Uma maré de incertezas tomou conta do setor de aquacultura ao longo do último ano. Primeiro, veio o tarifaço promovido pelo governo americano entre agosto e novembro do ano passado, que sobretaxou em 50% de produtos importados do Brasil pelos Estados Unidos, impactando negativamente o envio de tilápia e mais de 200 itens à terra do Tio Sam.
Depois o setor teve de conviver também com a entrada forte de filé de tilápia vindo do Vietnã. No início de 2025, o Ministério da Agricultura e Pecuária passou a permitir novamente a importação do peixe vindo do país do Sudeste Asiático.
Antes disso, uma sanção foi aplicada no começo de 2024 e ficou vigente ao longo de todo aquele ano em função de riscos sanitários envolvendo a possível entrada do vírus TiLV (vírus do lago da tilápia), contagioso e letal aos peixes.
É nesse contexto de desafios que tem vivido uma das principais exportadoras de tilápia do Brasil, a Fider Pescados, empresa do grupo paulista MCassab.
O conglomerado, dirigido pela família Cutait, faturou R$ 3,2 bilhões em 2024 e tem negócios bastante diversificados, indo muito além do segmento de pescados.
O MCassab também possui atuação nos mercados de nutrição e saúde animal, na distribuição de produtos químicos e também no varejo: é dono da rede varejista Spicy, de utensílios domésticos, e opera as lojas da indústria de brinquedos dinamarquesa Lego no Brasil.
A Fider hoje não revela seu faturamento. Há dois anos, em 2024, a receita era de cerca de R$ 150 milhões, segundo o portal Globo Rural.
Cerca de metade das vendas da Fider era destinada ao mercado externo e a outra metade era destinada ao mercado interno.
Mas após a imposição das tarifas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o percentual exportado caiu de 50% para 35%. O mercado americano responde por 60% do volume total de remessas da Fider.
A empresa até ampliou os volumes enviados para o Canadá como forma de diversificar mercados, mas esse número de envios foi insuficiente para conter a queda de exportações.
"Com 50% de tarifa para a gente e os nossos concorrentes com 10%, ficou bem desbalanceado, quase que impossível competir", conta Juliano Kubitza, diretor-geral da Fider, ao AgFeed.
A concorrência da tilápia vinda do Vietnã é outro ponto de preocupação para o diretor da Fider. “O Vietnã produz praticamente metade do que o Brasil produz. Eles têm um consumo interno importante e não deveria nos causar medo. Mas chega aqui em condições de preço que preocupam”, diz Kubitza.
Além do preço, o diretor da Fider critica também as condições de produção de tilápia no Vietnã, que diz não serem adotadas pela indústria no Brasil.
“Indústrias que acrescentam água na fibra muscular com o uso de sais, usam monóxido de carbono para deixar o filé mais clarinho, o que não pode por aqui”, diz. “Se o Vietnã quer produzir e vender tilápia usando antibióticos que não podem ser usados no Brasil, isso é um problema deles. Agora, mandar para cá, não”, emenda.
Kubtiza diz ser a favor de uma competição “leal” e que o governo brasileiro deveria intervir no assunto.
“Acho que está faltando essa harmonização que nesse momento deveria partir do Brasil. Nós deveríamos ter uma comitiva robusta, tanto do governo quanto dos empresários, que vão avaliar e estabelecer critérios mínimos que permitam uma planta de lá ser credenciada a vender no Brasil”, argumenta.
Governos estaduais têm adotado medidas em paralelo para proteger os produtores locais, caso dos Estados de São Paulo, que passou a aplicar, no mês passado, uma tarifa de 7% sobre a tilápia importada, e de Santa Catarina, que proibiu, no fim de 2025, a entrada do peixe vindo do Vietnã no território catarinense.
O menor fluxo de remessas para os Estados Unidos associada à entrada de produtos vindos do Vietnã e o alto nível da taxa Selic, hoje em 14,25% ao ano, fez também com que a empresa mantivesse congelado o plano de expansão de sua produção de pescados, anunciado ao mercado no fim de 2024.
A ideia da Fider era ter uma nova fazenda de engorda de peixes em Pedregulho (SP), junto à represa do Estreito, com capacidade de produção de 8 mil toneladas de tilápia por ano e a instalação de 400 tanques-rede, ao custo de R$ 5 milhões.
A unidade praticamente dobraria a capacidade produtiva da Fider, que hoje é de 9,6 mil toneladas em uma fazenda de peixes instalada em Rifaina (SP).
Também estavam nos planos outra área de produção na represa de Igarapava, às margens do Rio Grande, em São Paulo. Nada saiu do papel.
"Não tem como fazermos esse investimento, só alguém imprudente faria", argumenta Kubitza.
Para repor os volumes que deixaram de ser exportados ao Brasil, a Fider vem tentando buscar fortalecer seu mercado interno, que também tem limitações.
Hoje sua atuação está presente apenas no estado de São Paulo e, por mais que a Fider tente expandir sua abrangência, acaba sendo impedida pela tributação interestadual.
“Mas a tributação interestadual é extremamente dolorosa para quem não está no Estado. Nós estamos aqui na divisa com Minas, mas para eu vender peixe para Minas tem ICMS. E, para exportar, não”, diz.
Por aqui, a estratégia da empresa está concentrada em um posicionamento premium.
Um dos principais diferenciais, segundo Juliano Kubitza, está na rapidez logística que consegue entregar o produto em diferentes municípios do interior paulista e também da capital.
“No eixo de Rifaina, que passa por Franca, Ribeirão, Campinas, Jundiaí e São Paulo, entregamos o peixe em menos de 24 horas após o abate”, ressalta.
O produto em si também é de qualidade, garantindo maior valor agregado. Juliano Kubitza ressalta que o frescor e a qualidade da água onde os peixes são cultivados resultam em uma tilápia sem o chamado off-flavor – sabor característico de peixe de rio que reduz a aceitação do produto.
"A nossa tilápia é reconhecida por não ter esse problema. Ela é muito pura. Se você temperar com o que quer que seja, ela pega o gosto do tempero", diz.
Nova fronteira
A Fider nasceu a partir da percepção do grupo MCassab, no fim dos anos 2000, de que a piscicultura seria a próxima grande cadeia de proteína animal a se desenvolver no Brasil.
"A onda do boi, do frango e do suíno já havia acontecido. O pescado estava no começo de uma onda e eles entenderam que conseguiriam entrar numa cadeia de proteína sem ter que ser um gigante", recorda Kubitza.
O projeto começou em 2011, com a produção em tanques-rede no reservatório em Rifaina (SP).
O pequeno município do interior paulista, a 467 quilômetros de distância da capital do Estado, é banhado pelo Rio Grande, curso d’água que divide os estados de São Paulo e Minas Gerais.
“A água do Rio Grande é extremamente límpida, tem oxigênio bom. É uma água boa para cultivo”, ressalta Juliano Kubitza.
Três anos depois, em 2014, entrou em operação o frigorífico de peixes, que abate 40 toneladas por dia e tem capacidade de processar 20 mil toneladas por ano.
Mais tarde, já em 2020, a empresa inaugurou uma fábrica para produção de farinha e óleo de peixe, permitindo o aproveitamento integral da matéria-prima.
Também em 2020, a empresa iniciou um processo de certificações internacionais voltadas para a aquicultura, com foco em bem-estar animal, responsabilidade social e sustentabilidade ambiental.
As auditorias avaliam indicadores como qualidade da água, manejo ambiental e processos industriais, permitindo à empresa acessar mercados mais exigentes.
Foi esse movimento que abriu caminho para as exportações de filés para Estados Unidos e Canadá.
Durante a pandemia, as operações ainda foram limitadas pelas dificuldades logísticas, especialmente no transporte aéreo, mas a estratégia de internacionalização foi mantida. A consolidação veio apenas em 2024.
Hoje, segundo Kubitza, 100% da tilápia processada é comercializada. Além dos filés, a companhia vende pele, escamas, farinha e óleo, coprodutos do processamento dos peixes, para o mercado internacional. A pele segue para mercados como Japão e Taiwan, enquanto a farinha abastece indústrias de nutrição animal e pet food nos Estados Unidos.
Resumo
- Exportações da Fider, uma das maiores exportadoras de tilápia do Brasil, recuaram após tarifa de 50% dos EUA
- Crescimento de importação de peixes do Vietnã também tem dificultado o dia-a-dia da companhia
- Empresa suspendeu projeto que quase dobraria sua produção diante das incertezas, Selic elevada e avanço de tilápias importadas