Durante vários anos, o empresário Ricardo Faria, fundador da Granja Faria e controlador da Glbal Eggs, maior produtora de ovos do mundo, sonhou com um IPO. Sua estratégia era encontrar uma forma de capitalizar seu grupo para financiar o crescimento veloz, feito através de aquisições.

Em maio passado, ele anunciou que havia desistido do plano de abertura de capital, pelo menos temporariamente. Faria havia acabado de concluir sua mais ousada compra, a da americana Hillandale Fams, por US$ 1,1 bilhão. Para a operação, contraiu um financiamento junto aos bancos Rabobank e Itaú BBA.

“Nossa ideia sempre foi crescer, e acho que hoje temos uma plataforma de crescimento nos EUA, Europa e Brasil que não necessita de IPO. Podemos voltar a falar disso em 2026, mas hoje isso é um ‘não assunto’ na empresa”, disse o fundador da Global Eggs na ocasião.

Se o IPO não veio, a capitalização (agora necessária para manter o fôlego financeiro do grupo) acaba de chegar por outro meio. Nesta segunda-feira, 2 de março, uma das mais tradicionais firmas de private equity dos Estados Unidos, a Warburg Pincus, anunciou um investimento que pode chegar até a US$ 1 bilhão na Global Eggs.

Com os recursos, o fundo Warburg Pincus Capital Solutions Founders Fund (WPCSFF), responsável pelo aporte, passa a deter o equivalente a 12,5% do capital da companhia de Faria, que tem sede em Luxemburgo. O próprio fundo informou que, durante o processo de aquisição, avaliou a Global Eggs em US$ 8 bilhões.

O WPCSFF foi fechado em 2024, com cerca de US$ 4 bilhões captados junto a investidores institucionais atraídos pelo histórico de sucessos da Warburg Pincus, que ao longo de 60 anos fez aportes em cerca de 1,1 mil empresas. Atualmente, a firma tem mais de US$ 100 bilhões sob gestão e possui participações em 215 companhias.

"Em menos de uma década, expandimos a Global Eggs para nos tornarmos a maior produtora e distribuidora multinacional de ovos de mesa e, com o investimento e o apoio contínuo da Warburg Pincus, aceleraremos nosso próximo capítulo de crescimento em mercados novos e existentes", afirmou Ricardo Faria na nota distribuída pelo investidor.

"Comprovamos nossa capacidade de execução nos Estados Unidos, na América do Sul e na Europa e, dada a abrangência global da Warburg Pincus, acreditamos que ela é a parceira ideal para impulsionar nossas ambições de longo prazo."

As ambições podem se voltar ao IPO. Como empresa de private equity, a Warburg Pincus é especializada em adquirir participações em empresas que se preparam justamente para negociar ações em bolsa, uma porta de saída frequente para seus investimentos.

A visão do grupo americano é bem diversificada, mas a estratégia costuma ser seguida à risca. No portfolio do WPCSFF, por exemplo, estão desde uma empresa especializada em CRM para o mercado de varejo de automóveis, a Drive Centric, até uma companhia com um modelo de partnership para dentistas, voltada a oferecer serviços de odontologia, a MB2 Dental.

O que define os aportes do fundo é, segundo seus gestores, o perfil do fundador das empresas candidatas a recebê-los. A trajetória de Faria, assim, foi determinante, segundo apontou Gaurav Seth, diretor-geral e chefe de Soluções de Capital para as Américas da Warburg Pincus.

A partir de uma granja em Santa Catarina, ele construiu, em menos de oito anos, um imério global com mais de 50 unidades, com mais de 45 milhões de aves em suas operações nos Estados Unidos, América do Sul e Europa. A Global Eggs deve produzir mais de 15 bilhões de ovos este ano, atingindo uma receita próxima dos US$ 3 bilhões.

"Ricardo é um empreendedor excepcional e, desde o primeiro dia, compartilhamos da sua visão de construir sobre a base sólida da empresa em uma categoria com demanda consistente", disse Seth.

O investimento dará à Warburg Pincus uma cadeira no Conselho de Administração da Global Eggs. Ela será ocupada por Allison Ross, diretora da empresa. Segundo ela, "a Global Eggs tem uma oportunidade empolgante e significativa pela frente”.

“Estamos ansiosos para usar nossa experiência para ajudar a empresa a entrar em novos mercados, impulsionar a eficiência e fortalecer suas marcas".

Com a chancela da Warburg Pincus, Faria obtém um reconhecimento global que pode destravar seus planos. Crítico das taxas de juros altas e do ambiente de negócios do Brasil, ele vem há anos buscando se posicionar como um player global, capaz de se distanciar das instabilidades do mercado doméstico, algo que agora parece ter conseguido de forma definitiva.

A decisão de levar a sede da Global Eggs a Luxemburgo já seguia essa estratégia. Naquele país, além de impostos menores, a companhia consegue “ficar mais confiável em relação ao mundo”, segundo afirmou o empresário em entrevista ao AgFeed em junho do ano passado.

Capitalizado, não é improvável que volte às compras. “Enquanto a nossa capacidade de execução for melhor que a do mercado, a gente vai continuar comprando. Não tem por que não parar. Mas tem que comprar lá fora”, disse na entrevista.

A Global Eggs se soma a outros poucos investimentos do Warburg Pincus no agro brasileiro. Em 2016, a firma comprou da Gávea Investimentos uma participação de 31,8% na Camil Alimentos e chegou a ser uma das candidatas a vendedora em um processo de IPO em 2017. Mas se desfez do negócio apenas três anos depois de sua entrada.

Atualmente, a empresa é sócia da Alper Consultoria e Corretora de Seguros, que tem no setor um de seus principais mercados.

Resumo

  • A Warburg Pincus pode investir até US$ 1 bilhão na Global Eggs, de Ricardo Faria, avaliando a companhia em US$ 8 bilhões
  • Após suspender planos de abertura de capital, o empresário garante recursos para sustentar expansão internacional via aquisições
  • Com produção estimada em 15 bilhões de ovos e receita próxima de US$ 3 bilhões, a empresa deve manter o IPO como opção futura