da agenda dos CEOs do agronegócio brasileiro é dedicada a temas com horizonte inferior a um ano, enquanto apenas 15% do tempo é reservado a questões de longo prazo.

O dado ajuda a explicar, segundo Theis, por que, mesmo diante de riscos estruturais evidentes, como clima e transformação tecnológica, a maior parte das decisões ainda se concentra na gestão imediata do negócio.

Resumo

  • Inflação e clima lideram as preocupações de 35% e 33% dos CEOs do agronegócio, patamar bem acima da média brasileira e global de todos os setores
  • O otimismo com a economia caiu no agro, com 58% dos executivos esperando aceleração em 2026, ante 76% no ano anterior, e 38% confiantes no crescimento da própria receita.
  • A adoção de IA avança de forma gradual no setor, com 33% dos CEOs relatando aumento de receita