A agricultura brasileira chegou ao protagonismo global não por acidente, mas pela combinação rara de três fatores: escala produtiva, capacidade de inovação e disposição permanente para aprender e executar com excelência.
Essa tríade, construída ao longo de décadas, coloca o Brasil em uma posição singular no debate sobre o futuro da produção de alimentos e energia renovável - e impõe uma responsabilidade que vai além das fronteiras do campo.
Os números são eloquentes. Segundo a Conab, nas últimas cinco décadas a área cultivada no país pouco mais que dobrou, enquanto a produção de grãos cresceu mais de sete vezes. Esse salto de produtividade reflete investimento consistente em genética, biotecnologia, proteção de cultivos, práticas agronômicas avançadas e, mais recentemente, a integração entre biológicos e digitalização.
Temos um ecossistema de inovação construído com método e persistência e que hoje desperta interesse crescente em agricultores de todo o mundo.
Mas há um aspecto desse protagonismo que raramente aparece nas análises econômicas sobre o agronegócio brasileiro: nossa capacidade de aprender também com os outros. E é justamente essa disposição para o intercâmbio que pode definir o ritmo da próxima fase de desenvolvimento do setor.
Produtores de países como Estados Unidos, Austrália, Quênia e Indonésia olham para o Brasil com certa admiração e curiosidade. Nossa experiência em agricultura tropical de alta intensidade, no plantio direto em larga escala e no uso integrado de tecnologias é reconhecida como referência global.
Há um conhecimento acumulado aqui (técnico, mas também cultural), que não existe em nenhum outro lugar do mundo. O amor pela terra, que atravessa gerações de agricultores brasileiros, é, sim, um ativo competitivo.
Ao mesmo tempo, seria um erro estratégico interpretar esse reconhecimento como ponto de chegada. O cenário que o agronegócio enfrenta de mudanças climáticas acelerando a pressão sanitária sobre as lavouras, crescente escrutínio regulatório dos mercados importadores, transição energética e necessidade de descarbonização, exige respostas que nenhum país conseguirá construir sozinho.
Redes globais de agricultores, como a Global Farmer Network (GFN), têm desempenhado um papel relevante nesse sentido. A organização conecta produtores de diferentes países em torno de desafios comuns, promovendo programas de treinamento em comunicação, ciência e posicionamento público que são habilidades cada vez mais necessárias em um debate sobre agricultura que, infelizmente, ainda é dominado por quem não planta.
Visitas técnicas a centros de pesquisa, lavouras experimentais e propriedades produtivas fazem parte dessa agenda de intercâmbio que permite mais que a transferência de tecnologia: a construção de confiança entre pares que enfrentam os mesmos desafios com contextos diferentes.
Essa experiência reforça uma convicção que orienta minha visão sobre o futuro do setor: a inovação agrícola mais duradoura não nasce apenas nos laboratórios ou nas casas de vegetação. Ela nasce também no diálogo com quem vive o campo todos os dias e na capacidade de transformar esse diálogo em soluções aplicáveis em escala.
Para o Brasil, isso significa duas coisas práticas. Primeiro, investir ativamente em plataformas de troca de conhecimento com agricultores de outras regiões, não apenas como receptores de interesse, mas como protagonistas que constroem junto. Segundo, garantir que os avanços desenvolvidos aqui — nas universidades, nas empresas de inovação, nas fazendas que testam o que ainda não tem nome — cheguem de forma organizada ao debate global sobre o futuro da alimentação.
Liderança, nesse contexto, não se exerce no silêncio. Ela se constrói na participação ativa em fóruns internacionais, na presença qualificada de produtores brasileiros nos espaços de formulação de políticas globais e na disposição para compartilhar o que funciona, sem abrir mão de continuar aprendendo o que ainda pode melhorar.
O Brasil já demonstrou que sabe produzir mais com menos área. O próximo desafio é demonstrar que também sabe liderar a construção coletiva de respostas para problemas que não respeitam fronteiras. Isso exige uma mudança de postura: de país que exporta commodities para país que exporta também conhecimento, método e visão de futuro.
Quando o conhecimento circula entre quem realmente trabalha com a terra, o campo inteiro avança. E com ele, a capacidade do Brasil de ocupar, de forma sustentável, o papel que a história e a geografia nos reservaram: alimentar e mover o mundo cuidando do nosso planeta.
Marcelo Batistela é vice-presidente de Soluções para Agricultura da BASF no Brasil.