A Capal, cooperativa com sede em Arapoti (PR), deve absorver em breve a Coopagrícola, de Ponta Grossa (PR), que enfrenta dificuldades financeiras.

A informação foi confirmada com exclusividade ao AgFeed por Adilson Roberto Fuga, presidente executivo da Capal.

A cooperativa de Arapoti já negociava com a Coopagrícola desde o ano passado e, nas últimas semanas, aguardava o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), autarquia de análise da concorrência, para seguir adiante com a operação. O sinal verde veio no último dia 22 de janeiro, quando o Cade publicou no Diário Oficial de União (DOU) que tinha aprovado o acordo entre as cooperativas.

A Coopagrícola, que atua com foco em grãos como soja, milho, trigo e cevada, vinha enfrentando dificuldades financeiras, conta Fuga, que levaram à incorporação. Em um primeiro sinal de que sus negócios não iam bem, a cooperativa ponta-grossense já tinha assinado um acordo de cooperação estratégica com a Frísia, de Carambeí (PR), em julho do ano passado. Menos de seis meses depois, veio a incorporação pela Capal.

"Sozinha, a Coopagrícola não teria condições de continuar sobrevivendo", diz o presidente executivo da Capal, que conta que, apesar de ter tido um faturamento de R$ 480 milhões no ano passado, o balanço da Coopagrícola trouxe um resultado negativo em cerca de R$ 45 milhões, inviabilizando a continuidade da operação. “Eles já vinham com resultados negativos e agora vieram com mais este, bem grande e negativo.”

Fuga diz que já tinha travado conversas para a incorporação da cooperativa de Ponta Grossa pela Capal há alguns anos, mas que a negociação não seguiu adiante naquele momento.

"Eles achavam que não era o ideal e que ela teria condições de continuar vivendo e de continuar conduzindo os negócios", afirma o presidente da Capal. "Mas, agora, chegou-se a uma dificuldade grande e eles não tiveram muita opção a não ser a incorporação."

A incorporação já foi aprovada em assembleias individuais das cooperativas, mas ainda depende da realização de uma assembleia geral extraordinária conjunta entre Capal e Coopagrícola, a ser realizada no fim de fevereiro.

Após o encontro, a expectativa de Adilson Fuga é de que, a partir de março, a Capal já esteja operando as estruturas da Coopagrícola.

A cooperativa de Ponta Grossa existe desde 1962 e atua com a comercialização de grãos como soja, milho, trigo e cevada, além de vender insumos e possui armazéns em sua cidade-sede e também nos municípios de Palmeira (PR) e Ivaí (PR), totalizando capacidade estática de cerca de 90 mil toneladas, que será incorporada à Capal.

A Coopagrícola ainda possui cerca de 800 associados, segundo Fuga, mas em função das dificuldades financeiras, apenas pouco mais de 100 cooperados vinham fazendo negócio. "Agora, a gente vê uma grande oportunidade de trazê-los de volta e aumentar o volume de negócios", diz.

A Capal, por sua vez, encerrou o ano de 2025 com desafios do ponto de vista comercial, especialmente em função das tarifas de 50% aplicadas aos produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos, que afetaram o café exportado pela cooperativa.

Apesar de o faturamento da cooperativa ter crescido no ano passado, encerrando o período com R$ 5,4 bilhões, alta de cerca de 22% em relação aos R$ 4,4 bilhões registrados em 2024, as sobras da cooperativa encerraram o ano com R$ 116 milhões, aquém dos R$ 135 milhões que a Capal havia projetado no início de 2025.

"O que impactou bastante foi o café. Tínhamos uma boa quantidade de vendas para os Estados Unidos e o tarifaço deu uma travada", diz Fuga, ressaltando que os embarques ficaram parados por meses, trazendo custos financeiros e logísticos à operação da cooperativa, deteriorando o resultado final.

"No fim, conseguimos embarcar praticamente tudo o que tínhamos planejado, não teve nenhuma renegociação, com cancelamento de compra, mas o resultado acabou sendo praticamente zero", afirma. Ao todo, foram embarcadas 950 mil sacas de café, com faturamento de cerca de R$ 2 bilhões.

Ainda assim, o bom resultado da safra de grãos ajudou a atenuar as dificuldades com o café. Ao todo, a cooperativa recebeu, ao longo do ano passado, 960 mil toneladas de grãos, sendo 404 mil toneladas de soja, 226 mil toneladas de milho, 60 mil toneladas de cevada e 55 mil toneladas de sorgo.

Segundo Fuga, a temporada foi positiva do ponto de vista produtivo e operacional para a cooperativa. “Foi uma safra boa. Nós recebemos quase um milhão de toneladas de grãos nos armazéns da cooperativa, chegando a cerca de 960 mil toneladas”, afirma.

De acordo com o presidente executivo da cooperativa, o desempenho da cevada foi um dos destaques do ciclo. “A safra de cevada foi muito boa para atender a Maltaria Campos Gerais, em Ponta Grossa. Recebemos cerca de 60 mil toneladas, com qualidade elevada”, diz.

Fuga acrescenta que o trigo também apresentou bom padrão, com alta de 52% no volume, após resultado fraco na safra de 2024, “Tivemos um recebimento significativo e com qualidade, o que facilita bastante o processo de comercialização", diz.

Apesar do bom desempenho no campo, o presidente executivo da Capal ressalta que o cenário econômico segue desafiador. “As margens estão mais apertadas, e isso é algo que a gente já vem percebendo nos últimos anos. Mesmo assim, quando o produto tem qualidade, o escoamento acaba sendo mais fácil”, conclui.

Apesar dos desafios enfrentados durante 2025, a Capal continuou fazendo investimentos ao longo do ano, segundo Fuga, somando cerca de R$ 165 milhões em aportes.

Somente em Arapoti, a cooperativa investiu mais de R$ 20 milhões na construção de um novo armazém de sementes e em adequações nas centrais de pó.

No mesmo município, foram erguidos mais 13 silos, que já estão praticamente concluídos, segundo Fuga, em um projeto que somou R$ 51 milhões e ampliou em cerca de 42 mil toneladas a capacidade estática de armazenagem de grãos da unidade, que passa a operar próxima de 600 mil toneladas.

Ainda em Arapoti, a cooperativa inaugurou uma nova loja agropecuária, com investimento de R$ 19 milhões.

A cidade-sede da cooperativa também recebeu a segunda fase da reforma de seu Parque de Exposições, com investimento de R$ 7,8 milhões em 2025. O projeto ainda deve passar por uma terceira etapa de melhorias, orçada em mais R$ 3,5 milhões, com conclusão prevista para 2026.

Investimentos foram feitos também em outras unidades da cooperativa, segundo Fuga. Em Itararé (SP), a Capal investiu R$ 5,2 milhões na revitalização da fachada da loja agropecuária e na construção de um novo setor administrativo.

Em Santo Antônio da Platina (PR), foram concluídas uma nova loja e um armazém de insumos, com aporte de R$ 11,5 milhões. Já em Taquarituba (SP), a cooperativa construiu um novo armazém de sementes, com investimento de R$ 12 milhões, além de uma loja provisória e um armazém de defensivos, que demandaram mais R$ 5,5 milhões.

Em Wenceslau Braz (PR), a Capal aplicou R$ 15 milhões na construção de três novos silos metálicos na unidade de beneficiamento de sementes, adicionando 13,5 mil toneladas à capacidade de armazenagem local.

Depois de ter feito várias expansões nos últimos anos, a Capal espera “pisar no freio” em novos investimentos ao longo deste ano, segundo Adilson Fuga, especialmente em função da chegada da Coopagrícola, que demandará aportes. “A cooperativa vai ter de fazer melhorias nas estruturas da Coopagrícola, que estavam bem deterioradas", afirma.

Ainda assim, a expectativa de Fuga é de que a Capal faça investimentos em suas operações na ordem de R$ 60 milhões a R$ 70 milhões ao longo deste ano. Entre os aportes previstos, estão uma nova unidade de recebimento de grãos em Avaré (SP), uma nova loja em Carlópolis (PR) e a aquisição de um imóvel que pertencia à rede varejista Lavoro em Arapoti, além de outros projetos menores.

A cooperativa pretende também puxar o freio de mão do ponto de vista financeiro. "Estamos com um plano, dentro da nossa estrutura financeira, de liquidar alguns financiamentos e não contratar novos, em função das taxas de juro elevadas", diz.

No fim de 2023, a Capal fez sua estreia no mercado de capitais do agronegócio, ao emitir um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) no valor de R$ 150 milhões, em operação coordenada pelo Banco Alfa, com participação da gestora JGP. A operação foi do tipo “CRA verde”, em que os recursos são direcionados para iniciativas sustentáveis.

Permanecem, ainda, nos planos da cooperativa, a construção de uma indústria esmagadora de soja, seguindo o exemplo de outras cooperativas de maior porte que caminharam para a industrialização da oleaginosa. Mas o projeto, segundo Fuga, ainda não tem data para sair do papel.

Em termos de faturamento, a expectativa da Capal é encerrar o ano com resultado semelhante ao do ano passado, chegando a cerca de R$ 5,8 bilhões, número que já considera a incorporação da Coopagrícola. Sem a adição das operações da cooperativa ponta-grossense, o faturamento previsto é de R$ 5,2 bilhões.

O resultado deve ter contribuição positiva de uma safra potencialmente cheia, diz Fuga. "O clima tem ajudado. Às vezes, falta um pouquinho de chuva em algum lugar ou chove demais em outros, mas, em geral, a perspectiva é boa", afirma o presidente executivo da Capal.

Resumo

  • A Capal, de Arapoti (PR), deve incorporar a Coopagrícola, de Ponta Grossa (PR), após receber aval do Cade, em uma operação motivada pelas dificuldades financeiras da cooperativa ponta-grossense
  • A incorporação já foi aprovada em assembleias individuais e aguarda apenas uma assembleia geral conjunta no fim de fevereiro, com expectativa de a Capal assumir as operações a partir de março
  • Apesar dos impactos do tarifaço dos EUA sobre o café em 2025, a Capal teve alta de mais de 20% em seu faturamento, sustentada pelo bom desempenho da safra de grãos, e agora projeta faturamento próximo de R$ 5,8 bilhões com a integração da Coopagrícola