Com o caixa recheado depois de captar com fundo estatal mexicano, a Yield Lab Latam voltou a investir. E o aporte veio em um tipo de startup que a empresa gosta e conhece: uma agfintech.

A escolhida da vez foi a Culttivo, conhecida como fintech do café. A companhia oferece crédito financeiro de forma digital para cafeicultores, combinando tecnologia de imagens de satélite e informações dos próprios produtores para simplificar a análise de crédito.

O valor do aporte não foi revelado, mas o cheque entra num momento em que a Culttivo se prepara para captar cerca R$ 30 milhões e se preparar para uma série A ainda maior, de R$ 100 milhões como revelou ao AgFeed o CEO e cofundador da empresa, Gustavo Foz.

Até agora, a empresa já somou mais de R$ 7 milhões em aportes. Na rodada seed, liderada pela KPTL e com participação da trading Eisa, levantou R$ 6,2 milhões. Posteriormente, estendeu a captação com mais R$ 1 milhão com outros investidores, incluindo Raphael Covre, empresário que vendeu a Casa do Adubo à Nutrien.

A empresa encerrou 2025 com um faturamento de R$ 60 milhões, dobrando o montante de 2024. A meta para 2026 é dobrar novamente. Ao longo do ano passado, a empresa desembolsou cerca de R$ 300 milhões em crédito para cafeicultores, e para esse ano, Foz projeta R$ 500 milhões concedidos.

"2024 e 2025 foram de muita construção, e 2026 será um ano de execução. A série A vai abranger um novo momento da empresa, que evoluiu ao longo dos últimos anos com muito capital próprio e poucas rodadas, e agora é momento de evoluir", disse ao AgFeed.

O grande pulo do gato da Culttivo é ir além da concessão simples de crédito e apostar em tecnologia. O modelo próprio desenvolvido pelos sócios permite uma assertividade acima de 90% nas estimativas de produção de cada talhão de café.

"Esse é o diferencial da Culttivo, com algoritmos que preveem a produção somados a tecnologias de satélite e outras mensurações, feitas por essa rede de agrônomos e outros profissionais que se relacionam com o produtor. Isso consegue gerar o modelo de risco, e traz oportunidade de financiar infraestrutura e tecnologia nessas fazendas", acrescentou Kieran Gartlan, sócio da Yield Lab Latam, a nova investidora da startup.

O modelo de originação conta tanto com um time próprio, e uma rede de mais de 150 parceiros que envolvem revendas, tradings, cooperativas e corretores de café.

"Nossa tese é custear a operação baseada na própria lavoura. Além dos originadores, temos uma equipe comercial bem robusta no campo e uma operação 1 a 1. Posso até analisar a carteira de uma revenda, mas para conceder o crédito a análise é individual", afirmou Foz.

"Sempre vimos como um grande diferencial ter o tratamento diretamente com o produtor, e colocamos a tecnologia lá atrás para que o processo fosse cada vez mais rápido", citou o CEO.

A concessão de crédito conta com um fundo com patrimônio líquido de cerca de R$ 200 milhões, com expectativa de crescer para um patamar de R$ 300 milhões a R$ 350 milhões neste ano. Mesmo em um momento de escassez de crédito e alta nos calotes, o fundo da empresa encerrou 2025 com uma inadimplência abaixo dos 2%, de acordo com o CEO e cofundador.

Foz ainda cita que a empresa chegou a liquidar cerca de R$ 130 milhões de operações do fundo ao longo do ano passado. O ticket médio da operação é de R$ 500 mil por produtor, fazendo a carteira estática somar mil produtores. A base de dados da empresa é maior, e conta com 8 mil cafeicultores, segundo Foz.

Para Gartlan, da Yield Lab, o aporte faz com que o portfólio de investidas abarque mais uma cultura importante do agro brasileiro.

Até então, o fundo já havia investido nas brasileiras TerraMagna - mais focada em grãos, a AgroForte, especializada em proteína animal e na mexicana Blooms, dedicada ao segmento de hortifruti.

"Gostamos de fintechs e faz muito sentido para nós cobrir todos os setores dentro do agro. Entendemos que café é muito diferente de soja e da proteína animal. Café é um setor que o risco de crédito é muito menor de quem produz soja ou milho, pois é um investimento numa cultura perene que uma árvore dura mais de uma década, não é fácil largar tudo", diz Gartlan ao AgFeed.

"Visitamos cafeicultores em Minas Gerais e São Paulo e percebemos que mesmo os mais sofisticados quase não usam tecnologias de agricultura de precisão. Há um grande gap comparado com soja e milho nesse uso, e a gestão de safra é feita no olho", cita o sócio da Yield Lab Latam.

Outro aspecto alinhado com investidas passadas da firma é o perfil dos founders. A Yield Lab Latam prefere investir em startups criadas por empreendedores com experiência prévia no mercado, seja financeiro ou do próprio agro. Na Culttivo, por exemplo, Foz e Santos atuaram juntos na Sertrading, cuidando de uma cerealista que financiava produtores, recebia produtos e fazia hedge.

Em 2010, a trading foi comprada pelo banco BI&P - Banco Industrial & Partners, e eles encarregaram de criar a área agro dentro da instituição financeira.

"A Culttivo tem esse perfil parecido com o da AgroForte: pessoas que já trabalharam no mercado e hoje estão usando tecnologia para oferecer um serviço diferente", acrescentou Gartlan.

Resumo

  • Com apoio da Yield Lab Latam, Culttivo se prepara para uma Série A de R$ 100 milhões, após já captar mais de R$ 7 milhões desde a fase seed
  • A empresa dobrou o faturamento para R$ 60 milhões em 2025 e projeta conceder R$ 500 milhões em crédito neste ano, apoiada em um fundo com até R$ 350 milhões e inadimplência abaixo de 2%