O agronegócio brasileiro, historicamente visto como a "locomotiva" da nossa economia, enfrenta hoje um de seus ciclos mais pedagógicos das últimas décadas.

O cenário robusto deu lugar a um quadro de forte alavancagem e endividamento, o que força a cadeia produtiva à escolha inevitável da eficiência na gestão – caso contrário, estará fadada à obsolescência operacional.

Desde 2023, o setor atravessa uma “tempestade perfeita”. Nas linhas de crédito, o motor do campo, esbarramos em uma Selic persistentemente alta, com poucas perspectivas de queda relevante para 2026. Somam-se a isso o dólar volátil, o baixo preço das commodities e a alta dos insumos, todos impulsionados por um cenário geopolítico fragmentado.

O resultado disso é o aumento considerável nos pedidos de recuperação judicial, um movimento que transformou a régua de concessão de crédito no setor.

É nesse contexto de turbulência que emerge uma nova arquitetura de liderança no Agro. A era da gestão "artesanal" ou puramente familiar está sendo substituída pela necessidade de mitigação de riscos e processos rígidos de governança.

O mercado parou de buscar apenas "quem entende de terra" para disputar, agressivamente, quem entende de gestão de caixa, captação, renegociação, crédito e cobrança.

Essa mudança de paradigma reflete-se diretamente nos mandatos de busca por talentos. Os dados da FESA Group revelam que as contratações para áreas financeiras e de risco praticamente dobraram em 2024, com foco nítido no Centro-Oeste.

Em 2025, a tendência de alta se manteve, quando registramos um crescimento de 36% na demanda por posições de crédito e 53% para cadeiras financeiras seniores, como CFOs e Heads de Controladoria.

Ao fecharmos o primeiro trimestre de 2026, a percepção é de que essa "onda de profissionalização" não é passageira, mas uma nova realidade.

O produtor rural e as agroindústrias agora buscam diretores financeiros não apenas para blindar o caixa contra a inadimplência, mas para garantir a sobrevivência e a atratividade perante investidores, fornecedores e compradores.

Há, também, o fator invisível da Reforma Tributária. Com grande parte do setor ainda operando em zonas de informalidade, a busca por especialistas tributários e contábeis deve explodir nos próximos anos.

As empresas estão percebendo que o compliance digital e a transparência fiscal serão os novos critérios de produtividade a serem adotados pelo mercado.

O agronegócio brasileiro continuará sendo gigante, mas o tamanho do sucesso passará a ser medido pela precisão da controladoria, não apenas pelo volume da safra.

Para quem investir em governança, as expectativas são de uma caminhada sólida. Para os demais, o custo de permanecer na informalidade será alto.

Anderson Schemberg é vice-presidente e sócio da FESA Group.