A história da fabricante argentina de colheitadeiras Vassalli vale um tango. Mais de 75 anos de mercado, pioneira mundial no desenvolvimento de algumas soluções, ícone da resistência local ao avanço das multinacionais do setor.
Tudo isso foi pouco, entretanto, na negociação da quarta troca de controle na companhia, concluída na última quarta-feira, 26 de agosto. Pelo valor simbólico de apenas US$ 1, um grupo empresarial liderado pelo executivo Roberto Santiago Chinelli assumiu o comando da empresa, antes nas mãos da família Marsó, tradicional produtora rural, com foco em avicultura.
O novo dono leva uma fábrica praticamente parada, com encomendas atrasadas há quase dois anos e funcionários salários atrasados há dez meses. E também um passivo trabalhista, comercial e financeiro de valor incerto, mas que vem se acumulando há pelo menos uma década.
Fundada em 1949 por Roque Vassalli, na cidade de Firmat, no sul da província de Santa Fé, a companhia foi por décadas a cara das colheitadeiras argentinas e líder do mercado local.
Nos anos 1950, chegou a introduzir inovações globais na tecnologia de colheita do milho. Na década seguinte, sua melhor fase, vendia cerca de mil unidades por ano.
Hoje, além de dívidas, carrega apenas o título honorário de "última empresa de capital 100% nacional fabricante de colheitadeiras”, um posto que, na prática, apenas confirma a impotência de marcas locais diante das gigantes multinacionais que dominam o setor.
A crise que levou à mais uma venda não é nova e vem se aprofundando de forma acelerada nos últimos anos. Em 2018, com passivo declarado de mais de 547 milhões de pesos — em sua maioria com o Banco Nación —, a empresa fez o primeiro pedido de concurso preventivo, uma espécie de recuperação judicial segundo as leis argentinas.
Dois anos depois, a Vassalli foi adquirida pela companhia Financiamiento Estratégico SA, que assumiu a sua gestão e reativou a planta. As dívidas foram equacionadas, com um plano de recuperação homologado.
Os problemas estruturais, no entanto, permaneceram e a debacle voltou a se intensificou a partir de 2023, juntamente com problemas climáticos e financeiros atingindo em cheio os produtores argentinos.
Uma forte seca, a falta de financiamento, a instabilidade cambial e a alta inflação deprimiram o mercado de máquinas e a Vassalli deixou de aceitar novas vendas para cumprir compromissos assumidos.
Foi a deixa para uma nova troca de comando. No início de 2024, Eduardo Marsó e sua família, de tradição avícola, compraram a empresa por cerca de US$ 8 milhões, prometendo reativação.
Não conseguiram cumprir o compromisso. No ano seguinte, começaram os atrasos salariais, os fornecedores suspenderam entregas e, perto do fim do ano, a produção foi totalmente paralisada.
Não há dados sobre o total das dívidas da Vassalli. O que se sabe, segundo informações publicadas na imprensa local, é que, no início de junho passado, a empresa acumulava 869 cheques rejeitados, somando 1,337 bilhão de pesos (o equivalente a US$ 870 mil, no câmbio atual), além de salários e obrigações com fornecedores não cumpridas.
À frente do novo grupo controlador, Roberto Chinelli assumiu o compromisso de quitar, em até 120 dias, os vencimentos do período entre setembro de 2025 e junho de 2026.
Quando a nova crise começou, há um ano, a empresa tinha cerca de 280 empregados. Em meados de agosto, falava-se em pouco mais de 200 operários, com parte dos trabalhadores deixando a companhia.
Chinelli não é um estranho à companhia. Ele tem relações com a Vassalli desde os anos 1990, quando representou acionistas minoritários, na época em que a empresa pertencia ao grupo Koner-Salgado. Depois, participou da gestão da Financiamento Estratégico e permaneceu como gerente geral nos primeiros meses da família Marsó.
Agora, será a cara visível de um novo plano de recuperação, que prevê a retomada gradual da atividade com um ciclo inicial de 30 colheitadeiras, a recuperação do vínculo com fornecedores, a liberação de componentes ainda retidos na alfândega e um programa para saldar as dívidas salariais.
A intenção declarada é alcançar a plena produção industrial em novembro. Superada a etapa de saneamento, a empresa teria ainda planos para desenvolver uma nova família de colheitadeiras para o segmento médio do mercado, a chamada Línea 80, com componentes de fornecedores europeus, como Claas, Bosch e Scania.
O processo, porém, ainda enfrenta incertezas. Os prazos inicialmente previstos para o pagamento dos salários sofreram prorrogação por causa da demora na formalização da operação.
A empresa também tem colheitadeiras já comercializadas cujas entregas atrasaram durante a crise, que serão atendidas como parte da normalização — caso de uma Vassalli 770 prevista para novembro de 2024 e ainda não finalizada.
No horizonte, a expectativa é que, depois de anos de instabilidade, paralisações e sucessivas trocas de comando, a "escoba nueva" (vassoura nova, numa tradução livre do espanhol), como dizem os argentinos, finalmente varra bem.
Resumo
- A fabricante argentina de máquinas Vassalli foi vendida por apenas US$ 1 e terá novo controlador pela quarta vez em uma década
- O grupo assume uma empresa com produção paralisada, dívidas acumuladas, salários atrasados e encomendas pendentes
- O plano prevê retomar gradualmente a fábrica, quitar débitos e desenvolver uma nova linha de colheitadeiras para recuperar o ícone argentino