A CES não é exatamente sobre o futuro. É sobre quem consegue transformar tecnologia em algo que faça sentido na vida real.

Mesmo atuando com inovação no agro há mais de 12 anos, neste janeiro de 2026 estreei na Consumer Eletronics Show (CES), a maior feira de tecnologia voltada ao consumo do mundo.

Desembarquei em Las Vegas, no Estados Unidos, com expectativas altas. Havia subestimado o seu impacto.

Caminhar pelos corredores da CES faz as ideias explodirem em sua mente. Como toda feira voltada ao consumo, há muito marketing embutido. Por isso, é preciso algum tempo — e certo distanciamento — para processar racionalmente imagens criadas para vender e transformá-las em insights feitos para durar, distinguindo o que é moda do que é tendência, de fato, para uma inovação fora da caixa.

A primeira visão do evento é o de um mundo invadido por robôs humanoides. Sua quase onipresença, entretanto, é apenas aparente. Olhando-se com mais atenção, percebe-se que o mundo que se desenha a partir deles é justamente o que já existe: aquele efetivamente preparado para os humanos.

Robotizar, aqui, é especializar as máquinas para reproduzirem atividades humanas e cotidianas, como serviços domésticos ou funções repetitivas nos ambientes de trabalho.

Ou seja, não se trata de transformar o ambiente em que vivemos, mas inserir as máquinas cada vez mais nele, alterando nossa rotina e nossa socialização.

A presença maior de robôs, sobretudo aqueles turbinados com inteligência artificial, no dia-a-dia das pessoas tende a nos conduzir a uma menor convivência com outros humanos.

Na CES, pode-se ver como a tecnologia nos oferece cada vez mais companhias virtuais, que ajudam a nos afastar das relações interpessoais. Companhias chinesas, por exemplo, apresentaram versões atualizadas dos “bichinhos virtuais” japoneses de décadas atrás, que usam a IA para se transformarem em verdadeiros acompanhantes de crianças, idosos e até pets. Mais do que entretenimento, esses produtos cumprem um papel estratégico.

Esses equipamentos funcionam também como portas de entrada da IA nas vidas de quem não vive, necessária e profissionalmente, com ela. A ideia é conquistar a confiança dos usuários para as novas tecnologias.

Uma vez estabelecida essa conexão, ela pode ser transferida a qualquer outro produto. Câmeras, equipamentos de sensoriamento e interfones inteligentes passam a ser provedores de serviços de alto valor agregado, entendendo seus donos e atendendo suas demandas de forma eficiente, sem a necessidade de interação com outros humanos.

A IA, dessa forma, deixa de ser, para o consumidor, algo intangível para se tornar física, palpável. Não por acaso, a gigante Nvidia, protagonista desse universo, usou a CES para demonstrar de forma mais efetiva como seus chips se relacionam com o hardware.

A mensagem que se depreende aqui é de que o verdadeiro boom da IA não vem da programação, mas da IA física, da forma como a tecnologia se relaciona com o usuário final.

Exemplos disso estavam por toda a parte. Mesmo grandes companhias de tecnologia como Google e Meta materializam seus avanços em produtos como óculos inteligentes.

Outras, como a fabricante de equipamentos de GPS Garmin, revelam uma tendência de verticalização de seus negócios, ampliando sua gama de produtos (até a sensores para serem instalados no rabo de cavalos) para tornar seus softwares mais presentes no cotidiano dos usuários.

O recado é uníssono: não existe IA funcional sem hardware compatível com necessidades reais.

É uma lição relevante que podemos e devemos trazer para o agro. A IA já chegou ao campo, mas precisa demonstrar melhor como se tornará verdadeiramente útil e fisicamente presente.

Leo Carvalho é Chief Global Strategy Officer na Solinftec.

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