Recuperações judiciais, crédito restrito, incertezas quanto aos preços das commodities. Nenhum desses fatores impediu a securitizadora Opea de crescer nas operações com o agronegócio em 2025.

Em entrevista ao AgFeed, Renato Barros Frascino, head de agronegócio da Opea, e Emerson Lopes, gestor e diretor de administração de carteira da securitizadora, destacaram que os desafios do agro foram percebidos, principalmente na área de grãos, com a dificuldade de acesso a crédito por parte do produtor, mas por outro lado disseram que outros produtos seguiram crescendo.

“Vimos o Banco do Brasil reduzindo as linhas e mesmo os próprios Fiagros FIIs com dificuldade de captação no mercado de capitais, nesses últimos dois anos. Mas, em paralelo, o que a gente tem visto é o volume crescente de operações de risco de carteira pulverizada”, ressaltou Frascino.

Durante a conversa, diversas vezes, os dois executivos destacaram o diferencial desses fundos “pulverizados”, que estariam conquistando os dois lados, tanto quem precisa do crédito, quanto quem estava receoso em investir.

Na Opea, segundo eles, o que mais vem aumentando são as operações dos Fiagros FIDCS, aquela modalidade de fundo ligada a direitos creditórios e não a ativos, como o próprio Fiagro FII, muitas vezes atrelado a terras.

“Você acaba diminuindo o risco para o investidor. Para esse tipo de operação no mercado, a gente tem visto aí um crescimento de várias indústrias, de insumos, revendas, cooperativas, acessando o mercado de capitais através das estruturas de operações pulverizadas”, disse Frascino.

Exemplos concretos foram divulgados nessas primeiras semanas de janeiro. A Basf, gigante multinacional de defensivos agrícolas, anunciou que concluiu a captação de R$ 1,4 bilhão na quarta emissão de cotas de um Fiagro FIDC.

Os recursos serão usados para financiar a venda de insumos para clientes como distribuidores, cooperativas e produtores rurais.

Trata-se do Fiagro FIDC Opea Agro Insumos. Segundo a securitizadora, ao longo de 2025 o fundo registrou um crescimento de 73%.

A Opea também foi a escolhida para gerir o Fiagro inédito lançado pela cooperativa paranaense Cocari, no início de janeiro. É um fundo de perfil fechado, para cooperados e colaboradores, que busca captar inicialmente R$ 50 milhões. A Opea já tem um fundo mais antigo com a Cocari que totaliza R$ 160 milhões.

No final do ano passado, mais emissões da lista de bons resultados da empresa foram feitas, entre eles um Fiagro FIDC de R$ 150 milhões para a Cibra, de fertilizantes, e um fundo de R$ 350 milhões com a 3tentos. E teve mais.

“Fizemos com a Sinova, que é uma revenda de insumos. Por mais que muitos investidores estivessem saindo do risco de revenda, a gente conseguiu fazer uma operação de R$ 250 milhões em Fiagro FIDC com a Sinova”, salientou o head de agronegócio.

A operação da Sinova foi feita em setembro do ano passado. Segundo a Opea, uma nova emissão junto a cooperativas deve sair até fevereiro, mostrando que realmente este caminho da “carteira pulverizada” está tendo boa aderência.

Emerson Lopes, gestor da Opea, revelou os números que demonstram este avanço. No início do ano os fundos somavam R$ 2,95 bilhões de patrimônio líquido, sendo que R$ 2,6 bilhões eram relacionados ao agronegócio, ou seja, 89% do total.

Agora, a Opea diz já ter sob gestão a cifra de R$ 4,91 bilhões, com R$ 4,3 bilhões ligados ao setor. Em termos percentuais, a alta participação do agro seguiu no mesmo patamar, em 88%.

“A gente saiu de 14 para 20 fundos e em todos eles a gente fez follow-on, ou seja, a gente captou e aumentou ou permaneceu ou aumentou”.

Se considerados apenas aqueles relacionados ao agro, eram 11 e agora são 16 fundos.

Nesta conta estão também players que atuam até no varejo de alimentos, como a cooperativa Frimesa, do Paraná.

Ele explica que alguns FIDCs viraram Fiagros, recentemente, em função da questão do IOF, que passou a incidir sobre esses fundos em meados de 2025.

“Mesmo com todos esses problemas, incluindo a enchente no Rio Grande do Sul, a gente conseguiu aqui na Opea que todos os fundos renovassem. E a grande maioria renovou com valores maiores, para financiar a safra. A gente conseguiu fazer essa renovação, tanto pelo apetite do lado de quem está querendo captar o dinheiro, como também do cotista”, afirmou Lopes.

O executivo argumenta que que uma das razões para seguir crescendo, mesmo em tempos difíceis para o mercado, é o monitoramento diário que é feito para os cotistas, que acompanham o que está acontecendo com a carteira, em função da pulverização.

“Inclusive fundos que tiveram questões de RJ (recuperação judicial), continuaram de pé, não teve problema nenhum. Alguns tiveram aumento depois com o follow-on, porque a própria estrutura absorveu as questões da RJ”, disse.

Renato Frascino admitiu que “os bolsos dos Fiagros FII, que investem em CRAs, realmente secaram”. Seriam os fiagros físicos, com operações menores, diretamente com o produtor rural ou com renda menor.

Na visão dele, o esforço é sempre para mostrar que o agronegócio “não é uma coisa só”. Integrando a Anbima, ele diz que tem trabalhado numa cartilha para ajudar o investir a ter essa compreensão, sabendo segregar, detalhando que cada setor, como sucroalcoleiro, grãos, entre outros, “tem seu ciclo”.

Perspectiva para 2026

O cenário visto nos últimos doze meses, em que a Opea quase dobrou os ativos sob gestão tem chance de se repetir em 2026, segundo os dois diretores.

“A tendência que eu vejo é um contínuo crescimento para 2026, principalmente porque são estruturas com risco pulverizado”, reforçou Renato.

Ele vê potencial para que mais empresas que atuam “antes da porteira”, incluindo fertilizantes, sementes, máquinas agrícolas e revendas, utilizem os instrumentos de securitização atráves de Fiagros FIDCs e de CRAs.

Na prática, compra-se uma carteira de recebíveis e cria-se um veículo, que pode ser um Fiagro ou um CRA.

No caso da Basf, por exemplo, a multinacional fez a cessão da carteira, com notas fiscais de venda a prazo com seus clientes, incluindo revendas, cooperativas e produtores.

Para os investidores são emitidos três tipos de cotas. A cota sênior é do investidor que está correndo menos risco de inadimplência da carteira, porque ele vai receber primeiro, à medida que essas duplicatas, essas notas fiscais, vão pagando no Fiagro ou no CRA.

Na sequência, são pagos os investidores da cota mezanino e por último recebe o investidor da cota subordinada.

“Então, qualquer inadimplência que eu tiver nessa carteira cedida, quem assume as primeiras penas é o investidor subordinado. Por isso que não é um risco corporativo”, explicou Frascino.

Mesmo que alguns direitos creditórios atrasem, acrescentou Lopes, isso não afeta a carteira, lembrando da velha máxima dos “vários ovos na cesta”, que reduzem o risco.

A Opea diz que também vem dando um suporte detalhado às cooperativas para que entendam essa lógica, inclusive no caso da Cocari, onde era preciso explicar até a forma que cada envolvido iria pagar aquele débito – é a securitizadora que emite os boletos, diferente da operação tradicional de entregar grãos em troca de insumos na cooperativa.

Para fazer o Fiagro inédito, também buscou aval junto a CVM, explicando o que pretendia fazer. A expectativa é que a experiência agora possa ser replicada para outras cooperativas.

Além de Frimesa e Cocari, a Opea já tem operações com a Cooasgo (Cooperativa Agropecuária São Gabriel do Oeste), com um fundo de R$ 100 milhões. É neste segmento que a empresa vê as melhores oportunidades de seguir avançando em 2026.

Para que os planos se concretizem, eles defendem que seja mantida “a segurança da indústria”, ou seja, que a situação regulatória, que envolve mudanças como a ocorrida no IOF em 2025, não acabe prejudicando esse avanço no acesso ao crédito agro via mercado de capitais.

A Opea também criou uma empresa de cobrança, que ajuda os players do agro, o chamado “servicer”. “Acredito que a gente é o único grupo de securitização do Brasil que faz o controle ou o espelhamento basicamente de 99% dos nossos fundos. Então, eu tenho controle de todo o recebível”, afirmou Lopes.

“Se tem um cara em RJ, a gente já sabe, a gente já entra com todos os processos, já tem o agente de formalização que vai estar fazendo a cobrança lá e vai estar ajudando o processo”.

“Na maioria dos nossos fundos, a gente paga o cotista no ano e faz o follow-on do fundo. Então, isso mostra ainda mais a confiança dele nos nossos controles, porque a gente recebe, paga e depois faz uma captação nova. E a gente faz isso justamente porque a gente tem capacidade de tecnologia, capacidade de inovação e a melhor estrutura de securitização do País”, disse Frascino.

Segundo a Opea, dos 20 fundos, somente dois não têm o serviço de cobrança. “Mas 100% dos nossos fundos agro, a gente roda ou fazendo a boletagem ou tendo o espelhamento diário da carteira. Então eu sei o quanto o cliente pagou, inclusive se ele pagou com barter ou foi boleto ou foi um repasse”.

Outra aposta para 2026, é seguir ampliando as operações em recebíveis dolarizados, segundo Emerson Lopes.

A Opea participou de alguns casos emblemáticos como as primeiras operações de securitização internacional mediante o registro de CRAs em bolsa europeia. Houve um caso de US $ 47 milhões em 2023, por exemplo, e outro mais recente de US$ 60 milhões, envolvendo Rabobank e três redes varejistas de Londres.

Há um entrave, porém, que é o fato de não ser permitido ter conta corrente em dólar no Brasil. “Estamos aguardando isso, que destravaria bastante o mercado, mas estamos querendo operar com barter em dólar”, disse Lopes.

Quando o produtor paga a sua dívida, o valor é recebido em reais, em uma determinada data. Somente mais adiante é que o investidor estrangeiro é remunerado, em dólar, por isso há uma variação cambial, mesmo que seja de um dia para outro. Isso gera a necessidade de hedge, tornando a operação mais complexa e aumentando o custo, eles explicam.

Resumo

  • Opea cresce apesar do crédito restrito, apostando em Fiagros FIDC com carteiras pulverizadas e menor risco ao investidor
  • Securitizadora estrutura fundos com cooperativas, indústrias e revendas, como Basf, Cocari, Sinova, Cibra e 3tentos
  • Ativos sob gestão chegam a R$ 4,9 bi, com 88% ligados ao agro, e perspectiva de novo ciclo de expansão em 2026