Já faz alguns trimestres que o Banco do Brasil vê a inadimplência do agro subir em seus balanços, e agora, um caso notório deu cor ao que são apenas números na instituição financeira.

Na lista com 50 credores anexada pela Aliança Agrícola do Cerrado ao pedido de tutela cautelar feito esta semana, o banco estatal lidera o ranking de passivos.

Do total de R$ 1,1 bilhão em dívidas, o BB é responsável por R$ 134,9 milhões, de acordo com o documento no qual o AgFeed teve acesso. Instituições financeiras são a grande maioria da lista, que relaciona apenas credores com valores acima de R$ 1 milhão. Bancos como Santander (passivo de R$ 95 milhões), Macquarie Bank (R$ 104 milhões), ABC (R$ 41 milhões) e Bradesco (R$ 56 milhões) estão entre elas.

Gestoras e players da Faria Lima também figuram no processo: XP e Multiplike, com R$ 80 milhões e R$ 24 milhões, respectivamente. A securitizadora Ecoagro, uma das responsáveis por expor a crise da trading de controle russo ao executar garantias logo após um calote no pagamento mensal de juros, soma R$ 110 milhões no documento.

Outros montantes expressivos ficam a cargo do Sicoob com R$ 65 milhões, Banco Industrial do Brasil, com R$ 40 milhões e Banco Pine, com R$ 38 milhões em passivos.

A lista mostra poucos players do agro, como a cooperativa LAR, a Agrícola Alvorada e a Itahum Export Comércio de Cereais. Entre armazéns, fornecedores de insumos e cooperativas, são quase R$ 140 milhões em passivos distribuídos em montantes menores, embora milionários.

O pedido de tutela cautelar da Aliança Agrícola do Cerrado, ocorrido no final desta semana, veio após semanas de silêncio da companhia com credores, investidores e parceiros comerciais. E-mails não respondidos, ligações ignoradas e até a exclusão de perfis de executivos no LinkedIn passaram a ser interpretados, nos bastidores, como o prenúncio de um processo de insolvência.

Controlada pelo grupo russo Sodrugestvo, do empresário Alexander Lutsenko, a trading desapareceu do radar do mercado no início de janeiro, pouco antes do vencimento antecipado de dívidas e da execução de garantias.

A empresa então protocolou um pedido de tutela de urgência cautelar na Justiça de São Paulo para suspender o pagamento de dívidas por 60 dias, o chamado stay period, numa tentativa de ganhar fôlego para negociar com credores, buscar novos financiamentos ou avaliar alternativas como parcerias e arrendamentos.

O pedido segue em análise, mas teve seu segredo de justiça negado pelo juíz Marco Antonio Abdallah Deotti Ibrahim. Segundo um advogado que acompanha de perto o processo, a estratégia adotada pela companhia acabou produzindo o efeito oposto ao desejado.

“Até o final do ano passado, havia comunicação permanente com credores. De repente, a empresa adotou uma estratégia de silêncio absoluto, sem responder e-mails ou ligações, provavelmente já costurando essa tutela com efeitos de recuperação”, afirmou ao AgFeed.

Resumo

  • O BB aparece como maior credor da Aliança, à frente de Santander, Macquarie, Bradesco e gestoras da Faria Lima, num passivo total de R$ 1,1 bilhão
  • O pedido de tutela cautelar veio após semanas de silêncio com credores e segue em análise, mas teve o segredo de justiça negado pela Justiça paulista
  • A execução de garantias da Ecoagro após calote em CRAs expôs a crise e acelerou a leitura de uma provável insolvência da trading controlada pelo grupo russo Sodrugestvo