O setor de aviação entrou em 2026 sob contagem regressiva. A partir do ano que vem, as empresas aéreas terão de começar a usar SAF (combustível sustentável de aviação, na sigla em inglês) de maneira mais intensiva para cumprir as metas de redução de gases de efeito estufa previstas pela lei do Combustível do Futuro.

O ponto de partida será uma redução de 1% nas emissões a partir do uso de SAF pelas companhias, com avanço progressivo até alcançar 10% em 2037.

Até aqui, as fabricantes utilizam SAF apenas de forma pontual. Mas a tendência é de que o mercado mude rapidamente com a obrigatoriedade da utilização do combustível sustentável.

Essa situação abre uma janela de oportunidades para a Petrobras, que vem se preparando para atuar com força neste mercado.

Para André Bello, gerente de PD&I em Produtos Sustentáveis da estatal, o avanço desse mercado exige uma mudança de lógica em relação ao modelo tradicional baseado apenas em metas volumétricas, como ocorre hoje com o biodiesel.

“A demanda pela intensidade de carbono passa a ser mais relevante, retrocedendo por toda a cadeia”, afirmou Bello durante painel de um seminário realizado pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleo Vegetal (Abiove) e Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) nesta quinta-feira, dia 23 de abril, em São Paulo (SP).

Nesse contexto, ganha força a ideia de separar o produto físico de seu atributo ambiental, ou seja, permitir que a certificação de redução de emissões seja negociada independentemente do combustível em si.

Esse modelo é viável a partir do Certificado de Sustentabilidade de SAF (CS-SAF), um ativo digital negociável que permite que aéreas comprem de produtores e importadores de SAF certificados para cumprir metas de descarbonização, no modelo conhecido como book & claim.

Assim, o certificado estaria separado do querosene físico, que poderia ser ofertado à outra empresa.

O CS-SAF também serviria para as empresas comprovarem que estão cumprindo suas metas de descarbonização. A ideia do governo é que todo SAF produzido ou comercializado no Brasil esteja atrelado a um certificado CS-SAF.

Um decreto está sendo finalizado neste momento pelo Executivo para normatizar o mercado aberto e a compra de certificados de SAF pelas aéreas. Uma minuta foi disponibilizada no ano passado para consulta pública.

Isso exige de companhias que estão se inserindo na produção e comercialização de SAF, como a Petrobras, um cuidado redobrado na obtenção das matérias-primas.

Insumos como óleo de cozinha usado, gorduras residuais e biomassas de segunda safra tendem a ter menor pegada de carbono, mas são mais difíceis de rastrear e padronizar, diz André Bello.

"Quando a gente começa a colocar óleo de cozinha usado, em que é mais difícil rastrear essas matérias-primas, começa a ter preços vantajosos, eventualmente igualando e até superando o óleo refinado, e também aumenta o risco de fraude", disse o executivo da Petrobras.

Para enfrentar esse desafio, Bello afirmou ainda que a estatal inclusive está desenvolvendo, neste ano, um projeto piloto em parceria com a PUC-Rio para trabalhar com tokens digitais e blockchain. “A ideia é tentar facilitar essa rastreabilidade em toda a cadeia”, disse o executivo da Petrobras, econômico nos detalhes.

Outro ponto destacado por Bello foi a convergência entre os critérios de certificação do SAF e os mecanismos já existentes no Brasil, como o RenovaBio. A expectativa é que o futuro marco regulatório brasileiro incorpore metodologias semelhantes para cálculo da intensidade de carbono.

“Esperamos também que no combustível do futuro tenha essa similaridade também com os critérios de cálculo de intensidade de emissões do Renovabio.”, disse.

Coprocessamento e mais

Do ponto de vista industrial, o coprocessamento tem sido a principal aposta da Petrobras para acelerar a entrada no mercado de SAF. Essa tecnologia permite a produção de querosene de aviação com conteúdo renovável – em geral, óleos vegetais – a partir da adaptação de refinarias existentes.

“A gente costuma ser pragmático. Precisamos garantir tecnologia disponível e adaptar nossos ativos dentro do tempo necessário. O coprocessamento é hoje a forma mais rápida de acessar esse mercado com qualidade”, afirmou Bello.

Foi assim que a Petrobras conseguiu fazer as primeiras entregas de SAF no ano passado, um volume de 3 mil metros cúbicos do biocombustível, que foi produzido na Refinaria Duque de Caxias (Reduc), na Baixada Fluminense, e utilizou óleo de milho em seu processo produtivo. O combustível foi comercializado com distribuidoras que operam no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro.

A Reduc possui autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para incorporar até 1,2% de matéria-prima renovável na produção de SAF.

Na prática, com apenas 1%, é possível cumprir, num primeiro momento, os percentuais baixos de redução de CO2 exigidos para as empresas do setor aéreo pela lei do Combustível do Futuro.

A unidade de Duque de Caxias utiliza a tecnologia HEFA (sigla em inglês para Hydroprocessed Esters and Fatty Acids), que converte óleos vegetais e gordura animal em combustível renovável através de um processo de hidroprocessamento.

Bello diz que a Petrobras avança na adaptação de outras unidades para também coprocessarem o SAF.

A Refinaria Henrique Lage (Revap), de São José dos Campos (SP), já está apta, aguardando agora a certificação internacional ISCC CORSIA, que atesta conformidade para produção e comercialização de combustíveis sustentáveis de aviação.

Outras estão recebendo melhorias que devem ficar prontas neste ano, caso da Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim (MG), e da Refinaria de Paulínia (Replan), em Paulínia (SP), diz Bello.

Em paralelo, a estatal também tem projetos para plantas dedicadas apenas à produção de SAF.

Duas dessas unidades trabalharão com a rota de produção HEFA. Uma dessas plantas ficará anexa à Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão (SP), prevista para 2029, com produção prevista de 16 mil barris de petróleo por dia.

A outra, ainda em fase de estudos, estará junto ao Complexo de Energias Boaventura, em Itaboraí (RJ), com produção prevista de 19 mil barris de petróleo por dia e projetada para sair do papel após 2030.

A Petrobras prevê ainda uma terceira unidade, junto à refinaria de Paulínia, no interior paulista, também em fase de estudos. Mas, ao contrário das demais, essa utilizará tecnologia Alcohol-to-Jet (AtJ), com obtenção do SAF via etanol a partir da cana-de-açúcar.

A produção prevista é de 10 mil barris de petróleo por dia e a projeção da estatal é de que a unidade fique pronta após 2030.

Resumo

  • Petrobras está se preparando para produzir e comercializar combustível sustentável de aviação (SAF)
  • Demanda por SAF deve ganhar impulso a partir do ano que vem com empresas aéreas tendo de cumprir metas de descarbonização
  • Garantia de origem das matérias-primas e certificação de SAF são pontos ainda a serem superados