A Raízen segue o mantra de reduzir de tamanho para diminuir o endividamento bilionário. A joint venture entre Cosan e Shell anunciou, nesta sexta-feira, 29 de agosto, a venda das usinas Rio Brilhante e Passa Tempo, ambas localizadas no município de Rio Brilhante (MS), por R$ 1,543 bilhão à Cocal Agroindústria.

Segundo comunicado, a operação envolveu, além das duas unidades vizinhas e com capacidade de moagem de 6 milhões de toneladas por safra, a cessão da cana própria e dos contratos com fornecedores vinculados a essas unidades.

Do total, R$ 1,325 bilhão são dos ativos negociados e R$ 218 milhões em investimentos em manutenção de entressafra deste ano, integralmente assumidos pela Cocal.

“O pagamento será realizado à vista na conclusão da operação, sujeito a eventuais ajustes usuais para negócios desta natureza. Essa transação está alinhada à estratégia da Companhia de otimização do portfólio de ativos, simplificação das operações e captura de eficiências, com foco na melhoria da rentabilidade de seu portfólio agroindústria”, justificou a Raízen.

O valor recebido, de R$ 1,543 bilhão, no entanto, é menor do que o prejuízo da Raízen apenas no primeiro trimestre da safra 2025/2026.

No período, de abril a junho deste ano, a companhia relatou prejuízo líquido de R$ 1,8 bilhão, avanço de 55% na dívida líquida, que encerrou o período em R$ 49 bilhões. A alavancagem medida pela dívida líquida versus o Ebitda, saiu de 2,3 vezes para 4,5 vezes.

Após a conclusão do negócio, que ainda depende do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e os outros desinvestimentos já feitos no setor sucroenergético, a Raízen ainda ficará com 25 usinas, com capacidade instalada de moagem de aproximadamente 75 milhões de toneladas por safra.

Já a Cocal, com duas usinas no Oeste de São Paulo - em Paraguaçu Paulista e Narandiba - deve superar 14 milhões de toneladas de cana processadas por safra com a aquisição das duas unidades sul-mato-grossenses.

O guidance da companhia prevê, na safra 2025/26, um processamento entre 7,8 milhões e 8,6 milhões de toneladas de cana, em linha com o resultado da safra passada, quando a moagem chegou a 8,27 milhões.

A primeira reação do mercado ao negócio foi positiva. Logo na abertura dos pregões da B3, as ações da Raízen subiam mais de 4,5%, negociadas, às 10h15, a R$ 1,14.

Jornada de três anos

Após o acirramento da crise financeira, há dois anos, a Raízen iniciou um movimento de desinvestimentos em ativos fora do setor, venda e fechamento de usinas, cortes de custos e alongamento de dívidas, com emissão de novos títulos. A diretoria da empresa cita “jornada de até três anos”, iniciada no ano passado, até a reestruturação ser finalizada.

A companhia captou R$ 5,9 bilhões, incluindo a emissão de US$ 750 milhões em títulos com prazo de sete anos. Adicionalmente, até o final deste ano-safra, a Raízen espera receber cerca de R$ 2,6 bilhões relativos a desinvestimentos já anunciados, classificados pelos executivos como “simplificação de portfólio”.

Em call com analistas após o balanço do primeiro trimestre de 2025/2026, a CEO da Raízen, Nelson Gomes, citou a venda da Usina Leme, a desativação do Bioparque MB e, mais recentemente, o fechamento da histórica Santa Elisa, com a negociação de R$ 1,04 bilhão em cana para outras empresas no entorno. Fora do setor sucroenergético, se desfez de diversas unidades de geração distribuída.

O CFO da Raízen, Rafael Bergman, reforçou que futuros desinvestimentos seguem a mesma linha dos já feitos e que possuem menos sinergia com o portfólio ideal remanescente, com foco em boa rentabilidade.

“O negócio de etanol, açúcar e bioenergia é estratégico e pode ser mais rentável. Isso pode vir de avenidas distintas, seja um desinvestimento, mas também tem que incluir os ativos que ficam, que precisam ganhar eficiência e produtividade”, afirmou o CFO.

“O resultado final da jornada pensa em todos elementos e queremos ter um portfólio enxuto, sinérgico e com escala”, completou.

No caso mais recente, da Usina Santa Elisa, a decisão de fechar a unidade foi, segundo o CFO, por se tratar de ativo deficitário. Ele cita que, em alguns casos, a Raízen percebe que o ativo não é rentável suficiente para a companhia, mas que pode ser para terceiros.

Contramão

Na contramão da vendedora, o diretor corporativo financeiro da Cocal, Ailton Santos, citou “o ciclo de investimento relevante nos últimos anos” da companhia, que coincidiu com a apreciação dos preços de commodities, na última terça-feira, 26 de agosto, durante evento da XP Investimentos em São Paulo.

“Conseguimos fazer com que o retorno da companhia fosse reinvestido, seja em ganho de eficiência ou diversificação”, afirmou. Segundo ele, o fato de a empresa ser uma do setor que mais se diversificou a deixa preparada para ciclos de mais resiliência.

Resumo

  • Raízen vende usinas Rio Brilhante e Passa Tempo por R$ 1,543 bi à Cocal, como parte da estratégia de redução da dívida
  • Valor recebido é inferior ao prejuízo de R$ 1,8 bi no 1º tri da safra 2025/26; dívida líquida já chega a R$ 49 bi
  • Após a operação, Raízen mantém 25 usinas, com capacidade instalada de moagem de aproximadamente 75 milhões de toneladas por safra