Nem no apagar das luzes de 2025 o setor de proteína animal consegue descansar. Depois de um ano marcado pela restrição temporária das vendas aos Estados Unidos por conta do tarifaço de Donald Trump, 2026 já começa com um grande desafio batendo à porta.
No início do último dia do ano passado, foi a vez do governo da China anunciou que vai aplicar uma “salvaguarda" para proteger a produção interna do impacto das importações globais de carne bovina.
De acordo com comunicado oficial do Ministério do Comércio da República Popular da China (MOFCOM), a medida cria um sistema de cotas tarifárias para a carne bovina importada, com vigência inicial de três anos, a partir de 1º de janeiro de 2026.
Na prática, o governo chinês estabeleceu um volume total anual de cerca de 2,7 milhões de toneladas que poderão entrar no país sem cobrança adicional.
Todo o volume que exceder esse limite estará sujeito a uma tarifa extra de 55%. Dentro desse teto global, o Brasil ficará com a maior parcela da cota, estimada em aproximadamente 1,1 milhão de toneladas por ano.
A salvaguarda é resultado de uma investigação iniciada em dezembro de 2024 pelas autoridades chinesas, com o objetivo de avaliar os impactos do crescimento das importações sobre a produção doméstica. O processo durou cerca de um ano e foi concluído depois do natal, ao final de dezembro de 2025.
No comunicado do MOFCOM é dito que as autoridades investigadoras chegaram à conclusão de que o aumento das importações de carne bovina “prejudicou seriamente" a indústria nacional da China. Além disso, citou que foi identificada uma relação causal entre o aumento da quantidade de produtos importados e “graves danos causados”.
Em nota conjunta, a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) - que representa todas as principais empresas do setor - e a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) disseram que a medida “altera as condições de acesso ao mercado chinês” e faz com que seja feita uma reorganização de fluxos de produção e exportação.
“Esses embarques dizem respeito a produtos com valor agregado e perfil distinto do consumo doméstico, associados à geração de emprego e renda no setor. A China permanece como o principal destino da carne bovina brasileira e é um importante mercado para o funcionamento da pecuária nacional”, disseram as entidades no texto.
Só em 2025, o País enviou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina ao gigante asiático, 48,3% do volume total exportado, estimou a Abiec.
Em outra nota, três ministérios (da Agricultura e Pecuária, das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio) também se manifestaram.
O texto afirma que o governo brasileiro tem agido de forma coordenada com o setor privado e que “seguirá atuando junto ao governo chinês tanto em nível bilateral quanto no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio) para mitigar o impacto da medida e defender os interesses legítimos dos trabalhadores e produtores do setor”.
As pastas citam que medidas de salvaguarda são instrumentos de defesa comercial previstos nos acordos da OMC e que são geralmente utilizados para lidar com o que chamou de “surtos de importação”.
No comunicado, os ministérios afirmam que o setor pecuário brasileiro tem “contribuído de maneira consistente e confiável para a segurança alimentar da China”, citando ainda que as vendas são feitas por meios de “produtos sustentáveis e competitivos, submetidos a rigorosos controles sanitários”.
Já o texto da Abiec e da CNA cita que a carne bovina brasileira exerce um papel complementar no abastecimento do mercado chinês, contribuindo para uma estabilidade da oferta ao consumidor.
“Aproximadamente 70% da carne bovina produzida no Brasil é destinada ao mercado interno, enquanto cerca de 30% é exportada, evidenciando o caráter complementar das exportações e sua importância para o equilíbrio e o funcionamento da cadeia pecuária nacional”, acrescentaram Abiec e CNA.
A Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos), calcula que essas salvaguardas podem significar uma perda de até US$ 3 bilhões (cerca de R$ 16,4 bilhões pela cotação atual) em receita ao Brasil em 2026.
“Além do efeito direto sobre a balança comercial, a medida ocorre num momento delicado para a pecuária brasileira, marcado por redução de oferta e transição do ciclo pecuário. É uma medida que pode funcionar como fator de desestímulo para o pecuarista investir mais na atividade, ampliando a produção”, diz a nota da Abrafrigo.
Alternativas para as empresas
Segundo a Reuters, a China definiu que as cotas de importação de carne bovina no âmbito da salvaguarda serão crescentes ao longo dos três primeiros anos de vigência da medida.
Enquanto o Brasil, principal fornecedor do produto ao mercado chinês, ficará com a maior parcela do volume autorizado, com 1,106 milhão de toneladas em 2026, a Argentina terá uma cota inicial estimada em cerca de 510 mil toneladas e o Uruguai, 160 mil toneladas.
A questão é que os volumes deverão crescer em torno de 2% ao ano nos exercícios seguintes. Com isso, a carga tributária total sobre a carne bovina exportada fora da cota poderá chegar a 67%, o que tende a limitar os embarques excedentes e impactar a competitividade dos principais fornecedores a partir de 2026.
Mas é justamente essa cota menor para países vizinhos pode aliviar algumas gigantes brasileiras, como MBRF e Minerva. Considerando a cota de 1,1 milhão de toneladas e que o Brasil vinha exportando mais de 1,5 milhão de toneladas por ano aos chineses, 400 mil toneladas precisarão de novos destinos, já que a venda fora da cota fica inviável, segundo a Abrafrigo.
Uma alternativa seria vender aos países vizinhos na América do Sul, que manteriam o consumo doméstico estável e conseguiriam vender mais para o gigante asiático através de suas estruturas nesses outros países.
É aí que MBRF e Minerva saem ganhando. A estratégia é parecida com a que foi feita no tarifaço pela Minerva: enviou produtos feitos em plantas fora do Brasil para os EUA. A companhia também exporta para a China a partir de duas plantas localizadas na Colômbia.
No início do primeiro pregão de 2026, papéis dos frigoríficos negociados no Brasil recuavam: por volta das 10h30, a ação da MBRF tinha desvalorização de 1,60%, o papel da Minerva caía cerca de 3% e o BDR da JBS na B3 perdia 0,43%.
Um relatório do BTG Pactual, escrito pelos analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, calculou que a China representou 54% do volume importado de carne bovina brasileira (1,6 milhão de toneladas), cerca de 15% da produção total de carne bovina do Brasil.
Considerando que cerca de um terço das exportações para a China precisará de novos destinos, eles estimaram que 5% da produção brasileira de carne bovina precisará trocar o endereço final.
“A história nos ensinou que nenhum país está disposto a depender de importações de energia ou alimentos por muito tempo. Parece ser exatamente disso que se trata”, escreveram Duarte e Guttilla.
Por mais que reconheçam que o governo brasileiro faça um “trabalho fantástico” abrindo novos mercados - o que ajudou a mitigar os efeitos do tarifaço de Donald Trump e os casos de gripe aviária - o caso da China é “mais relevante”.
“Embora não esperemos que os exportadores, principalmente os maiores players sob nossa cobertura, saiam ilesos, a situação parece administrável. Nossa principal preocupação é que a China pode não ser mais vista como o principal motor de crescimento do setor, o que poderia afetar o perfil de crescimento de longo prazo dos exportadores de carne bovina”, disseram os analistas.
Há cerca de um mês, o banco publicou um relatório prevendo margens apertadas para frigoríficos em 2026, com pressão vindo tanto das aves quanto da carne bovina.
No documento, reiteraram uma animação com a JBS e uma preocupação com suas concorrentes brasileiras MBRF e Minerva. O destaque para a empresa da família Batista é a boa e velha diversificação global, que mitiga qualquer entrevero em algum país comprador ou vendedor.
“As notícias deste Ano Novo, de certa forma, corroboram a visão deste relatório. A JBS continua sendo nossa única ação com recomendação de compra no setor de proteínas”, disseram os analistas do BTG no novo relatório.
O que diz a China?
Uma publicação da Xinhua, agência estatal chinesa, cita que a imposição das medidas visa “ajudar a indústria nacional a superar as dificuldades atuais, e não restringir o comércio normal”.
O artigo informa que a investigação iniciada em 2024 foi feita devido a denúncias apresentadas por associações locais do setor, que disseram que o aumento acentuado no volume de carne bovina importada impactou significativamente a indústria nacional da China.
“A China sempre agiu com prudência na implementação de medidas de salvaguarda. Antes, havia apenas iniciado investigações de salvaguarda e imposto medidas sobre produtos siderúrgicos e açúcar importados”, diz a publicação da Xinhua.
“Nos últimos anos, a melhoria dos padrões de vida impulsionou a crescente demanda por carne bovina, promovendo a expansão tanto da produção nacional quanto das importações”, segue o texto.
A tal pesquisa encomendada pelo MOFCOM identificou a um crescimento de 73,2% nas importações de carne bovina entre 2019 e 2024, com preços “significativamente menores” do que os praticados no mercado interno.
O levantamento ainda concluiu que, nesse intervalo, a participação de mercado da carne bovina importada subiu de 20% para 30%.
“A carne bovina importada, que inicialmente servia como complemento de mercado, aumentou drasticamente nos últimos anos e corroeu consideravelmente a participação de mercado da indústria nacional, levando a uma queda acentuada nos preços internos e a perdas generalizadas em todo o setor", disse Sha Yusheng, secretário-geral da Associação Chinesa de Agricultura Animal, no texto da Xinhua.
A decisão ainda aponta que países e regiões em desenvolvimento não estarão sujeitos à salvaguarda se a cota de importação não exceder 3% e a cota total da região não exceder 9%.
Apesar disso, as medidas serão aplicadas a esses países ou regiões a partir do ano seguinte, caso as condições não sejam cumpridas.
Resumo
- China cria sistema de cotas por três anos a partir de 2026, com tarifa extra de 55% sobre a carne bovina importada fora do limite, atingindo diretamente o Brasil
- Brasil fica com cerca de 1,1 milhão de toneladas da cota, mas terá de buscar novos destinos para pelo menos 400 mil toneladas hoje embarcadas aos chineses
- BTG vê impacto administrável no curto prazo, mas alerta que a China pode deixar de ser o principal vetor de crescimento dos frigoríficos no longo prazo